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‘Mãe e Filho’: um retrato brutal da maternidade em guerra, onde o desejo masculino é lei e o afeto torna-se arma

Um drama visceral e envolvente conduzido por atuações impecáveis
Por Karl Marx Lamerinha (karl_marx@usp.br)

Mãe e Filho (Zan va bache, 2025) é dirigido por Saeed Roustayi, um dos nomes mais relevantes da geração contemporânea do cinema iraniano. Conhecido por obras como Os Irmãos de Leila (Barādarān-e Leilā, 2022), Roustayi construiu sua carreira explorando tensões familiares como reflexo de estruturas sociais mais amplas, sempre com um olhar realista e emocionalmente incisivo.

O longa, que passou pelo festival de Cannes em 2025, estreia nesta quinta-feira (30) e acompanha Mahnaz (Parinaz Izadyar), 40 anos, enfermeira e mãe viúva de dois filhos, atravessada por pressões sociais que moldam sua experiência. Entre o afeto incondicional e a negação dos conflitos do filho mais velho, ela tenta reconstruir a vida enquanto um novo relacionamento expõe fissuras familiares e desencadeia tensões profundas.

A atuação de Parinaz Izadyar é o eixo de uma construção estética e narrativa de grande potência analítica, em que o conflito familiar se desdobra como sintoma de pressões sociais mais amplas.

A tensão e a construção ultrarrealista de uma família em reconfiguração após a perda do pai demoram a se revelar em sua densidade psicológica, disfarçando-se, nos primeiros momentos, através da aparente naturalidade de uma rotina afetiva estável. O núcleo é formado por Mahnaz, sua mãe, irmã e filhos, o mais velho Aliyar, e a irmã caçula Neda.

O primeiro capítulo do longa se desenvolve ao revelar pequenas cicatrizes da perda e as múltiplas formas de ocultá-las diante das exigências da responsabilidade materna [Imagem: Divulgação/Retrato Filmes]

A exposição, conduzida com inteligência e fragmentação, insinua a personalidade de cada personagem por meio de cenas estrategicamente construídas, densas em subtexto e simbolismo. Cada fragmento parece orientado por uma intenção precisa, moldando-se à identidade de quem ocupa o enquadramento, uma qualidade hipnótica que reafirma a estética sensível de Saeed Roustayi. 

As separações geométricas, ambientes muitas vezes fechados e até claustrofóbicos destacam uma sensação enclausurada e delicada entre os personagens, quase como se antes da trama tomar um rumo concreto ela estivesse sendo desenhada na própria tela. As cenas onde as paredes de vidro servem de lousa para ensinar as crianças delineiam uma metalinguagem entre a tentativa dos personagens de reescreverem suas histórias e a impossibilidade de controle sobre seus desdobramentos.

O motor dramático se instaura na relação entre Mahnaz e Hamid, motorista de ambulância de 48 anos, cuja insistência persuasiva em direção ao casamento revela, pouco a pouco, indícios incômodos em torno de sua figura.

O casamento, apresentado como solução conciliadora, revela-se um dos principais pontos de conflito nos deslocamentos de Mahnaz. Ainda atravessada por sentimentos indefinidos em relação ao falecido marido, ela se entrega a uma relação marcada por sinais de controle, evidentes, por exemplo, quando ele exige que se apaguem os vestígios dos filhos durante a visita de sua família para formalizar o noivado.

Hamid se apresenta como expressão de uma lógica patriarcal profundamente enraizada no contexto social em que a narrativa se insere. Figura atraente e persuasiva, ele orienta suas ações por interesses egocêntricos, instrumentalizando os afetos de Mahnaz e expondo suas fragilidades.

Conhecida por retratar personagens complexos, Parinaz Izadyar consolidou-se como uma das atrizes mais importantes de sua geração no Irã [Imagem: Divulgação/Retrato Filmes]

Embora as sequências que retratam a dinâmica do núcleo familiar de Mahnaz apresentem um encadeamento coeso e emocionalmente eficaz, enriquecendo a construção dos personagens, as reviravoltas da trama se apoiam em decisões bastante questionáveis. Em alguns momentos, essas escolhas chegam a ser tão inverossímeis que comprometem o realismo sensível que o próprio filme vinha cuidadosamente construindo.

O principal impulsor narrativo se sustenta em uma coincidência pouco convincente: a decisão de confiar em Hamid, cuja má índole é reiteradamente exposta a cada aparição. Mahnaz, por sua vez, acaba parcialmente “blindada” do julgamento do espectador, já que sua postura é mediada por fatores como o desgaste emocional, a vulnerabilidade e o desejo de recomeço. Soma-se a isso uma espécie de concessão narrativa,  um “voto de confiança” que legitima sua insistência em acreditar na bondade de Hamid. 

Há uma ruptura perceptível entre a densidade emocional proposta e a lógica das ações. O espectador é convidado a se envolver em conflitos complexos, mas precisa aceitar decisões que não correspondem a essa mesma complexidade. O descompasso enfraquece o impacto das reviravoltas. Elas soam como atalhos narrativos,soluções forçadas para conduzir a trama a determinados pontos-chave. Isso é especialmente problemático porque o filme demonstra, em outros momentos, uma capacidade sofisticada de desenvolver personagens e atmosferas. Ou seja, não se trata de limitação técnica, mas de uma escolha estrutural que compromete a verossimilhança.

Com suas 2h11m, o filme desenvolve, nos capítulos seguintes, uma progressão dramática que esculpe um sentimento palpável de tristeza e luto. As atuações, em especial a de Parinaz Izadyar, como Mahnaz, e Arshida Dorostkar, como Neda, conferem um realismo poderoso às emoções mais viscerais. Após o clímax, a relação entre mãe e filha se fragiliza. O filme captura, com precisão, essa forma silenciosa de luto: a que não apenas sofre a perda, mas compromete os vínculos que permanece.

Ao final, Mãe e Filho se consolida como um drama de rara precisão emocional, capaz de transformar o cotidiano em um campo de tensões profundas e silenciosas. Aposta na permanência do desconforto, expondo personagens atravessados por perdas que não se resolvem, apenas se acumulam. A trilha sonora e a construção dos espaços potencializam essa experiência, sustentando sequências de grande sensibilidade e incômodo, apesar dos caminhos fáceis que parece tomar no final.

Mãe e Filho já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer

*Imagem de capa: [Imagem: Divulgação/Retrato Filmes]

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