Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

10º Festival Piauí de Jornalismo | ‘A Venezuela virou um país de filhos sem pais e avós sem filhos’

No olho do furacão da crise venezuelana, cofundadora do Efecto Cocuyo relata a dor do exílio, a cobertura política no país e o profundo sentimento de "orfandade" da população.

Por Beatriz Sandoval (beatrizsandoval@usp.br)

Em meio a  uma grave crise econômica marcada por escassez extrema de produtos básicos, filas quilométricas em comércios da cidade e uma forte queda na popularidade do então presidente Nicolás Maduro, as jornalistas Luz Mely Reyes, Laura Weffer e Josefina Ruggiero fundaram o meio de comunicação digital venezuelano Efecto Cocuyo.

Luz Mely Reyes, diretora-geral do Efecto Cocuyo, deu início a programação do 10° Festival Piauí de Jornalismo, nesta manhã de sábado (5), com uma entrevista conduzida pelos jornalistas Guilherme Henrique (Piauí) e Flávia Marreiro (BBC News Brasil). Antes do início da mesa, André Petry, diretor de redação da Piauí, deu destaque ao curador do festival, Daniel Bergamasco (Piauí), que trouxe jornalistas de diversos lugares do mundo para discutir a cobertura política em tempos de fragmentação com o tema do 10ºFestival Piauí de Jornalismo: ‘No olho do furacão – diretores de redação em tempos de tormenta’.

André Petry abriu o  10º Festival Piauí de Jornalismo agradecendo o apoio da Cinemateca Brasileira, onde o evento é realizado [Imagem: Bianca Candido/Jornalismo Júnior]
André Petry abriu o 10º Festival Piauí de Jornalismo agradecendo o apoio da Cinemateca Brasileira, onde o evento é realizado [Imagem: Bianca Candido/Jornalismo Júnior]

O dia 4 de fevereiro de 1992, data da primeira tentativa de golpe de Estado liderada por Hugo Chávez contra o então presidente Carlos Andrés Pérez, marcou a estreia de Luz Mely no jornalismo. Reyes relata que aquele foi o seu “batismo” como repórter. Embora tenha iniciado pouco antes como estagiária de jornalismo esportivo no jornal Últimas Noticias, o seu primeiro dia oficial cobrindo política no jornal El Aragüeño, na cidade de Maracay, coincidiu exatamente com o levante militar de Chávez. Na época, ela se descrevia como uma profissional completamente novata que não sabia que um golpe estava sendo planejado, mas o evento acabou marcando e direcionando toda a sua premiada carreira no jornalismo político e investigativo.

A exemplo de Carlos Dada (El Faro), com quem divide espaço no 10º Festival Piauí de Jornalismo, Luz Mely Reyes enfrenta os desafios do exílio político. Além de terem fundado os jornais que hoje dirigem, ambos compartilham a missão de reportar sob censura. Forçada a deixar seu país natal em outubro de 2018, Luz lidera o Efecto Cocuyo de longe, contornando o bloqueio imposto pela gestão de Nicolás Maduro, que restringe o acesso direto ao site e torna o uso de VPNs indispensável para os venezuelanos.

Ao ser questionada sobre o momento mais doloroso dessa jornada que já dura mais de dez anos, Reyes não hesitou em apontar o exílio e a cobertura da violência de Estado. “O mais difícil em dez anos foi ter que deixar meu país por perseguição. Isso implicou em perder o contato direto com as pessoas na rua, que, para mim, sempre foi o mais importante”, revelou. Esse sofrimento pessoal se somou à dor ética de documentar a crise migratória, as prisões políticas e as torturas sistemáticas de opositores — tragédias que, segundo ela, doem ainda mais por terem sido perfeitamente evitáveis caso o poder público não tivesse decidido silenciar e torturar quem dele discordava.

Venezuela após a intervenção americana

Duas semanas antes do 10º Festival Piauí de Jornalismo, a jornalista voltou pela primeira vez à Venezuela após o sequestro de Maduro e a intervenção norte-americana e destaca que percebe um país que “superficialmente não mudou quase nada desde a última vez”.

“A Venezuela era um país de jovens, (…) hoje virou um país de filhos sem pais e avós sem filhos”

Luz Mely Reyes

Essa ruptura familiar está intimamente ligada a uma transformação ainda mais profunda que a jornalista vem acompanhando de perto: a quebra do pacto histórico entre a sociedade venezuelana e o Estado. Por décadas, o país viveu sob um modelo altamente paternalista, ancorado na distribuição da renda petrolífera estatal, o que fazia até mesmo os habitantes de comunidades pobres – como a favela de Petare, onde Reyes cresceu – compartilharem de uma ilusão de riqueza coletiva.

