Por Nina M. Bozic (ninamilibo@usp.br)
A abertura da 28ª Bienal do Livro de São Paulo aconteceu nesta sexta-feira (4), no Distrito Anhembi. A programação contou com nomes ilustres da literatura nacional, como Conceição Evaristo e Raphael Montes, além de lançamentos exclusivos. O evento, que ocorre até o dia 13 de setembro, reúne sessões de autógrafos, palestras e diversas entidades literárias.
A conferência deve receber quase 700 mil pessoas nos dez dias de evento, e já conta com quatro dias de ingressos esgotados. O primeiro dia, que não esteve lotado, foi marcado pela organização inicial e por celebrações de abertura da edição. A Jornalismo Júnior acompanhou a programação e conversou com o público para entender as opiniões e experiências do dia.
Primeiras impressões
Para chegar no local do evento, a Bienal oferece transfers gratuítos, que levam os visitantes do terminal Portuguesa-Tietê até o estacionamento do Distrito Anhembi. Os ônibus de viagem circulam a partir de uma hora antes do começo das atividades (8h) até uma hora depois (22h). Apesar do serviço ter funcionado conforme o previsto, não agradou a todos: os visitantes Heziel, que estava com um amigo, e Carol, acompanhada da filha, desistiram de pegar o transporte por conta da fila. “Estava quilométrica”, afirmaram.

A estrutura da convenção dividiu algumas opiniões. “Dentro do evento, está bem organizado. Tem vários funcionários para ajudar quem estiver mal localizado e placas dizendo em que corredor você está”, disse Laura, que estava visitando com a escola e depois encontrou sua família. O mapa da Bienal estava colado em várias paredes, além de ser distribuído impresso e digitalizado, em seu site e aplicativo.
Já Heziel, como pessoa com deficiência, explicou que se sentiu pouco amparado: “quando cheguei, procurei o ‘Espaço de Bem-Estar’, mas ele é só para quem é credenciado”. A falta de acesso à sala de apoio incomodou o estudante, que faz parte do Coletivo PCD da USP. “Já fiz minha denúncia e expus nas redes sociais”, disse.
Já Hiro Kawahara, expositor da Alameda dos Artistas, conta que a experiência é cansativa, mas recompensante. É a primeira vez do artista apresentando seus trabalhos em uma Bienal: “Eu acho que o grande diferencial da Bienal é a celebração do livro. Para nós que vendemos, faz toda a diferença também.”. Ele afirma que o movimento estava normal, mas que espera que aumente em dias de ingressos esgotados, como nesse fim de semana.

A autora Tine, que publicou seu livro Em Todas as Gotas de Chuva (Editora Qualis, 2026) esteve presente no estande da editora e contou sobre o encontro com leitores. “Essa é minha quarta ou quinta Bienal como autora, e cada vez é um pouco melhor, porque vou conhecendo pessoas novas”. Ela explicou que sua experiência como expositora melhorou neste ano, graças à criação de um lounge exclusivo para expositores, com uma infraestrutura maior do que de outros anos.
Os motivos para a visita foram variados, mas sempre centrados na leitura. Ana Júlia conta que compra livros apenas na Bienal por conta das promoções: “Já estou levando onze livros, e passei em outro estande e peguei mais três. Realmente, os preços são bons”. Já Heziel afirma que não tinha um objetivo específico, mas que estava interessado em assistir Conceição Evaristo.

O evento possui 269 expositores, com uma ampla variedade de conteúdos, atividades e temas oferecidos. Monize, que se interessa por quadrinhos, diz que sente que foi esse público foi “bem servido”, com acesso a gibis e mangás novos e antigos. Luiza conta que, apesar das filas, a variedade e as promoções compensam a compra de livros no evento.
Escrevivência, suspense e mais
Conceição Evaristo, membro da Academia Mineira de Letras (AML), tem seus 80 anos celebrados na Bienal. A escritora esteve na primeira palestra do espaço Arena Cultural, em uma conversa com a jornalista Eliana Alves Cruz. A palestra Conceição Evaristo: 80 anos de Escrevivência tratou da obra, vida e inspirações da autora.
Durante a conversa, Evaristo contou sobre a importância da coletividade para sua escrita. A autora falou sobre contadores de histórias negros que vieram antes de si e reforçou que segue a tradição deles, que nem sempre tiveram as mesmas oportunidades de reconhecimento. Ela também destacou a força de leitores mais jovens, em manter a sua comunidade e história: “o que me encanta nessa nova geração é que ela lê, procura e valoriza o que vem antes”.

A escritora ainda discutiu sobre sua aclamação no meio acadêmico, celebrando suas conquistas para outras autoras negras, mas deixando claro que não depende delas para se sentir orgulhosa. “Quem te dá status é quem te lê”, afirma. Ela falou sobre sua longevidade e possíveis caminhos futuros, considerando a escrita e o trabalho acadêmico. Evaristo contou que se interessa em procurar obras afrofuturistas e produzir uma crítica literária “de outro lugar, sob uma perspectiva negra”.
“Eu sei que fiz história”
Conceição Evaristo
Outro nome de destaque foi o escritor Raphael Montes, conhecido por seus livros de suspense. O autor apresentou seu novo romance, Uma Estranha na Cama (Companhia das Letras, 2026), na última palestra da Arena Cultural do dia. A fala contou com Paolla Oliveira, que irá interpretar a protagonista da adaptação cinematográfica da obra, e foi mediada pelo jornalista Gabriel Zorzetto.
A conversa abordou a representação de desejos e tabus na ficção. Montes explicou que sempre tenta abordar tópicos considerados “controversos” em seu trabalho, e que o novo livro é focado no que é mais polêmico na sociedade: o desejo. Ele afirmou que considera o tema importante de ser discutido, especialmente na mídia: “Acho que as pessoas só se incomodam com ‘sexo gratuito’, mas, se faz parte da história, se é narrativo, ele interessa”.

Paolla e Montes também falaram sobre como a tensão e as dinâmicas do texto são adaptados para o audiovisual. A atriz contou que criar uma personagem “capaz de tudo” foi um desafio, mas que o elenco e a produção tiveram liberdade de criação: “pudemos experimentar muito no filme”. O longa foi produzido pela Netflix e tem previsão de estreia para o ano que vem.
Além de autores renomados, a Bienal também trouxe outros rostos conhecidos: os atores Miguel Lallo e Diego Lima, protagonistas do filme Quinze Dias (2026), juntamente a Ray Tavares, roteirista da obra, conversaram com o público no estande da Skeelo. O longa é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Vitor Martins, e está atingindo prestígio no streaming. De forma leve e divertida, o grupo, mediado pelo influenciador Z Mario, discutiu sobre representação queer na mídia, adaptações literárias e a projeção do cinema nacional.

O dia também contou com apresentações e dinâmicas diversas para toda a família. No Espaço Infantil, contações de história, com fantoches e intérpretes, entreteram o público durante o dia. As histórias também estiveram presentes no espaço Repente e Cordel, que ofereceu shows de repente e conversas, além de lançamentos de livros.

A Bienal segue pelos próximos nove dias, com uma programação exclusiva de palestras, autores e estandes para visitação.
