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Cores e limitações: a experiência cinematográfica de pessoas daltônicas

Entenda como o daltonismo pode influenciar na maneira de assistir um filme, desde um desconforto visual até uma diferente captação da mensagem presente na obra
Por Luiza Torre (luizatorre @usp.br)

Durante o final do século XIX e início do século XX, algumas produções cinematográficas passaram a utilizar técnicas artesanais de pintura manual em películas originalmente em preto e branco. Posteriormente, novos métodos de coloração surgiram e foram aprimorados e, ao longo das décadas seguintes, os filmes coloridos foram gradualmente consolidados como padrão na indústria. A partir da incorporação da cor no cinema, diretores e produtores de obras audiovisuais se utilizaram desse recurso como forma de enriquecer suas produções. Certas cenas apresentam elementos cromáticos pensados e escolhidos com o intuito de causar determinado impacto no telespectador, seja por meio do cenário, do figurino ou até mesmo dos efeitos visuais.

Ao se tratar de cinema, algumas cores são atreladas a determinados sentimentos, tendo como exemplo a associação do vermelho à paixão, ou a do azul à tristeza. É importante reforçar que o fato de tais relações aparecerem bastante no mundo cinematográfico não as torna uma regra que deve ser seguida à risca, uma vez que existem diversos artistas que exploram as cores e fogem do senso comum, vinculando os tons a novos significados e emoções. Independentemente das diversas maneiras como são utilizadas, é inegável que as cores têm sua devida relevância no processo criativo dos filmes.

Apesar disso, nem todos enxergam a coloração de produções cinematográficas do mesmo jeito. O daltonismo é uma deficiência visual que têm como característica a dificuldade de identificação e a percepção de certas cores. Pode-se expressar em diferentes tipos, o que faz com que nem todos os daltônicos confundam os mesmos tons. Apesar de uma parte significativa da população mundial apresentar tal condição —cerca de 5%—, ela pode ser considerada uma deficiência invisível aos olhos da sociedade, já que suas necessidades e peculiaridades são frequentemente negligenciadas, não estando o universo cinematográfico isento desse fenômeno.

O personagem Dwayne Hoover (Paul Dano), do filme Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine,2006), é um dos poucos exemplos de representatividade de pessoas com daltonismo nas telas. Dwayne é um jovem de 14 anos que sonhava em ser piloto de avião. Após passar meses se aprofundando no assunto, ele percebe que é daltônico ao fazer um teste de visão. Ao descobrir sua deficiência, o garoto desiste de seus planos e enfrenta um colapso emocional, uma vez que a aviação exige uma visão típica das cores.

O longa demorou cerca de 5 anos para ser produzido devido a problemas financeiros [Imagem: Reprodução/IMDb]

Assim como foi representado na obra, o daltonismo resulta em algumas dificuldades na vida daqueles que o possuem e isso costuma refletir na experiência cinematográfica dessas pessoas. Certos detalhes passam despercebidos por daltônicos em filmes que a cor confundida por eles possui um papel importante no entendimento do que é apresentado. Além disso, a mistura de muitos tons pode causar desconforto nesses espectadores, considerando que, além de processar o conteúdo da obra, eles também precisam se esforçar para distinguir tonalidades que lhes são semelhantes.

O fato de o daltonismo ser pouco considerado durante o processo de criação de obras cinematográficas levanta questionamentos sobre o impacto da condição na forma como as pessoas vivem e sentem o audiovisual. E isso leva em conta possíveis restrições existentes no âmbito do cinema e que podem atingir esse público diretamente. 

Relatos e vivências

Pedro é um garoto de 13 anos que gosta muito de assistir filmes, principalmente os baseados em personagens do universo Marvel. Quando tinha 6 anos, ele descobriu e entendeu, durante uma conversa com sua mãe, que possuía daltonismo. No seu caso, a condição é responsável pela mistura de tons de amarelo com verde, marrom com vermelho e, principalmente, azul com roxo. Ao ser questionado sobre sua experiência com o cinema, o garoto compartilhou detalhes de como seus olhos enxergam essa arte. 

Por ser fã de super-heróis e consumir muitos filmes desse estilo, grande parte do que Pedro assiste e entende se deve à familiaridade com o gênero e o contexto das obras. “Eu já estou acostumado com isso, tenho que me virar”. Embora tenha aprendido a se adaptar com o tempo, ele ainda aponta certas questões que podem confundi-lo. 

Sua principal queixa foi em relação a cenas com bastante movimento. Para ele, obras mais estáticas e com muitas conversas são mais fáceis de compreender, enquanto cenas de luta rápidas e com muitos efeitos visuais, como é o caso dos filmes de heróis, são mais complicadas de processar. “Eu fico meio confuso, muitas cores e informações ao mesmo tempo deixam difícil de raciocinar”. 