Na madrugada do dia três de janeiro deste ano, o então presidente venezuelano, Nicolás Maduro, foi sequestrado em uma operação militar estadunidense [Imagem: Reprodução/Donald Trump-Truth Social]

“O que percebi nesta visita é que as pessoas se sentiram em estado de orfandade”, explicou Reyes. Sem que o Estado resolva demandas fundamentais e básicas como saúde e educação, a própria população viu-se obrigada a agir por conta própria para garantir a sobrevivência diária. De acordo com a jornalista, esse desamparo reflete um esgotamento profundo da sociedade civil diante de lideranças políticas incapazes de cumprir o que prometem: desde a revolução chavista, “que foi bonita enquanto foi apenas promessa”, até a recente e frustrada expectativa de que uma força externa vinda dos Estados Unidos libertaria o país.

Efecto Cocuyo e o jornalismo durante e após a captura de Maduro

A cobertura jornalística liderada pelo Efecto Cocuyo durante os bombardeios e a captura de Nicolás Maduro em janeiro foi um exemplo notável de articulação em rede sob condições extremas. Assim que confirmaram a presença de helicópteros estrangeiros de extração militar em Caracas, a equipe ativou imediatamente uma sala de redação virtual, um recurso essencial diante da inexistência de redações físicas seguras na Venezuela. Enquanto poucos jornalistas apareciam  no vídeo para proteger os colegas em solo venezuelano, equipes de retaguarda — incluindo a Alianza Rebelde Investiga, o Cazadores de Fake News (operando do Chile) e o Caracas Chronicles (nos EUA) — trabalhavam intensamente na verificação de fatos e no desmonte em tempo real de uma enxurrada de fake news.

O cansaço de uma redação que acumulava mais de 24 horas sem dormir foi superado pelo compromisso técnico e histórico de registrar o momento em tempo real. A transmissão registrou episódios de alta voltagem dramática, como quando um dos repórteres entrou em choque ao vivo ao ler, em inglês, a publicação de Donald Trump anunciando que haviam levado Maduro, exigindo que Luz Mely Reyes assumisse o microfone imediatamente para dar a notícia. O portal também cobriu em tempo real o pronunciamento oficial da Casa Branca, ocasião em que Reyes demonstrou sua acuidade analítica ao notar que o governo norte-americano de fato trabalharia com Delcy Rodríguez. No final de 11 exaustivas horas de transmissão, a equipe conseguiu traçar um diagnóstico realista que revelou aos venezuelanos que o caminho rumo à redemocratização seria longo e tortuoso.

Cofundadora do Efecto Cocuyo relembra o grande carinho que tem pelo Brasil, país que primeiro lhe deu abrigo após o exílio forçado da Venezuela.   [Imagem: Bianca Candido/Jornalismo Júnior]

Qual o grau de tutela na Venezuela?

Questionada sobre o recente episódio em que a vice-presidente Delcy Rodríguez teria recusado uma entrevista alegando precisar de autorização do governo dos Estados Unidos, Luz Mely Reyes ponderou que, embora considere a justificativa uma mentira política, o caso expõe a barreira diária da censura: na Venezuela, os jornalistas são impedidos de fazer perguntas diretas aos ministros e funcionários públicos, que simplesmente se recusam a responder. Contudo, Reyes enfatiza que existe, de fato, uma dupla e severa tutela imperial sobre o país.

Esse domínio vai além da influência diplomática e se manifesta pelo uso direto da força militar, exemplificado por ataques com drones e mísseis contra supostas embarcações de narcotráfico que já deixaram mais de 200 mortos nas águas do Caribe e do Pacífico. Diante da posição geográfica altamente estratégica da Venezuela — com saída para o Atlântico e proximidade com parceiros importantes —, a jornalista projeta que o país caminha para uma ocupação física e territorial ainda mais intensa nos próximos tempos. Luz fecha a sua fala no 10º Festival Piauí de Jornalismo alaramndo que essa tutela não se restringe à gestão de Delcy, mas sufoca, principalmente, a oposição política, que se vê encurralada e frequentemente silenciada, incapaz de criticar livremente o rumo do país para não ofender o próprio tutor estrangeiro.

“Gostaria de falar português, mas não sei como falar português; sei como falar com o coração.” 

Luz Mely Reyes

[Imagem da capa: Bianca Candido/Jornalismo Júnior]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima