Por Kaylaine Farias (kaylainemdsf@usp.br)
Brat é o sexto álbum de estúdio da artista britânica Charli XCX e foi lançado em 7 de junho de 2024. Publicado nas plataformas digitais pela gravadora Atlantic Records, conta com 15 faixas e pouco mais de 41 minutos de duração. O disco explora elementos do electropop, hyperpop e da música eletrônica — com inspiração na cena rave britânica dos anos 2000 — para marcar um retorno da artista às sonoridades experimentais que ajudaram a consolidar sua carreira.
A produção foi liderada por colaboradores frequentes da cantora, como A. G. Cook, considerado o principal arquiteto sonoro do álbum e George Daniel, produtor musical, DJ, músico eletrônico e parceiro de Charli. Cirkut, produtor musical e compositor canadense, Finn Keane, compositor e produtor musical britânico e Gesaffelstein, produtor musical e DJ francês, também se destacaram neste trabalho. A própria artista participou ativamente da produção e da direção criativa do projeto.
Embora tenha surgido como um projeto musical, Brat ultrapassou os limites da indústria e se consolidou como um fenômeno cultural. A estética verde-limão do álbum e suas referências à vida noturna, à espontaneidade e à imperfeição influenciaram a cultura digital, o mercado da moda e a comunicação de marcas nas redes sociais. O conceito foi adotado por usuários, em sua maioria jovens, do TikTok, Instagram e X que abraçaram o termo brat para descrever uma postura autêntica e despreocupada com os padrões tradicionais.

Repercussão
Dois anos após seu lançamento, Brat continua sendo lembrado como um dos principais fenômenos culturais da década. O álbum não apenas consolidou uma nova fase da carreira de Charli XCX, mas também influenciou a forma como jovens se expressam e consomem tendências no ambiente digital.
A repercussão de Brat dialoga com o conceito de cultura participativa de fãs, desenvolvido por Henry Jenkins, que descreve o público não apenas como consumidor, mas também como um participante ativo nos conteúdos. No artigo Da subversão à dancinha no TikTok: Como as massas virtuais participaram na construção do fenômeno brat, da pesquisadora, ilustradora e profissional de publicidade Verônica V. Pasqualotto, é possível notar como essa estética se manifesta principalmente através da vestimenta e em performances nas plataformas digitais.
O marketing desenvolvido pela equipe para o lançamento do disco foi um fator fundamental para o sucesso do álbum. A identidade visual facilmente reconhecível nas redes sociais e a campanha construída gradualmente com eventos presenciais, lançamentos estratégicos e interação constante com a cultura da internet, conseguiu fortalecer a base já existente de fãs da Charli e ao mesmo tempo atrair a atenção do público externo e dos críticos musicais.
A estratégia teve início antes mesmo da publicação do projeto, quando a artista revelou a capa do álbum em fevereiro de 2024. O público criticou o design por sua aparência simples: apenas um fundo verde-limão com a palavra brat em letras minúsculas e levemente desfocadas. Porém, essa simplicidade fez a imagem se tornar extremamente reproduzível e deu origem a milhares de memes e edições na internet.
Para aproveitar o impacto da capa do álbum, Charli e sua equipe criaram o Brat Generator, um site onde as pessoas poderiam personalizar seus próprios textos no estilo da capa, como um incentivo para a participação ativa do público na divulgação da estética associada ao projeto. Outro acontecimento notável foi a adoção do estilo por usuários, marcas e instituições populares. Empresas como Burger King, Duolingo Brasil e até a TV Globo adaptaram suas identidades visuais para entrar na tendência, enquanto internautas trocaram suas fotos de perfil nas redes por versões verdes inspiradas na capa.

