Por Letícia Oliveira Menezes (leticiaomenezes@usp.br)
O Brasil, como último país das Américas a abolir a escravidão sofre com as mazelas remanescente desse sistema opressor. A falta de infraestrutura de acolhimento para os libertos pela Lei Áurea colaborou para que esses homens e mulheres se submetessem a trabalhos com condições semelhantes às vividas antes da abolição, denominamos assim os trabalhos análogos a escravidão.
Uma pesquisa realizada pela Walk Free, o Global Slavery Index, indicou que quase 50 milhões de pessoas são submetidas ao trabalho análogo à escravidão. No Brasil, os números são altos, com o total de 1,05 milhão de vítimas, o país ocupa o 11º lugar no ranking mundial com maior número absoluto de pessoas em situação de trabalho escravo. O levantamento dos aspectos econômicos do trabalho forçado, pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), apontou um lucro de 236 milhões de dólares por ano, no setor privado.

[Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons]
Produções cinematográficas sobre essa temática são de extrema importância para dar visibilidade a uma ocorrência pouco discutida no cotidiano nacional. O filme Pureza (2022) dá voz a uma heroína viva, maranhense e cabocla que enfrenta os horrores desse tipo de trabalho para encontrar seu filho caçula, Abel, em um país que se denomina livre.
O filme: enredo e personagens
“Ela enfrenta tudo e todos para encontrar o seu filho e acaba contribuindo para a criação das políticas públicas de combate ao trabalho escravo no Brasil, porque, para o Estado brasileiro, a escravidão tinha terminado lá no 13 de maio de 1888.”
– Renato Barbieri à Agência Tambor
Ambientado no norte brasileiro de 1993, a história de Pureza Lopes Loyola na busca por seu filho Abel é resumida em 101 minutos de tela. Cansado da árdua rotina de trabalho na produção de tijolos, Abel (Matheus Abreu) sai da Bacabal para tentar a sorte no garimpo paraense e fica sem dar notícias à sua mãe durante meses, que agoniada pela ausência do filho, viaja à sua busca.
No caminho, ela vai de encontro com aliciadores de pessoas para trabalho forçado em fazendas (conhecidos como “gatos”) e percebe que o filho pode estar em um desses campos. Com a desculpa de que poderia ser a cozinheira, Pureza (Dira Paes) entra no esquema e vê de dentro os horrores sofridos pelas pessoas aliciadas.
Destemida a mudar essa situação, com a ajuda do Padre flávio lazzarin, ela junta provas em formato de fotos, vídeos e aúdio para denunciar, em Brasília, a situação de escravidão moderna que esses trabalhadores passavam.
Após sua ação, houve uma mobilização nacional e a criação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), para o combate ao trabalho escravo em território brasileiro. Ao final do filme, alguns dados estatísticos demonstram a importância da atitude de Pureza para a vida desses trabalhadores: entre 1995 e 2017, 52 mil pessoas foram libertadas da situação análoga à escravidão, mas a política sofreu retrocessos em âmbito Federal.

Renato Barbieri, diretor do filme, em conversa com o IEL Unicamp deixa explícito que a luta de Pureza seguiu a premissa de que “a dor não pode esperar”. Quanto à pesquisa, Renato levou quase uma década para a produção desse filme – antes dele, havia trabalhado em outras produções que abordaram a escravidão -, desde o aceite da maranhense em 2007, o trabalho ficou pronto em 2020, mas devido a pandemia seu lançamento foi adiado. A apuração histórica faz com que a realidade severa vivida pudesse ser evidenciada da sua melhor maneira.
Para isso, além da equipe de profissionais atuantes, o elenco contou com cerca de 30 trabalhadores libertos como personagens das fazendas, o “olhar” de quem viveu revela mais verdade do que se imagina, segundo o diretor.
As discussões do filme
Várias são as temáticas que ganham visibilidade com a exibição de Pureza nas telas do cinema e plataformas de streaming.
A luta pelas condições dignas de trabalho, que passam pelo entendimento de cidadania e direitos, é um dos eixos principais. Diversas cenas trazem essa questão, mesmo de modo sútil e implícito, como quando os trabalhadores vão ao armazém da propriedade conversar com Narciso (Flávio Bauraqui) e ele recolhe suas identidades, a física (o documento propriamente) e mental (recebimento de um apelido).
Um estudo publicado por docentes da FACAM (Faculdade do Maranhão) sobre a importância do nome civil na sociedade e sua relação com a dignidade aponta que: “além de ser um direito fundamental, o nome civil garante o reconhecimento da personalidade jurídica e da cidadania, […] a legislação brasileira assegura o direito ao nome, bem como o seu registro, com o intuito de individualizar a pessoa no âmbito jurídico”.
Ou seja, ocorre para aqueles trabalhadores encarcerados a despersonalização do indivíduo, que tem roubada uma das primeiras coisas que recebem em vida: seu nome.

