Por Juliana Rodrigues (juliana.llrodrigues@usp.br) e Vitoria Mendes (vitoria_luisalmendes@usp.br)
No dia 17 de agosto de 2026, a Petrobras confirmou a descoberta de hidrocarbonetos na Bacia da Foz do Amazonas. A revelação vem de uma perfuração exploratória chamada Poço Morpho, localizado no bloco FZA-M-59, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá. Ela marca a primeira etapa da investigação preliminar em busca de petróleo e gás natural em uma das regiões da Margem Equatorial, faixa marítima que se estende por 2.200 quilômetros do Amapá ao Rio Grande do Norte.
A escavação busca comprovar a viabilidade comercial da área e abrir caminho para a renovação das reservas energéticas do Brasil, diante do declínio produtivo do Pré-sal — cenário projetado para a década de 2030. Apesar de gerar diversos impactos, tanto econômicos quanto ambientais, o trajeto até a eventual extração exige um detalhado processo técnico e burocrático.
Nova fronteira exploratória e Poço Morpho em detalhes
A escolha da Margem Equatorial foi decisiva em diversos fatores, como sua origem geológica e proximidade com outras jazidas já exploradas. Formada a partir da separação entre os continentes da América do Sul e da África, a região foi moldada por eventos tectônicos que criaram espessas camadas de rochas sedimentares, ricas em matéria orgânica que, sob condições específicas de temperatura e pressão ao longo de milhões de anos, têm a capacidade de produzir combustíveis fósseis, como o petróleo e o gás natural.

Segundo o professor doutor da Universidade de São Paulo (USP), Cleyton Carneiro, em entrevista à Jornalismo Júnior, quando se trata especificamente da Foz do Amazonas, localizada no noroeste do Brasil, a posição geográfica próxima às áreas da Guiana e do Suriname reforçou o interesse na região. Isso acontece, pois, além de petroleiras terem encontrado grandes reservas de petróleo próximo a essas localidades, a extração é de baixo custo, devido ao tipo de óleo encontrado – mais leve que o do Pré-Sal – e à composição do assoalho oceânico.
Sobre as operações atuais no Poço Morpho, a Petrobras possui controle exclusivo da região e as perfurações já alcançaram 3 mil metros sob a lâmina d’água e avançou outros 3 mil metros em rocha, faltando cerca de um quilômetro para atingir o fundo programado. O encerramento da etapa de escavação está previsto para setembro deste ano, mas a confirmação de viabilidade comercial ainda exigirá mais pesquisas.
Os produtos encontrados foram hidrocarbonetos, compostos orgânicos que constituem a base dos combustíveis fósseis e da indústria petroquímica global. Por moverem a economia e servirem de matéria-prima para múltiplos setores, como automotivo, energético e industrial, sua busca é intensa. Encontrá-los indica a presença de recursos energéticos estratégicos.
Descoberta em âmbitos econômicos
Apesar de representar uma potencial fronteira de riqueza estratégica para as reservas energéticas do país, a viabilidade comercial dos recursos fósseis ainda é incerta, pois ela depende da fase de delimitação do volume recuperável e das características de qualidade do petróleo. Além da fase exploratória, dados obtidos por fases de classificação devem justificar ou não a perfuração para, então, seguir rumos comerciais e rentáveis.

Órgãos como a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estimam um potencial superior a 30 bilhões de barris por toda a Margem Equatorial. De acordo com o Plano de Negócios 2026-2030 da Petrobras, tal fator embasa o planejamento de US$ 2,5 bilhões para perfurar novos poços na região até 2030. Durante a coletiva de imprensa em Oiapoque (AP), Clarice Coppetti, diretora executiva de Assuntos Corporativos da Petrobras, alegou que desde outubro de 2025, cerca de US$ 300 milhões já foram gastos.
Em entrevista à Jornalismo Júnior, Gustavo Figueiredo Campolina Diniz, mestre e doutor em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que o intervalo entre a descoberta de um campo de petróleo e o início da extração comercial pode levar até 10 anos. Diniz diz que esse período não significa a ausência de efeitos econômicos a curto prazo, que se dão pela atração de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) e capital estrangeiro para estudos geológicos e perfuração de poços. “A longo prazo, os aspectos positivos se associam aos ganhos advindos do crescimento da arrecadação com o recebimento de impostos e royalties na esfera pública”, afirma. O doutor em Economia também destaca o fortalecimento da balança comercial pela expansão das exportações.
A descoberta dos poços Manga, Crotalus, Morpho e PAD Morpho, no litoral do Amapá, viabiliza expectativas para a economia local, com possível geração de empregos, atração de investimentos e fortalecimento da logística de escoamento. A exploração deve elevar o Produto Interno Bruto (PIB) do Amapá em até 61,2%. Com a capacidade de injetar até R$ 175 bilhões no PIB do Brasil, em estimativas realizadas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o estado terá destaque na expansão econômica nacional e aumento nas arrecadações em tributos.

