Por Lucas Miranda (lucasmirandaf@usp.br), Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.br) e Thaís Vicari (thais.vicari@usp.br)
A morte do influenciador e fisiculturista Gabriel Ganley, no dia 23 de maio, reacendeu discussões sobre o uso de anabolizantes para fins estéticos e de desempenho esportivo. Embora a causa do óbito ainda esteja sob investigação, o caso repercutiu uma questão cada vez mais presente no debate público: a banalização do uso dessas substâncias sem prescrição médica.
Impulsionados pela exposição de rotinas de treino, transformações físicas e conteúdos produzidos por influenciadores do universo fitness, os anabolizantes — substâncias que geralmente derivam da testosterona, principal hormônio sexual masculino — passaram a fazer parte do cotidiano de muitos praticantes de atividade física. Frequentemente associados a ganhos rápidos de massa muscular e melhora da performance, eles atraem um número crescente de usuários, mas levantam preocupações sobre os impactos na saúde física e mental.
Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil, a venda de anabolizantes cresceu 700% nos últimos sete anos. O aumento da procura por essas substâncias para fins estéticos e esportivos é apontado como um dos principais fatores por trás desse avanço. Nesse contexto, a morte de Ganley chamou a atenção para os riscos do uso de hormônios sem acompanhamento médico, sobretudo entre os jovens.
O que aconteceu com Ganley?
Com apenas 22 anos, Gabriel Ganley foi encontrado sem vida em seu apartamento no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. Embora as causas da morte ainda estejam sob apuração, o laudo identificou uma doença cardíaca — condição que pode ser agravada pelo uso de anabolizantes. Apelidado de “bebêzinho”, o carioca ganhou notoriedade ainda menor de idade ao compartilhar sua rotina de treinos e alimentação quando competia como atleta natural.
Após cerca de cinco anos de treino sem o uso de anabolizantes, Ganley iniciou a hormonização em agosto de 2025 com o objetivo de evoluir no fisiculturismo de alto nível.

A forma descontraída com que ele e outros influenciadores do meio fitness tratavam do uso de anabolizantes já foi alvo de críticas por transmitir uma falsa sensação de segurança aos seguidores. Ainda assim, Ganley tornou-se inspiração para milhões, ao incentivar a prática de atividades físicas e a adoção de hábitos mais saudáveis — sobretudo antes da hormonização.
O que são essas substâncias?
Os anabolizantes são hormônios que estimulam o desenvolvimento de tecidos no organismo, especialmente o muscular. Segundo o médico ortopedista Lucas Bombonato, formado pela Universidade de Mogi das Cruzes, em entrevista para a Jornalismo Júnior, essas substâncias foram criadas originalmente com finalidades terapêuticas, sendo utilizadas em tratamentos de reposição hormonal e em situações específicas de recuperação física — como casos de sarcopenia (perda progressiva de massa muscular e força associada ao envelhecimento), fragilidade óssea e reabilitação após cirurgias e fraturas.
Apesar das aplicações médicas, o uso dessas substâncias tem se expandido significativamente e deixado de estar associado apenas ao fisiculturismo. Impulsionado por fatores culturais e digitais, o consumo alcança cada vez mais o público em geral: dados da Anvisa divulgados pelo Jornal Nacional mostram que a venda de testosterona aumentou 20% entre 2024 e 2025. Em comparação com 2018, o crescimento acumulado chega a 712%.
De onde vem esse aumento?
Na atualidade, a insatisfação com a autoimagem pode ser apontada como uma das principais causas para o aumento do uso de anabolizantes. A pressão social pelo “corpo perfeito” somada ao espelhamento em influenciadores fitness cria padrões irreais — o que leva muitas pessoas a buscarem atalhos para resultados rápidos.
No Brasil, hormônios como a testosterona possuem indicação médica para situações específicas. Desde 2023, o uso com finalidade estética, esportiva ou de melhora do desempenho físico é proibido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

