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Da Nova Rota da Seda à Guerra Tarifária: como o jogo de xadrez geopolítico influencia a economia da China

A transformação da China em uma potência econômica industrializada e tecnológica fragiliza o unilateralismo e fomenta a articulação global em prol do poder multipolar, afirmam especialistas
Na imagem, o presidente da China Xi-Jinping e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump com o mapa mundi ao fundo
Por Vitoria Mendes (vitoria_luisalmendes@usp.br)

Do salto de uma economia agrária fechada para a segunda maior potência mundial, de 1978 a 2026, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês de US$ 150 bilhões apresentou um crescimento que, hoje, garante ao país o total de US$ 20 trilhões, segundo dados do Departamento Nacional de Estatísticas Chinesas (NBS, na sigla em inglês).  A partir da chamada Nova Rota da Sede, o país busca a expansão da sua geopolítica, além do fortalecimento comercial e econômico dinamizado mundialmente — mesmo frente às intensas tarifações e às guerras no Oriente Médio

A abertura da economia chinesa 

A abertura econômica chinesa teve início em 1978, liderada pelo presidente do Conselho Central Militar, Deng Xiaoping. Por meio do projeto Reforma e Abertura, o governo buscou modernizar a economia sem comprometer a política do país.  Assim, surgiu o sistema chamado de “Socialismo com Especificidade Chinesa”, que promoveu a abertura do mercado como espaço de reprodução do capital privado — atraindo investimentos estrangeiros para as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs).

Com a abertura econômica capitalista e o comunismo político — pautado na centralização do poder, controle estatal da economia, para além do socialismo com especificidade chinesa — o país começou a se desenvolver a partir do planejamento estatal, responsável pela modernização dos setores de produção, e do aumento de investimentos estrangeiros. Contando com mão-de-obra de baixo custo, infraestrutura de ponta e amplos incentivos fiscais, a economia chinesa experimenta taxas de crescimento econômico, atingindo o marco de crescimento em  5% do PIB no primeiro trimestre de 2026, 1,3% maior em relação aos últimos três meses de 2025, segundo dados divulgados pelo NBS. 

Na imagem, um cartaz de propaganda  da china comunista
O Partido Comunista Chinês ascende ao poder pós-Guerra Civil contra o partido político nacionalista Kuomintang, em 1949 [Imagem: Reprodução/ Arquivo histórico]

Segundo Livio Ribeiro, economista e mestre em economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio), o direcionamento chinês destaca-se de maneira a se transformar de “fábrica do mundo” em “designer do mundo”. Para ele, através do incentivo à pesquisa e à produção de tecnologia, o país mostra-se não apenas inovador, mas autossuficiente e competitivo. A modernização e aprimoramento chinês define uma estrutura de ascensão que é bem planejada estatalmente, o que refina as metas e amplia os ganhos. “É uma China que cada vez mais gera tecnologia e não copia. É um capitalismo com grande dirigismo estatal, com definição de vencedores tendo uma estrutura de ascensão dentro dele que mais parece uma empresa: tem meta, tem objetivo e você ascende em função disso”, afirma Lívio. 

Investimentos globais e a Nova Rota da Seda 

Em 2013, foi apresentado pelo atual presidente da República Popular da China, Xi Jinping, o projeto Iniciativa Cinturão e Rota, também conhecido como Nova Rota da Seda. Separadas por aproximadamente 2.150 anos, a Antiga Rota da Seda embasa o projeto que se visa na atualidade. Por volta de II a.C., a rota era fundada por uma vasta rede comercial, terrestre e marinha, que ligavam dezenas de povos, desde o Extremo Oriente até a Europa. Por meio dela, eram comercializados produtos como sedas, especiarias, porcelanas e metais preciosos a partir de sucessivas trocas que possibilitaram o intercâmbio econômico, além de proporcionar políticas de alianças entre reinos e impérios. 

A partir do que foi a Antiga Rota da Seda, o novo projeto  pretende aproximar a nação ao exterior por meio de investimentos maciços e projetos de infraestrutura ao redor do globo, conectando os continentes tanto por rotas terrestres, por meio de ferrovias e rodovias, quanto por rotas marítimas, fomentando zonas portuárias. 

Para Ribeiro, trata-se de uma estratégia geopolítica e econômica que, para além de criar conexões, amplia a influência chinesa entre países parceiros por sua eficiente política externa. Cerca de 150 países envolvidos na estratégia contam com uma movimentação trilionária de investimentos iniciais estimados em US$ 1 trilhão, valor correspondente a R$ 5,06 trilhões para investimentos em modernização e em projeções de estruturas, como as de transporte de alta velocidade, portos, usinas elétricas e parques industriais, além de infraestruturas tecnológicas digitais e comunicacionais. 

A Nova Rota da Seda é apresentada como possibilidade de impulsionar o desenvolvimento econômico entre seus integrantes, além do acesso de bens e serviços chineses no mercado, de acordo com André Roberto Martin, especialista em Geopolítica e professor titular do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Para ele, o Soft Power utilizado pode ir além dos fatores persuasivos descritos. Por meio  de um poder utilizado de forma branda, é possível influenciar comportamentos e decisões de outras nações para a promoção de mudanças, por meios culturais, políticas externas e valores políticos.