Após seu lançamento oficial, o álbum chegou a alcançar a 3ª posição nos charts da Billboard 200 e se tornou o álbum com melhor colocação de sua carreira. O disco também conquistou prêmios na categoria Melhor Álbum Dance/Eletrônico nas premiações Grammy Awards de 2025 e Billboard Music Awards de 2024. O sucesso comercial e o reconhecimento da crítica contribuíram para consolidar a influência da obra, que pode ser observada na continuidade de referências à estética brat nas redes sociais, mesmo após o enfraquecimento de seu auge de popularidade.
Conceito
Em tradução literal do inglês, o termo brat significa pirralho, o que representa uma criança mal-educada, rebelde ou difícil de lidar, porém, o termo ganhou um novo significado pelas mãos de Charli XCX. Em um vídeo publicado nas redes sociais durante a divulgação do projeto, a artista definiu brat como alguém autêntico, impulsivo, confiante e, ao mesmo tempo, vulnerável. A proposta não está ligada à busca pela perfeição, mas à aceitação das contradições que fazem parte da vida cotidiana.
Parte da identidade do trabalho surgiu do desejo de Charli de retornar às suas raízes na cultura clubber britânica. Em entrevistas concedidas para veículos como The Guardian e British GQ durante a divulgação do álbum, a cantora revelou que queria produzir um trabalho mais honesto e pessoal, sem a preocupação de atender expectativas comerciais e transformou experiências, inseguranças e conflitos reais em matéria-prima para as composições.

Essa proposta aparece de diferentes formas ao longo do álbum. Na faixa 360, o eu lírico assume uma postura autoconfiante ao refletir sobre sua influência cultural e sua posição no mercado da música. Von Dutch atua como um recado direto para quem a critica ou tenta imitá-la, com a mensagem de que, mesmo sendo alvo de julgamentos, ela permanece como uma figura relevante e popular. Em 365, versão mais sombria e acelerada de 360, uma vida repleta de celebrações e diversões sem restrições é abordada, como forma de expressar um comportamento impulsivo e intenso.
Já a canção I Might Say Something Stupid introduz um contraste de personalidades ao expor as inseguranças sociais e o sentimento de não pertencer completamente aos ambientes que frequenta. Girl, So Confusing aborda comparações e tensões entre mulheres, tema que posteriormente ganhou novos significados após o remix com Lorde. Em Sympathy is a knife a artista explora sentimentos de inadequação, inveja e, principalmente, da adoção de uma simpatia forçada imposta dentro da indústria musical.
Com o conceito, a cantora buscou abraçar as contradições da juventude contemporânea e se afastar das imagens excessivamente polidas frequentemente promovidas na mídia. O objetivo de dialogar de maneira direta com uma geração marcada por mudanças — políticas, sociais e tecnológicas — constantes e acostumada a conviver com a exposição nas redes sociais funcionou, pois este foi o público que consumiu as canções do Brat.

O Público
Em vez de apresentar respostas ou modelos de comportamento, a produção constrói um espaço para dúvidas, excessos, ambições e conflitos pessoais, aspectos frequentemente vivenciados durante a juventude. Essa abordagem permitiu que muitos ouvintes enxergassem suas próprias experiências refletidas nas canções, o que fortaleceu a conexão emocional entre público e artista e contribuiu para a construção de uma comunidade em torno do projeto.
A identificação do público com a proposta deu origem ao chamado “Brat Summer“, movimento que transformou elementos do álbum em referências de moda e comportamento. O estilo valorizava características como maquiagens menos elaboradas, roupas inspiradas na vida noturna, óculos escuros, peças básicas e uma estética visual distante dos padrões refinados que dominaram as redes sociais nos anos anteriores. Participar do movimento significava adotar uma postura ligada à espontaneidade, ao hedonismo e à valorização de experiências consideradas autênticas por seus participantes.
“Brat não é só sobre ouvir a música, é sobre uma atitude crítica diante da sociedade relacionada a questões que tangenciam a vida do jovem”
Alan Angeluci, pesquisador e docente da ECA-USP
A popularização da estética também evidenciou o papel das redes sociais na formação e disseminação de tendências culturais. A facilidade de reproduzir símbolos, comportamentos e referências visuais, permitiu que o conceito alcançasse milhões de pessoas em um curto período de tempo. A transformação desta obra musical em uma tendência social entre adolescentes dentro do ambiente digital nasceu do desejo de pertencimento, da busca por identidades coletivas e da menção de temas enfrentados durante a juventude que são pouco abordados em composições musicais.

