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10º Festival Piauí de Jornalismo | ‘A informação confiável, assim como a água e o ar limpo, é um bem público’

Em tempos marcados pela ascensão de governos restritivos e por noticías à mercê dos algoritmos, Alan Rusbridger dá uma aula sobre o jornalismo comprometido com a democracia e o interesse público
Terceira mesa do primeiro dia do 10° Festival piauí de Jornalismo
Por Renata Paes (renatapaes777@usp.br)

A terceira mesa de sábado (5) teve como principal figura a presença de Alan Rusbridger, editor-chefe do jornal britânico The Guardian de 1995 a 2015. Entrevistado por Celso Rocha de Barros, apresentador do podcast produzido pela revista piauí Foro de Teresina, e Natalia Viana, diretora executiva da Agência Pública, Rusbridger falou sobre sua trajetória no jornalismo, os desafios enfrentados pelo The Guardian e as transformações da imprensa ao longo das últimas décadas. Atualmente editor-at-large da revista semanal The New World, o jornalista participou da conversa na sala de exibição “Oscarito”, uma das principais da Cinemateca Brasileira

No início da conversa, Rusbridger reflete sobre os primeiros passos de sua trajetória. De repórter do jornal local Cambridge Evening News a líder do maior veículo on-line de língua inglesa e oitavo mais lido no Reino Unido, o ex-editor relata ter começado na profissão quando o jornalismo ainda era muito simples. “Antigamente, o trabalho se limitava a acompanhar a polícia, os serviços públicos, os tribunais e as pessoas que gastavam o dinheiro público sem perguntas dos leitores. Hoje em dia, tudo é questionado”, pontuou o entrevistado. 

O ofício, para o britânico, passou de um modelo marcado por prazos longos e estruturas econômicas estáveis para um cenário de circulação instantânea de informações, em que jornalistas disputam espaço com milhões de pessoas e plataformas capazes de publicar conteúdo em tempo real. Apesar das incertezas provocadas pela transformação digital, o ex-editor afirmou enxergar o período como simultaneamente “assustador” e “extremamente empolgante”. 

Da redação ao celular

Celso Rocha de Barros questionou o jornalista sobre como essa migração do impresso para o digital alterou a organização das redações e a rotina dos profissionais. Rusbridger relembrou que, no início da carreira, os jornalistas tinham tempo para apurar e estudar antes do fechamento. “Você tinha o dia inteiro para pensar, conversar com as pessoas, ler livros e estudar o assunto antes de escrever uma matéria no fim do dia”, afirmou.

A internet, porém, modificou esse ritmo de produção. “Hoje, os jornalistas precisam escrever imediatamente, porque todos nós queremos olhar para o telefone e descobrir o que está acontecendo em tempo real”, disse.

Em 2009, quando o parlamento britânico liberou mais de 450 mil documentos fiscais sobre escândalos de despesas dos deputados, o The Guardian criou uma plataforma online para os próprios leitores a analisarem os papéis
[Imagem: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]

Natalia Viana retomou a questão para discutir como a mudança também afetou a relação dos veículos com suas audiências. Rusbridger contou que o The Guardian percebeu rapidamente como seu público digital ultrapassava as fronteiras britânicas.

O alcance internacional levou o jornal a abrir operações nos Estados Unidos e na Austrália e a repensar a própria identidade. A trajetória coincide com a expansão digital do veículo, em 1999, quando lançou o The Guardian Unlimited,  seu primeiro grande projeto de presença on-line.

Quem paga pelo jornalismo?

A discussão sobre audiência levou Viana a outro ponto: o financiamento da imprensa. O The Guardian adotou uma estratégia diferente daquela de veículos que restringem o acesso às reportagens por meio de paywalls — ferramenta digital que limita o acesso a conteúdos, exigindo que o usuário pague para acessá-los.

Rusbridger não classificou as barreiras de pagamento como um erro, mas chamou atenção para seus possíveis efeitos sociais e contradições do jornalismo como serviço público. “Você acaba criando um mundo em que as elites têm acesso a boa informação, enquanto todos os outros precisam se contentar com o que estiver disponível.”

