Por Hellen Rodrigues (helliv7@usp.br) esporte
O esporte sempre encantou e marcou a vida das pessoas. As multidões que eram arrastadas até os estádios para prestigiarem seu time são as mesmas que, na década de 30, compraram pequenos aparelhos de rádio para escutarem os jogos do esporte preferido.
A relação entre o audiovisual e as práticas esportivas sempre estiveram conectadas pela transmissão, ambas querem passar uma mensagem e são interligadas por esse espetáculo. Segundo Davy Santos, produtor de audiovisual esportivo, tanto o cinema quanto o esporte trabalham emoção, identificação e ambos buscam contar uma narrativa, e assim, uma utiliza-se da outra para alcançar o objetivo.
Na atualidade, o acesso à informação e conteúdos é simples e fácil, as grandes emissoras de televisão e os canais esportivos, que cada vez mais vem ganhando espaço nas redes, controlam as transmissões e oferecem um grande leque de esportes nos streaming, desde os grandes campeonatos de futebol até as competições menos reconhecidas.
Apesar desta ser a realidade atual, o começo da correlação entre audiovisual e esporte não foi sempre tão direta. A primeira transmissão em imagens aconteceu na Alemanha, em 1936, durante os Jogos Olímpicos de Berlim. Todavia, no Brasil, esse feito só foi realizado na década de 50. A obtenção de um aparelho de televisão não era a realidade da maioria dos brasileiros, sendo assim, a discrepância socioeconômica impediu que a consolidação do esporte em imagens fosse acessível à população na metade do século XX.
A utilização do audiovisual nesse contexto englobava apenas as transmissões de jogos, mas foi com o sucesso do cinema, alguns anos antes, que o esporte ganhou um novo palco e se fixou nas telas cinematográficas.
Cinematografia esportiva no Brasil
O cinema esportivo brasileiro nasceu com o filme O Campeão de Futebol (1931). Dirigido pelo humorista Genésio Arruda, o longa marca o começo da representação ficcional das práticas esportivas. A trama girava em torno do caipira Zezinho, que finge ser um grande jogador de futebol para conquistar uma professora.

Além de diretor, o filme também foi protagonizado por Genésio Arruda, o qual interpretava Zezinho [Imagem: Divulgação/IMDb]
Na obra, o futebol é usado como plano de fundo para compor o enredo, uma vez que o ponto principal do filme é o romance entre a professora e Zezinho. Essa proposta de filmagem é recorrente nos filmes esportivos subsequentes, como Alma e Corpo de uma Raça (1938), dirigido por Milton Rodrigues, e Futebol em Família (1939), filme de Ruy Costa.
Apesar de alguns sites usarem a classificação “esporte” como gênero, essa definição não é a mais correta – pois seria o mesmo que dizer que existe uma categoria de “super-herói” – o filme utiliza-se do esporte como caminho para contar algo, mas não como conceito principal.
Diferencialmente desta proposta, surge outra forma de representação: os cinejornais brasileiros traziam a valorização do esporte em seu conceito real, mostrando a atmosfera dos jogos, os atletas e a torcida de uma forma ficcional, com close nos jogadores, ampliação sonora da torcida, câmera lenta e outros efeitos cinematográficos que eram atribuídos de maneira diferente à realidade esportiva. Assim, esses longas se diferenciavam da sensação passada por seus antecessores, em que o esporte era apenas o mecanismo para desenvolver outra história.
Todavia, esse tipo de filmografia não obteve o mesmo êxito das produções anteriores. O público gosta de se entregar à novidade e ser marcado por ela. O filme, além de mostrar, precisa encantar, e assistir a uma partida comum com alguns efeitos especiais não cumpre esse objetivo.
Ainda sobre a produção de Arruda, além do marco por trazer pela primeira vez o esporte como parte de uma ficção, O Campeão de Futebol também marca o início da estratégia de usar jogadores de renome como parte do elenco. O sucesso decorrente do apelo afetivo proporcionado pelos grandes ídolos é um dos motivos que impulsionaram as cinebiografias de astros esportivos.
Garrincha, Alegria do Povo (1962), de Joaquim Pedro de Andrade, foi o início das produções desse estilo. O filme conta a história de Manoel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, em seu retrato como jogador e como cidadão brasileiro frente aos acontecimentos da ditadura militar, período durante o qual Garrincha foi perseguido e exilado.
