Por Juliana Lara (juliana.llrodrigues@usp.br)
Em setembro de 2022, a grife Coperni chocou o mundo ao pulverizar o vestido da modelo Bella Hadid ao vivo para a plateia do desfile de sua coleção primavera/verão no Paris Fashion Week. Tal momento marcante ocorreu graças a uma tecnologia desenvolvida pelo designer Dr. Manel Torres. Ao pesquisar formas de acelerar a confecção de roupas, ele criou uma espécie de “tecido líquido”.
A inovação recebeu o nome de Fabrican. Desde que surgiu, o material é submetido a aprimorações e adaptações. Atualmente, já é aplicado fora do mundo da moda, como na medicina, para a fabricação de curativos e gessos ortopédicos, adesivos transdérmicos e até mesmo de tecidos inteligentes capazes de monitorar batimentos cardíacos.
Ao retirar a tecnologia do campo do “espetáculo” e deslocá-la para o campo da utilidade pública, a ciência demonstra que a união entre criatividade artística e engenharia de materiais molda um mundo de tecnologias com multifuncionais.
A ciência por trás do material
O Fabrican não é apenas uma tinta, mas sim uma suspensão formada por uma base de polímeros naturais e sintéticos – como lã, algodão e nylon – misturados a solventes e aditivos. Quando pronto, o material resultante é aplicado em aerossol.
Antes de entender como esse líquido se torna sólido, é preciso desmistificar a natureza de seus componentes. Segundo a professora da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), Heloísa Nazaré dos Santos, engenheira de materiais, é um erro comum acreditar que polímeros se restringem aos plásticos, quando, na realidade, quase todas as fibras conhecidas são polímeros, desde a celulose vegetal até o feltro e a seda.
Essa compreensão química é a chave para entender a mudança de estado físico do material. Por serem formados por longas cadeias moleculares, os polímeros do Fabrican possuem tendência natural ao entrelaçamento. Dentro da lata, o solvente impede que tal união aconteça, e mantém o material fluido.

Porém, assim que a substância deixa o frasco, ocorre a evaporação seletiva. Apenas alguns componentes evaporam dados a alta volatilidade e o baixo ponto de ebulição dos solventes, o que permite a mudança de estado físico. Nessa etapa, os solventes se dissipam instantaneamente no ar.
Sem a força que os separava, os polímeros se agrupam e formam uma rede sólida de fibras quando a mistura atinge a superfície, que pode ser a pele humana. O tecido, criado ao final desse processo, se molda com facilidade aos contornos de onde é depositado e dispensa costuras.
A característica pulverizável é fundamental para a diversificação de aplicações do Fabrican. Ela permite que a base do material seja facilmente modificada conforme a necessidade de uso; por exemplo, na moda, a textura e a cor do material podem ser manipulados. Além disso, há a possibilidade de modificação da densidade dele: ao aplicar mais de uma camada, o tecido se torna cada vez mais espesso e resistente.
Aplicações medicinais do Fabrican
Dada à alta capacidade de adaptação e esterilidade, o Fabrican foi estudado para aplicações na medicina, especialmente em imobilizações ortopédicas e adesivos transdérmicos.
O material mais comum utilizado atualmente é o gesso. Porém, ele é pesado e retém a umidade, diferentemente do tecido pulverizável, que cria uma estrutura leve e respirável. Segundo a técnica de enfermagem Maria Gizele Moreira, tais características facilitam o processo de recuperação dos pacientes e evitam complicações comuns, como extremidades abertas e acúmulo de sujidade sob a imobilização. Além disso, facilitam o manejo daqueles que se encontram acamados, uma vez que o material pode ser molhado, simplificando tarefas como o banho e a higiene em geral.
Um detalhe interessante é a possibilidade de se adicionar fármacos à base do Fabrican que são liberados de forma gradual e controlada através da pele. O funcionamento seria similar ao tradicional adesivo de nicotina, porém com outras medicações, isso elimina a necessidade de trocas constantes de curativos tradicionais. Quanto à fórmula adaptável, ela permite personalizar a cor do adesivo por meio de corantes, sem modificar o resultado final. Assim, o paciente pode escolher entre, cores vibrantes, claras, escuras ou semelhante à pele e pode ficar mais confortável.
Contudo, apesar dos benefícios, há um ponto que preocupa profissionais de saúde como Moreira e Santos: a biocompatibilidade. Ou seja, a capacidade de um material interagir com tecidos corporais ou fluidos vivos sem causar reações adversas, como intoxicação ou rejeição imunológica. De maneira a minimizar tais riscos, algumas medidas foram adotadas, variando desde: a seleção rigorosa de polímeros de base biológica, como a lã e o algodão, até o uso de aditivos hipoalergênicos na formulação. No entanto, é válido ressaltar que essas ações não conseguem garantir total segurança, já que biocompatibilidade não é uma propriedade fixa do material, mas sim o resultado da interação entre ele e o sistema imunológico único de cada organismo.
Embora o Brasil não tenha participado do desenvolvimento do Fabrican, o país já marca presença na pesquisa de inovações com polímeros. Exemplo disso é o trabalho da Dra. Heloísa Nazaré dos Santos, que investiga as propriedades e aplicações do feltro para uso médico, como em palmilhas para diabéticos e lençois. Estudos como esse são essenciais para a evolução do setor têxtil nacional e permitem não apenas que o país esteja preparado para absorver tecnologias, mas que desenvolva autonomia para criar suas próprias soluções poliméricas.