Tendências culturais
Em entrevista à Jornalismo Júnior, Paulo Corrêa, comentarista e coapresentador do podcast POP.DOC e especialista em cultura pop e música, afirma que o sucesso de brat está ligado à capacidade de Charli XCX de construir uma experiência que vai além da música. “Eu sinto que as redes sociais exigiram uma postura dos artistas que fosse para além apenas daquele projeto ‘físico’ que é o álbum”, declara.
Segundo o especialista, artistas contemporâneos precisam de uma presença constante nas redes sociais para criar conexões com o público. Corrêa também destaca que Charli conseguiu ampliar o alcance do projeto ao incorporar colaboradores nos videoclipes que já eram populares entre a geração que consumiu o álbum. “Ela traz várias pessoas para traduzir o que é a ideia de uma garota ser brat, ser uma it girl, sinto que ela soube permear, tanto nos clipes, quanto na imagem que ela levava para eles”, menciona Paulo.
“Não acho que seja apenas as participações que estiveram ali, mas também a própria música”
Paulo Corrêa
Alan Angeluci, pesquisador da área de comunicação e cultura digital e docente da ECA-USP, avalia que a participação em movimentos culturais oferece aos jovens a sensação de integrar uma comunidade e compartilhar referências em comum. No entanto, ele ressalta que esse processo ocorre dentro de uma lógica cada vez mais influenciada pelas plataformas digitais e pelo mercado. “Embora essas tendências sejam frequentemente percebidas como formas autênticas de expressão individual, elas acabam sendo inseridas na lógica econômica das plataformas digitais. Existe uma certa tensão entre uma expressão pessoal e uma padronização, que é muito conduzida pelo mercado do marketing”, explica.
Angeluci também ressalta a juventude como um período de transformações profundas, fator que favorece o consumo acelerado de produtos culturais e envolve a adoção de uma série de elementos, como estilo, formas de falar, posicionamentos políticos, etc. “Esse aceleracionismo acaba catapultando um pouco atitudes e comportamentos dos jovens. Acredito que ele é fortemente influenciado pelos algoritmos e pela amplificação que eles promovem, embora isso seja também natural da geração dos jovens em qualquer momento histórico”, comenta o pesquisador.

Nos meses seguintes ao lançamento do álbum, Charli XCX lançou versões estendidas do projeto, como o brat and it’s completely different but also still brat (2024), álbum de remixes que reuniu participações de artistas como Ariana Grande, Lorde, Billie Eilish, Troye Sivan e Bon Iver. Apesar do sucesso comercial e da recepção positiva de parte dos fãs, a decisão de prolongar o ciclo do álbum também gerou críticas de internautas que consideravam o conceito saturado após meses de intensa exposição.
Apesar dos comentários, a estética não desapareceu completamente: referências visuais, expressões e comportamentos associados ao movimento continuam presentes em comunidades online, embora com menor intensidade do que durante o auge da era. O percurso da tendência evidencia a velocidade com que produtos culturais são consumidos e substituídos no ambiente digital.
“Eu acho que não existe uma fórmula específica para se criar um Brat, não é à toa que depois disso a gente não teve outro”
Paulo Corrêa, comentarista e coapresentador do podcast POP.DOC
Em um cenário marcado pela constante busca por novidades, movimentos capazes de dominar as redes sociais por longos períodos tornam-se cada vez mais raros na sociedade contemporânea. Em seu artigo, Economia da atenção nas redes sociais: estratégias para capturar e reter o consumidor nas redes sociais, Gabriela Peixoto destaca que a atenção do público é um recurso disputado continuamente no ambiente digital. Mesmo assim, o impacto do Brat permanece evidente após dois anos de seu lançamento.
Atualmente, Charli XCX trabalha em novos lançamentos e parte dos fãs acompanha os próximos passos da artista na expectativa de que ela seja capaz de produzir um fenômeno cultural semelhante ao Brat.