 Segundo Martin, a China dinamiza a sua relevância pela exportação de tecnologias de ponta, diplomacia humanitária e, principalmente, por meio de intercâmbios culturais. “Ela se propõe como uma potência auxiliar para os outros países na busca de um mundo multipolar, mas não sei até onde isso é sincero. O objetivo chinês é substituir os Estados Unidos como potência assessora da humanidade. Eles se preparam para isso em todos os campos — tecnológico e cultural — com o Soft Power”, afirma. 

Relações entre a potência asiática e o Brasil 

Dados coletados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) mostram que o Brasil foi o país que mais recebeu investimentos de empresas chinesas para novos projetos em 2025, cerca de 10,9% de todo o investimento externo da potência — mesmo o país latino americano não sendo membro da Iniciativa Cinturão e Rota

Apesar de ambos serem integrantes do BRICS, agrupamento político diplomático que reúne países com economias emergentes do Sul Global com o objetivo de fortalecer a cooperação política, econômica e social entre membros, as relações entre os países vão muito além.

Na imagem, o presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da China, Xi-Jinping
Empresas chinesas estão investindo cerca de US$ 6,1 bilhões em 52 projetos no Brasil [Imagem: Reprodução/ Instagram/ @lulaoficial] 

Entre acordos bilaterais e políticas de investimentos, a relação entre os países é marcada por uma forte parceria estratégica. O Brasil, por meio das exportações de commodities, como soja, milho, algodão, carnes e derivados de biocombustíveis, encontra segurança na importação de matérias-primas realizada pela nação asiática. Segundo relatório do CEBC, as exportações de produtos brasileiros para a China no ano de 2025 somaram US$ 100 bilhões em receita, o segundo maior valor da série histórica comercial entre ambos, iniciada em 1974. 

A potência chinesa investe no território brasileiro de maneiras diversas. O setor de energia elétrica é o maior atrativo de capital, contando com a injeção de recursos em parques de energia renovável — por meio de geração eólica e solar, linhas de transmissão energética e cadeias de bateria. 

Uma das iniciativas, batizada como “Projeto de Ultra Alta Tensão no Nordeste do Brasil”, gera enfoque no escoamento de energia do Nordeste para o Centro-Oeste por meio de linhas de transmissão de energia. Para além de estimular as hidrelétricas e parques eólicos nordestinos, o proposto visa beneficiar cerca de 12 milhões de pessoas em outras localidades do Brasil, integrando as regiões do país a partir de investimentos chineses de aproximadamente R$ 23 bilhões. Liderada pela State Grid Brazil Holding, será o mais caro projeto de ultra alta tensão da história do setor elétrico do país. 

Os investimentos são diversificados em outros setores, como os de extração e mineração, de infraestrutura e tecnologia, além da instalação de fábricas automotivas. Com investimentos no cenário dos automotivos, 14 marcas de carros chinesas possuem protagonismo no cenário nacional brasileiro, como a BYD, CAOA CHANGAN e GWM. Com 47,7% de todos os veículos importados vindos da China em 2025, os valores superam os tradicionais exportadores automobilísticos ao país, segundo levantamentos realizados pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea)

Para Diego Pautasso, doutor em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Brasil precisa retomar o próprio processo de modelo desenvolvimentista — iniciado durante a década de 1930 e fortalecido em 1950, durante a Era Vargas e o governo de Juscelino Kubitschek — a partir da sua relação com a China. Segundo ele, os países possuem complementaridades em termos de estrutura produtiva, que é benéfica para ambos, mas a internalização de uma cadeia produtiva cabe a eficiência das políticas econômicas e industriais do país. “Cabe aos países ter o seu projeto nacional de desenvolvimento e extrair o melhor da parceria em seu favor […]. Devem estabelecer os melhores termos e desenvolver uma política consequente que supere as suas dificuldades.”, afirma Pautasso. 

Guerra Tarifária: disputa entre potências econômicas  

Com o intuito de recuperar a indústria manufatureira nacional e aumentar a arrecadação estadunidense frente ao superávit a favor da China, os Estados Unidos adotaram, no início de 2025, medidas unilaterais na tentativa de cercar e restringir a capacidade econômica do seu adversário comercial. Segundo decretos oficiais emitidos pela Casa Branca, o presidente dos EUA baseou as medidas em prol do país. “O Presidente Trump está protegendo a segurança nacional, a política externa e a economia dos Estados Unidos contra uma ameaça estrangeira. Em linha com seu mandato eleitoral, o Presidente Trump também tomou outras medidas para alcançar a paz por meio da força e garantir que a política externa reflita os valores, a soberania e a segurança dos EUA”,  reforçaram em resolução. 