Pedro citou a experiência de assistir a uma partida de futebol e explicou que, por ser algo dinâmico, dependendo do uniforme dos jogadores, não consegue identificar a qual time pertencem. Para ele, é esta a sensação de não conseguir distinguir tonalidades ao consumir certos tipos de filmes.

Outra questão que Pedro apontou é a dificuldade de diferenciar tons muito semelhantes, principalmente quando posicionados lado a lado em cena. “Poderia acontecer de eu confundir um traje vermelho com um rosa, por exemplo”. Ele conta que, por se tratar de um longa extremamente colorido, a animação Divertida Mente (Inside Out, 2015) foi um dos casos em que as cores se misturaram em sua visão, fazendo com que os personagens Medo e Tristeza fossem confundidos por ele ao longo da narrativa, aparentando ter a mesma cor.

“Deve ter muitas coisas que eu confundo e eu nem sei

—Pedro, 13 anos

Os personagens Medo e Tristeza são emoções que vivem dentro da mente de Riley, essenciais para o amadurecimento da garota durante a narrativa
[Imagem: Reprodução/Instagram/Disney Studios]

Pedro compartilha que nunca experimentou óculos corretores de daltonismo, apesar de ter vontade. “Seria bem melhor se disponibilizassem nos cinemas, para visualizar melhor o filme e ele não ficar confuso”. 

Caua Oliveira, 21 anos, também possui daltonismo. Ele consome muitas produções audiovisuais e é fã de filmes de terror e suspense. Sua condição se apresenta em grau leve nos tipos deuteranopia e tritanopia, que os fazem enxergar tons de verde como se fossem de marrom/vermelho e tons de azul e amarelo como se fossem de cinza/rosa, respectivamente. 

Caua disse que sempre desconfiou que via certas cores de maneira diferente dos demais. Para comprovar sua suspeita, realizou o teste de Ishihara, tanto na internet quanto em um exame de visão profissional, e teve seu daltonismo detectado aos 17 anos.

Shinobu Ishihara (1879-1963) foi um oftalmologista japonês responsável por criar o teste de cores que identifica o daltonismo [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Ele citou casos em que o daltonismo teve influência em sua experiência com o universo cinematográfico. O personagem Lorax, por exemplo, foi desenhado com o propósito de ser uma figura de cores vibrantes e marcantes. Para Caua, no entanto, é visto apenas como amarronzado e opaco. 

Outra queixa foi em relação à tonalidade de árvores e flores, uma vez que o verde musgo de folhas pode se misturar com o marrom e é difícil saber com certeza a cor das plantas. É possível aplicar esse caso no cinema, já que algumas obras exploram muito o uso de vegetação com cores diversas para representar estações e/ou compor sua identidade visual, como acontece no filme de terror Midsommar – O Mal Não Espera a Noite (Midsommar, 2019). Para Caua, esse tipo de situação demanda muito de seu esforço para entender e supor o que seria cada cor ali presente. 

Caua reconhece a dificuldade que possui em visualizar cenas muito escuras, uma característica comum em grande parte dos filmes do gênero terror. Ainda assim, muitas cores podem ser inferidas unicamente pela circunstância em que aparecem. 

“A leitura que eu faço do contexto para deduzir a cor de algo é sempre muito automática. Se não consigo fazer, acabo me perdendo ou espero para ver se aparece de novo”. Para exemplificar, Caua faz referência a quando aparecem cenas com sangue, algo que para ele tem uma tonalidade que se aproxima bastante com a do molho barbecue. A partir do cenário, porém, seu cérebro consegue diferenciar as duas coisas sem muito esforço.

Apesar disso, não é todo filme que pode ser entendido a partir do contexto. Obras de ficção científica, por exemplo, carregam enredos que costumam fugir do senso comum, o que torna mais difícil para daltônicos conseguirem “adivinhar” certas cores. Caua compartilhou que não sabia exatamente qual era a cor da criatura em E.T. O Extraterrestre (E.T. the Extra-Terrestrial, 1982). Para ele, poderia ser marrom, cinza, bege ou até mesmo verde, uma vez que não tinha como se basear em coisas do cotidiano para fazer uma associação rápida. Pessoas daltônicas estão sujeitas a sofrer com esse fenômeno em outras obras que abordam temas sobrenaturais, já que só sabem a coloração de alguns objetos porque foram ensinados durante suas vidas.

Caua também afirmou que, apesar de ter curiosidade, nunca chegou a experimentar óculos de correção de cor devido ao alto custo, que considera inviável. “Tenho muita vontade de ver as coisas como elas realmente são”. Além disso, Caua conta que a maioria dos celulares apresenta modos de correção de cor para pessoas daltônicas, mas que esses são extremamente falhos. “Seria melhor se pelo menos desse pra configurar a intensidade dos tons”. Para ele, o resultado obtido com a ferramenta não foi útil. 

Ainda que pessoas daltônicas desenvolvam estratégias para se adaptar a essa condição dentro do espaço cinematográfico, os desafios que enfrentam permanecem devido à falta de recursos de acessibilidade nas salas de exibição.

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