Fabrican e a sustentabilidade
Para além da variedade de utilidades, o Fabrican se apresenta como uma resposta aos desafios ambientais da indústria médica. Essa tecnologia surge em um momento alarmante: segundo o 11º Congresso Brasileiro de Gestão Ambiental, apenas em 2018, o Brasil gerou cerca de 253 mil toneladas de Resíduos de Serviços de Saúde (RSS). O composto atua diretamente na redução desse volume, especialmente de detritos biológicos e comuns.
A diminuição em questão acontece através da precisão da aplicação. O uso do spray permite que o profissional utilize apenas a quantidade estritamente necessária de polímero para cada procedimento, eliminando os descartes de sobras comuns em rolos de gaze, ataduras e gesso. Enquanto métodos convencionais geram muitos resíduos sólidos após a remoção, este tecido pulverizável condensa a proteção em uma camada milimétrica e única.
Seus criadores também se preocuparam com a sustentabilidade durante a escolha da composição química. Há uma priorização de polímeros de origem natural e biodegradável, além do uso frequente de fibras recicladas de roupas descartadas. Logo, a dependência de derivados do petróleo é minimizada e a pegada de carbono é reduzida.
Além disso, a capacidade de redissolução do material otimiza o manejo desses resíduos, ao transformar coberturas sólidas e volumosas em um estado líquido concentrado. Esse processo simplifica o descarte hospitalar, reduzindo drasticamente o espaço ocupado no lixo infectante e facilitando a neutralização química ou incineração dos detritos de forma muito mais eficiente.

Fabrican no Brasil: sonho ou realidade?
Apesar da grande utilidade, a chegada do Fabrican aos hospitais brasileiros ainda é barrada por alguns obstáculos, como o custo elevado. Essa é a preocupação de diversos profissionais da área, como o Dr. Paulo Henrique Duarte médico do Hospital Imaculada Conceição, que diz que “toxicidade, facilidade de remoção e resistência são importantes, mas o preço seria o maior entrave”.
Segundo a Dra. Ana Raquel Bambirra, funcionária do Hospital Júlia Kubitschek, o processo de requerimento de novas verbas para o investimento na nova tecnologia precisa ser aprovado e validado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). O protocolo é necessário para obter uma comprovação rigorosa de eficácia e economicidade perante comissões técnicas, já que o investimento em um insumo caro geralmente implica em reduzir verbas de outras áreas assistenciais.
Ademais, o maquinário atual possui baixa capacidade de produção do Fabrican, sendo necessários novos ciclos de pesquisa, adaptação industrial e mais capital para realizar a transição de baixa para grande quantidade de material produzido e aumentar a escala produtiva.
No estágio atual, o Fabrican permanece como uma promessa. Apesar de ser útil, estar de acordo com as normas técnicas e estar pronta para uso no mercado, ele ainda aguarda investimentos que o tornem mais acessível financeiramente. O vestido pulverizado sobre Bella Hadid em Paris pode ter sido o auge da divulgação e reconhecimento do Fabrican, mas sua marca de inovação permanece nos laboratórios e centros médicos.

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