A ascensão econômica da China também não foi um fato que passou despercebido pelo atual governo norte-americano. Apesar de os EUA serem o principal destino de exportações dos produtos do país, com a importação de maquinário, eletrônicos e bens de consumo, as  tarifas impostas chegaram a uma porcentagem de 145% sobre mercadorias chinesas. Em represália, o país chegou a impor tarifas de 125% sobre os produtos importados do país norte-americano, com percentuais reduzidos a partir de tréguas entre ambos os países. 

Além disso, a nação limitou a exportação de Terras Raras, um grupo de 17 elementos químicos encontrados em abundância, principalmente na China e no Brasil, essenciais na produção e no desenvolvimento tecnológico para a indústria de semicondutores, veículos elétricos e armamentos —  minerais nos quais os Estados Unidos têm demonstrado amplo interesse comercial

Na imagem, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que as tarifas de Trump são ilegais e que o atual presidente utilizou de poderes extraordinários para a imposição unilateral  [Imagem: Reprodução/ Instagram/ @potus]

Segundo Ribeiro, a Guerra Comercial não tem nenhum sentido econômico, mas sim pura narrativa política. Para ele,  a medida vai gerar um processo inflacionário a curto prazo que, ao se prolongar, diminuirá o crescimento potencial norte-americano, o oposto do que é esperado das políticas protecionistas de Donald Trump (Partido Republicano). Como consequência, a capacidade de absorção de novas tecnologias e de insumos mais baratos e eficientes será afetada por resultados a médio prazo. “Aumentou a inflação, não gerou o ganho de produção que as pessoas imaginavam, e as pessoas estão achando que a Guerra Comercial é parte da aceleração recente de crescimento americano, mas na verdade não é”, afirma ele.   

O Brasil também foi afetado pelo chamado tarifaço e pela transformação abrupta do cenário econômico. Em julho de 2025, as taxas aplicadas eram de 50% sobre diversos itens brasileiros, sendo o agronegócio, o aço e o alumínio os setores mais afetados pela iniciativa norte-americana. Após negociações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Trump, no começo de 2026, a tarifa foi reconsiderada a 10% para os produtos listados. 

O Brasil não se subordina aos EUA,  mas também não se subordina à China”. 
André Roberto Martin

Para Pautasso, o presidente brasileiro tem apostado no conceito de sinergia, principalmente quanto à parceria com o governo chinês — para preservar cooperações entre ambos os países, sem a obrigatoriedade de tornar-se país-membro da Nova Rota da Seda e embarcar nas concepções pró-ocidentais de parte da sociedade brasileira. Segundo ele, características populacionais pautadas no conservadorismo social, econômico e político fundamentam o defendido por Lula. “Trata-se de uma sociedade refratária à mudanças, essencialmente conservadora, com concepção pró-estadunidense em várias bases sociais e um crescente diálogo fomentado pelo Bolsonarismo”, afirma Pautasso. 

O choque em Ormuz e as suas consequências 

O Estreito de Ormuz é situado entre o Irã e o Omã, e a sua essencialidade surge pelo volume de embarcações que passam pelo canal, atendendo 20% da demanda petrolífera global e sendo passagem de, aproximadamente, um quarto de commodities transportadas via navegações, segundo a Agência de Informação de Energia dos EUA (EIA, na sigla em inglês).

O canal foi fechado em fevereiro de 2026 devido à Guerra do Irã, que envolve Estados Unidos e Israel. O conflito teve início frente às tensões sob o programa nuclear iraniano, além da tentativa de desestabilização do financiamento de milícias. Sob a escalada militar norte-americana de ataques e de bombardeamentos, o Irã determinou o fechamento do estreito e a paralisação do tráfego marítimo como retaliação às investidas militarizadas. 

O bloqueio de Ormuz tem gerado consequências a diversas economias, incluindo a chinesa. A potência tornou-se, em 2025, a maior compradora de petróleo do Irã, importando cerca de 1,38 milhão de barris por dia. Com um mercado pautado, majoritariamente, no setor industrial, o fechamento da rota gera o encarecimento dos custos de frete, aumento nos preços de derivados de petróleo, além de canais inflacionários à gasolina e ao diesel.  O impacto às tarifas de frete para petroleiros na rota entre Oriente Médio e China atingiu valores recordes de US$ 300 mil por dia, equivalente a aproximadamente R$ 1,6 milhão, o que abala diretamente os valores dos custos logísticos e dos barris de petróleo.

Porém, mesmo com a paralisação dos transportes em Ormuz, a China é o país asiático que melhor consegue lidar com as consequências geradas pelo conflito. A potência possui reservas estratégicas de petróleo, que, ao final de 2025, detinham cerca de 1,4 bilhão de barris, segundo o EIA. Além disso, a diversificação de fornecedores de petróleo para além do Oriente Médio e a valorização de fontes de energias renováveis diminuem o impacto gerado. “Vai ter algumas implicações nos custos na cadeia de produção e em termos da oferta de combustíveis na região como um todo. Esse ponto é importante porque se tem números oficiais de estoques domésticos de combustíveis em diversos países da Ásia, especialmente em países menores”, conclui Livio. 

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