“Era melhor ter ido ver o filme do Pelé”: a famosa frase dita pelo personagem Chaves no seriado de TV de mesmo nome é uma estratégia da dublagem brasileira para aproximar a obra à realidade do público brasileiro. Pelé, além de grande ídolo do futebol nacional também participou de diversos filmes durante sua vida, como: Os Trombadinhas (1979), Fuga para a Vitória (1981), A Vitória do Mais Fraco (1983), Pedro Mico (1985) e Os Trapalhões e o Rei do Futebol (1986). Mas foi alguns anos depois que Pelé deixou de ser apenas participação especial e tornou-se protagonista no principal filme biográfico de sua carreira, intitulado Pelé: O Nascimento de uma Lenda (2016). Mais do que retratar a vida dos esportistas, essa tipologia se encaixa em outro conceito do audiovisual intitulado “Jornada do Herói”.

O filme mistura fatos biográficos com algumas licenças criativas para maior efeito dramático [Imagem: Divulgação/IMDb]
A Jornada do herói
O conceito engloba um tipo de narrativa famosa que comumente é atribuída a roteiros no âmbito dos esportes. De maneira ampla, se caracteriza pela trajetória de um protagonista que sai de sua vida comum em busca de um objetivo maior, enfrenta obstáculos, vence uma crise decisiva e retorna transformado. A estratégia é presente em diversos filmes renomados, como Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004), Invictus (2009) e Karatê Kid: A hora da Verdade (The Karate Kid, 1984). Dentro dessa tipologia existem divergências na maneira como essa ideia é recebida.
“Eu vejo isso [Jornada do Herói] com um olhar muito positivo porque valoriza a trajetória do atleta e inspira outras pessoas”
Davy Santos
Histórias como essas costumam ser extremamente comoventes, pois evidenciam a importância do esporte para a superação das lutas internas vividas pelas personagens. O sucesso alcançado por esse eixo narrativo deriva do fator emocional: o público se encanta com o protagonista habilidoso e torce pelo seu sucesso.
O êxito comercial proporcionado por esse estilo de roteiro impulsionou produções semelhantes dentro da indústria cinematográfica, a fim de alcançar satisfação econômica em projetos relacionados ao esporte.
“Existe toda uma lógica comercial por trás disso, a qual envolve audiência, patrocínio, engajamento. Então, é tudo pensado em vender uma experiência. Os conteúdos esportivos, hoje em dia, são produtos”
Davy Santos
Contudo, devido à repetição excessiva, esse tipo de narrativa já não entretia e surpreendia mais o público, e passou a ser considerado clichê. Mas então, por que ainda se vê diversos filmes esportivos em produção, alguns deles até prestigiados em grandes premiações, como foram os casos de Marty Supreme (2025) e F1 (2025) no Oscar deste ano?
As obras citadas usam as práticas esportivas como plano de fundo, assim como foi feito nas primeiras produções do “gênero”. Nelas, o esporte é responsável por gerar identificação com o público, tanto aquele que o pratica como aquele que o consome. Além disso, o mesmo tem o poder de prender a audiência, seja pelo visual bonito, seja pela velocidade dos jogos, como é o caso de Marty Supreme, que utiliza o tênis de mesa, esporte de movimentos rápidos, para fisgar a atenção do espectador.
O visual atraente se dá pelo fato de que o esporte é, em sua maioria, composto por gestos coordenados e plásticos, os quais deixam a composição de ação mais satisfatória, e abrem margem para o cineasta fazer uma direção de cena mais vívida.
O esporte cria a ansiedade de ver o final, a resolução da partida e o ganhador, tudo isso de uma maneira honesta, porque não é uma situação em que o protagonista realmente corre perigo, visto que existem regras, e há um pressuposto de que elas sejam respeitadas. Por isso, o espectador torce freneticamente para um atleta ganhar, pois sabe que dentro da partida nada de errado vai acontecer com o seu oponente.
Todavia, só isso não entretém, então, é nesse momento crucial que o esporte cai para plano de fundo, e o roteirista utiliza-se de outras adversidades para tornar o filme envolvente, como as dificuldades que Marty passa para conseguir viajar para jogar. O esporte também é propício para tratar do psicológico dos personagens e evocar todas as suas emoções, pois instiga a competitividade ao protagonista e o leva ao limite dos seus sentimentos.