[Reprodução/Instagram: @purezaofilme e @dirapaes]
O trabalho de resistência foi tão importante que, em 1997, Pureza recebeu o prêmio Antiescravidão conferido pela organização abolicionista mais antiga em atividade no mundo, a Anti-Slavery International, sediada em Londres.
O protagonismo feminino também aparece no filme, a maranhense representa uma heroína na luta por suas convicções e nem o mais bruto dos homens pôde pará-la, o sistema não conseguiu detê-la, mesmo que os mecanismos tentassem. Isso aparece quando ela vai a Brasília denunciar o que acontece nas fazendas do estado do Senador (Antônio Grassi), porém percebe que ele é o dono da propriedade. Quando ela volta para fazer os registros, o jagunço coloca a arma em seu peito e fala que tem ordens para matá-la.
Pureza representa uma minoria inquieta com a realidade vivida no país e silenciada por seus próprios governantes. Muito mais do que denunciar o trabalho escravo, ela denuncia a falsa ideia de liberdade que os brasileiros acreditam possuir.
Na época em que o filme se passa (entre 1993 e 1995), o Brasil estava completando quase uma década da redemocratização política, porém mesmo com a constituição de 1988, não havia entendido muito bem como poderia voltar a ser uma nação democrática e livre, seja no âmbito laboral, eleitoral, de expressão e reivindicações.
Ao trazer isso à discussão, Barbieri consegue relacionar o contexto de 30 anos atrás com a atualidade, levando o público a refletir sobre quais mudanças ocorreram nas três décadas que separam a história de Abel da nossa. A história, no geral, é composta de maneira a misturar a ficção com o relato documento, sem que haja exageros de ambas as partes, de acordo com o diretor foi preciso “saber dosar, para não cair no sensacionalismo e mudar o objetivo [da obra]”.

A repercussão: prêmios, exibições e as redes sociais
“Posso dizer que os olhos do mundo veem a dona Pureza”
– Renato Barbieri à IEL Unicamp
Lançado em 19 de maio de 2022, o filme contou com pré-estreias no Rio de Janeiro, São Paulo e no Maranhão, cidade natal da família de Pureza. Em 2024, dois anos após o lançamento, a obra já havia sido exibida em diversos festivais e ao menos de 23 países diferentes, conquistando cerca de 30 prêmios (para elenco, enredo, produção e direção) ao todo.
Como sucesso de bilheteria, a jornada de Dona Pureza foi promovida e visibilizada nas redes sociais antes mesmo do filme entrar em cartaz pelo país. Em 13 de maio de 2022, cerca de 85 entidades nacionais que lutam pelo fim do trabalho escravo, se uniram para promover um “tuitaço” falando sobre o filme e sua temática.
A data escolhida para essa promoção é simbólica, na medida que alude a data oficial da abolição nacional da escravatura, mas não é uma data concreta no fim dessa violência sofrida por séculos no país.
Com as hashtags #NaoAoTrabalhoEscravo, #Purezaofilme e #SomosTodosPureza a mobilização chegou a entrar no trending topics e contou com tweets de personalidades influentes no cenário cinematográfico, político, intelectual e sindical brasileiro e mundial, como Juliana paes, Ingrid guimarães, Rogério Correia, Leonardo Sakamoto e o Sindicato dos Trabalhadores de Minas Gerais.
*Imagem de Capa: Reprodução/Instagram