Riscos ambientais da exploração
A perfuração de reservas de petróleo na Margem Equatorial, embora restrita à fase exploratória, expõe riscos para o meio ambiente local. O episódio mais emblemático ocorreu em janeiro de 2026, quando uma falha de pressão das tecnologias utilizadas provocou o vazamento de cerca de 18 mil litros de fluído de perfuração a 175 quilômetros da costa do Amapá, o que paralisou temporáriamente a operação. O incidente reacendeu o debate sobre a capacidade de respostas às emergências na região, aos métodos de segurança utilizados pela Petrobras e às consequências que a perfuração apresenta ao meio ambiente.
O risco de um vazamento maior compromete o ecossistema marinho da região, visto que a grande profundidade da perfuração, somada à distância da costa e à falta de infraestrutura local, dificulta respostas rápidas e eficientes, ampliando a possibilidade do óleo atingir o litoral em poucos dias. Tal fator pode ameaçar espécies marinhas, manguezais e áreas de pesca artesanal. Em maior escala, pode contaminar a água, afetar a reprodução e a alimentação da fauna local, além de comprometer o equilíbrio do ambiente marinho.

[Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
A exploração também é questionada por contradizer os compromissos ambientais do Brasil, especialmente após sediar a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), em novembro de 2025. Para organizações como o Observatório do Clima, expandir a exploração de petróleo na Foz do Amazonas enquanto se discute a redução de combustíveis fósseis, representa uma contradição entre o discurso e a prática do governo brasileiro na área de preservação ambiental e climática.
A preocupação também é compartilhada por Diniz, que caracteriza como arriscada a estratégia da Petrobras de investir em novas fronteiras exploratórias como a Margem Equatorial. Esse questionamento não se dá apenas pela ausência de retorno financeiro imediato, mas, principalmente, pelo risco de adiar a inserção do Brasil em debates mais amplos sobre mudança climática, transição energética e sustentabilidade ambiental. “Meu receio é que isso acabe retardando ainda mais a adoção de políticas públicas sobre o tema, incluindo a articulação entre desenvolvimento industrial e proteção ambiental”, afirma o economista.
Tecnologias para mapear e encontrar petróleo
A busca por petróleo começa com um trabalho digital. Para encontrar o que existe nas profundezas do mar sem perfurar, a indústria usa uma espécie de ultrassom de grande proporção, em um primeiro momento. Navios disparam ondas de ar na água, que batem nas rochas do fundo do oceano e voltam para a superfície, lugar em que são captadas por sensores. Esse processo desenha um mapa em 3D do subsolo, mostrando os locais com maior chance de ter petróleo.
A segunda etapa é a perfuração exploratória de teste, fase exata em que se encontra o Poço Morpho. Nela, uma broca perfura a rocha enquanto faz circular um fluido responsável por resfriar a ferramenta e transportar os fragmentos até a superfície para análise em tempo real. No processo, esse poço não é próprio e nem autorizado para uso comercial. “O poço exploratório busca descobrir, caracterizar e reduzir incertezas sobre uma possível acumulação. O poço produtor é projetado para recuperar comercialmente uma acumulação que já foi avaliada”, diz Cleyton Carneiro.

Se o petróleo for confirmado, o projeto entra em uma maratona de verificações. Primeiro, são feitos novos furos ao redor do poço para medir o tamanho da reserva subterrânea e as propriedades das rochas ali presentes, com um procedimento chamado perfilagem. Depois, esses dados são enviados à ANP para calcular quanto combustível, de fato, dá para ser retirado. Por fim, a empresa precisa passar por estudos ambientais rigorosos para conseguir a licença final. Após todo o processo, são instaladas as plataformas de produção, caminho que costuma demorar de quatro a seis anos.
Durante todo o trabalho de perfuração, a segurança é prioridade. O principal equipamento de proteção é instalado no próprio fundo do mar: o Blowout Preventer (BOP), uma estrutura de válvulas de segurança posicionada no local exato da perfuração. O equipamento atua como uma barreira de contenção de alta pressão. Caso os sensores detectem uma entrada repentina de fluidos no tubo que liga o poço à base, o mecanismo fecha hermeticamente o canal, estancando a passagem do petróleo.
[Imagem da capa: Reprodução/Wikimedia Commons]