Mesmo quando prescritos e acompanhados por profissionais de saúde, os anabolizantes não estão isentos de efeitos colaterais e exigem monitoramento constante. Alterações hormonais, cardiovasculares e metabólicas podem ocorrer a depender da substância utilizada, da dosagem e das características individuais de cada paciente.
Quando utilizados sem indicação ou acompanhamento médico adequado, os riscos tornam-se ainda maiores. Bombonato explica que “o uso indiscriminado de anabolizantes pode causar alterações hormonais e hepáticas, aumento do colesterol, complicações cardiovasculares e até acidente vascular cerebral (AVC)”.
Os riscos aumentam ainda mais quando essas substâncias são utilizadas por adolescentes. Durante essa fase, o organismo ainda está em desenvolvimento, o que torna os impactos dos anabolizantes potencialmente mais graves. Entre as possíveis consequências estão prejuízos ao crescimento, desequilíbrios hormonais e alterações no desenvolvimento neurológico, segundo o médico.
Apesar das restrições, é possível encontrar na internet diversos anúncios que oferecem hormônios sem prescrição médica, com compra realizada por mensagem e entrega para todo o país. Bombonato alerta para os perigos dessa prática: “Muitas vezes, não é possível saber se a substância comprada é realmente a indicada, se o armazenamento foi adequado ou se houve contaminação. Essa falta de controle pode aumentar significativamente os danos à saúde e resultar em consequências ainda mais graves.”
O aumento do uso indiscriminado de hormônios tem gerado preocupação crescente entre os especialistas. O médico acrescenta que há um esforço contínuo para fortalecer o controle sobre a prescrição e a distribuição desses medicamentos, com o objetivo de garantir que eles sejam utilizados apenas em situações clinicamente justificadas.
Em entrevista à Jornalismo Júnior, o atleta de fisiculturismo, treinador e empresário Gabriel Plata, de 38 anos, relatou que utiliza anabolizantes desde os 25. Ele conta que participou de duas competições de forma natural, mas decidiu iniciar a hormonização porque queria competir no mesmo nível dos demais atletas.
Atualmente, existem federações de fisiculturismo exclusivas para atletas que não utilizam anabolizantes — algo impensável naquela época, quando competidores naturais e hormonizados disputavam as mesmas categorias.
Plata relata que começou a utilizar anabolizantes sem acompanhamento médico e afirma que muitos profissionais da saúde têm preconceito com atletas que fazem uso de hormônios. O único efeito colateral que o fisiculturista apresentou foi ginecomastia (aumento da glândula mamária em homens causado por desequilíbrio hormonal), quadro que foi contornado com medicação.
Ainda assim, reconhece que o uso de anabolizantes para fins estéticos não é isento de riscos: “Independente da substância utilizada, os usuários podem ter efeitos colaterais, desde os mais leves até os mais graves”. Como treinador, ele destaca que é possível alcançar um físico estético sem recorrer aos anabolizantes e ressalta que essas substâncias costumam estar ligadas à busca pelo máximo desempenho esportivo.
“Se a pessoa não almeja chegar a um nível elevado no fisiculturismo ou ser um atleta competitivo, não é necessário fazer o uso de hormônios”
Gabriel Plata
A história dos anabolizantes no esporte
A busca por melhores desempenhos no esporte através do uso de substâncias é antiga e remonta à Grécia Antiga. Na época, os atletas ingeriam corações e testículos de animais, além de coquetéis de ervas exóticas que acreditavam ser capazes de melhorar a performance dos competidores nos Jogos Olímpicos.
A testosterona, por sua vez, foi descoberta apenas em 1905. Com o isolamento e a sintetização desse hormônio na década de 30, substâncias ergogênicas sintéticas começaram a ser produzidas e logo passaram a ser procuradas por atletas que buscavam vantagem competitiva.
Apesar disso, pesquisadores apontam que a disseminação mais intensa desses hormônios ocorreu a partir de 1960, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. No ano de 1967, o Comitê Olímpico Internacional (COI) instituiu pela primeira vez uma lista de substâncias proibidas nas práticas esportivas, mas os testes para detecção do uso de esteróides anabolizantes foram introduzidos nas Olimpíadas apenas em 1976.

A presidente da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), Adriana Taboza, relatou que em 1999 foi fundada a Agência Mundial de Antidopagem, com a necessidade de regular a utilização de substâncias e controlar métodos que corrompem o esporte.
No Brasil, cabe à ABCD planejar e executar ações de controle de dopagem, realizar a gestão inicial de possíveis violações às regras antidopagem e coordenar ações educativas. Quando uma potencial violação é identificada, o caso é encaminhado à Justiça Desportiva Antidopagem, responsável pelo processamento e eventual aplicação de sanções.
Taboza enfatiza a necessidade de alertar a comunidade esportiva sobre os riscos da utilização inadvertida de substâncias proibidas e reconhece que ações educacionais fazem parte de um processo importante.
“Se focarmos apenas no caráter punitivo, não temos a mudança de cultura e não formaremos novos atletas que sabem por que a política antidopagem é necessária para manter os valores do esporte”
Adriana Taboza
De acordo com a presidente, foram feitos em média 5 mil testes por ano desde 2023, e foi constatado um aumento relativo nos casos de doping no país desde 2025. No esporte, mesmo quando há prescrição médica, atletas só podem utilizar substâncias proibidas após aprovação da Comissão de Autorização de Uso Terapêutico (CAUT).
O fisiculturismo, embora tenha ampliado sua visibilidade nos últimos anos, não é uma modalidade signatária do Código Mundial Antidopagem e, portanto, não é fiscalizada pela ABCD. Segundo Taboza, é fundamental que o público tenha cautela ao se espelhar em atletas e influenciadores, pois a realidade deles costuma ser muito diferente da vivida pela maioria dos entusiastas. Metas, rotinas, acompanhamento profissional e exigências de desempenho variam, o que torna inadequada a simples reprodução de comportamentos observados nas redes sociais.
Para ela, quem exerce influência tem a responsabilidade de considerar o impacto de suas práticas sobre pessoas que não compartilham do mesmo contexto, e lembrou que o esporte deve promover saúde e qualidade de vida — não incentivar condutas potencialmente prejudiciais.
“A premissa do esporte para o público é promover a saúde e a modificação para um lugar melhor do que o que nos encontramos, e não o contrário”
Adriana Taboza
Foto de capa: Reprodução/Magnific