A imprensa investiga a imprensa

A preocupação com a qualidade da informação apareceu novamente quando Barros conduziu a conversa para um dos episódios mais controversos da carreira de Rusbridger: o escândalo de invasão de telefones envolvendo o News of the World, tabloide pertencente ao grupo do empresário australiano-americano Rupert Murdoch.

A investigação de sete anos do The Guardian foi conduzida principalmente pelo jornalista Nick Davies e revelou que profissionais ligados ao tabloide haviam utilizado métodos ilegais para acessar mensagens de voz em busca de informações exclusivas. A apuração se estendeu por anos e contribuiu para o fechamento do News of the World em 2011. 

Rusbridger, contudo, destacou que a apuração revelou outro problema,o chamado “churnalism” — produção em série de conteúdo baseado em material de assessorias de imprensa. “Em muitas organizações jornalísticas, os repórteres chegam à redação e precisam escrever oito ou dez matérias por dia. Isso não é jornalismo.”

O episódio também mostrou os riscos da concentração de poder nas mãos de grandes organizações de mídia. “A ideia de que organizações de mídia que possuem tanto poder possam ficar acima de qualquer tipo de escrutínio é, para mim, assustadora e absurda”, afirmou.

Controle da informação

Barros, então, levou a conversa para outro momento decisivo da trajetória do jornalista: a publicação dos documentos do WikiLeaks, um dos maiores vazamentos de documentos secretos militares e diplomáticos dos Estados Unidos. O The Guardian trabalhou em parceria com os veículos de notícia The New York Times, El País, Le Monde e Der Spiegel para analisar e divulgar o material.

A experiência também modificou a relação de cooperação entre diferentes empresas midiáticas. “Se cinco organizações jornalísticas trabalhassem juntas, provavelmente conseguiríamos processar aquela informação melhor do que apenas uma organização sozinha”, afirmou.

A conversa avançou então para Edward Snowden. Viana questionou Rusbridger sobre a decisão de publicar arquivos que revelavam programas de vigilância dos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido e sobre o confronto com as autoridades britânicas.

Sob editoria de Rusbridger, em 2014, o The Guardian recebeu o prêmio Pulitzer de Serviço Público pela cobertura do caso Snowden [Imagem: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]

O jornalista contou que o governo tentou interromper a publicação e chegou a exigir a destruição dos computadores que armazenavam os documentos — decisão acatada pela redação. 

O trabalho, entretanto, continuou em Nova York. Para Rusbridger, a possibilidade de transferir a publicação para outro país revela uma característica fundamental do ambiente digital, de que “a informação era, na prática, impossível de ser suprimida.”

O poder das plataformas

A conversa terminou aproximando as experiências de Rusbridger com a imprensa, os governos e as grandes empresas de tecnologia. Atualmente integrante do Conselho de Supervisão da Meta, o jornalista passou a atuar sobre decisões relacionadas à moderação de conteúdo da plataforma.

Questionado sobre o poder exercido por empresas como a Meta e sobre a atuação do conselho, Rusbridger rejeitou tanto a concentração das decisões nas mãos do poder público quanto o domínio exclusivo das próprias plataformas.

“É indesejável que governos passem a regular os conteúdos e decidam quais discursos são permitidos. Mas também é indesejável que Mark Zuckerberg seja o único árbitro dessas decisões.”

Alan Rusbridger

Segundo ele, a questão central permanece a mesma que atravessou grande parte de sua carreira: quem controla a informação. Da velocidade imposta pelos celulares  ao ganho de poder das plataformas digitais, a transformação tecnológica não eliminou a função do jornalismo,mas tornou mais complexa a disputa por quem pode produzir, distribuir e controlar aquilo que chega ao público. 

Como mensagem final, Alan Rusbridger destacou a curiosidade como uma das principais características de um jornalista. Aos profissionais, o escritor deixou uma mensagem de incentivo: “Existem pessoas que não fazem ideia do que acontece em nossa sociedade. É nosso dever apresentar a informação. Há tantos motivos para não seguir essa profissão, mas esta geração pede mais do que nunca para que façamos nosso trabalho”.

[Imagem da capa: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]

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