Ilusões e esperança
Alguém que não está habituado ao esporte pode não sentir vontade de assistí-lo, mas, quando esse tema surge por meio de um recurso audiovisual, isso possibilita que essas pessoas se interessem pela prática esportiva.
Yuji Nishida e Yuki Ishikawa, estrelas da seleção japonesa de vôlei, já declararam publicamente acompanhar a franquia Haikyuu, um anime japonês que narra a história de Hinata, um jovem que tem o sonho de ser jogador profissional de vôlei mas enfrenta dificuldades por ser baixo.
A influência da obra é notável: os índices de pessoas interessadas por vôlei no Japão aumentaram drasticamente. O anime possibilitou que as pessoas conhecessem o esporte e se encontrassem em um personagem que, apesar de passar por muitas adversidades, segue firme em seu objetivo.

Apesar de ter o seu mangá adaptado para anime, Haikyuu também possui um filme, lançado em 2024 [Imagem: Divulgação/IMDb]
Contudo, a influência do anime não se limita ao território do Japão. Alexandre Fogace, jogador universitário de vôlei, comenta que também foi impulsionado pela obra. “Ver aquelas jogadas me incentivou a começar a jogar, mas não só isso, elas também me fizeram ser melhor dentro do esporte”, relata.
A irrealidade faz parte da mágica da produção. Como dito anteriormente, o público gosta de ser entretido por uma história diferente, como ver alguém que é considerado baixo fazer saltos mágicos. No entanto, essa forma de criar também traz consequências.
Da mesma forma que o audiovisual pode incentivar, ele também pode iludir. Feitos inacreditáveis são atrativos na tela, mas podem criar falsas expectativas em jovens atletas.
Quando um atleta profissional diz ter se inspirado em uma obra cinematográfica para se tornar jogador, sua fala é amplamente divulgada. Mas existem muitas outras pessoas que também assistiram a uma produção e se sentiram motivadas por ela e, no entanto, não conseguiram alcançar o estrelato.
“Começar a jogar e não conseguir fazer o que os personagens fazem é meio frustrante”
Alexandre Fogace
As ressalvas existem, mas a correlação entre o esporte e o audiovisual tem se mostrado mais benéfica do que prejudicial. Ser fiel à realidade é importante, mas abrir a mente para a imaginação é uma forma de simplificar a vida e se divertir assistindo às práticas esportivas.
“Essas produções são a porta de entrada, mas é necessário uma responsabilidade na hora de adaptar, para que os jovens tenham uma margem de comparação mais próxima da realidade”
Alexandre Fogace
As dificuldades para adaptar o esporte às telonas
Evocar sentimentos é papel do cinema, o esporte é apenas o coadjuvante no processo de montagem das obras. Por isso, algumas produções passam a ideia equivocada sobre as práticas esportivas. As coreografias de cena são planejadas para pensar na beleza dos movimentos, ao invés da realidade da partida.
As regras dos jogos, às vezes, são deixadas de lado pelo diretor, que não conhece o esporte ou está mais preocupado em transmitir a sensação do jogo do que se atentar aos detalhes técnicos. Outro erro comum é o conhecimento supérfluo da modalidade, o que pode acarretar em redundância de informações, muitos jargões em momentos inoportunos, erros de regulamento, entre outras incoerências.
“Não basta só gravar imagens bonitas, movimentos elásticos, tem que ter contexto. Tem que saber os detalhe técnicos, porque isso possibilita a melhor captação daquele esporte”
Davy Santos
O processo na escolha dos atores também é crucial para transmitir essa veracidade, uma vez que atores que não são familiarizados com o esporte podem ter uma dificuldade maior em representar o papel. Por isso, a dedicação por parte dessas pessoas é crucial para que o filme seja bem feito, principalmente nas produções biográficas, em que o atleta é a estrela principal e transmitir a grandiosidade do esportista é o maior objetivo.
O audiovisual e o esporte, quando relacionados de maneira correta, desencadeiam muitas sensações no espectador. Eternizar ídolos e incentivar as práticas esportivas são apenas consequências de bons trabalhos cinematográficos, os quais precisam sempre levar em consideração a relação do esporte com a trama, para que assim, atinjam seu verdadeiro apogeu.
