Por Fernando Lucchi (fernandolucchi@usp.br), Hellen Rodrigues (helliv7@usp.br) e Lucas Miranda (lucasmirandaf@usp.br) napoli
Entre títulos, ídolos e uma torcida marcada pelo amor à camisa, o Napoli construiu uma identidade que ultrapassa os limites do futebol e se confunde com a própria história de Nápoles e do sul da Itália. Em 2026, ano de seu centenário, o clube celebra esse legado que atravessa gerações.
Nascimento e construção de identidade
A origem do Napoli remonta ao início da história do futebol na cidade de Nápoles, no sul da Itália. Em 1904, o inglês William Poths fundou o primeiro clube da cidade, o Naples Foot-Ball. Poucos anos depois, em 1911, foi fundado o segundo time napolitano: o Internazionale Napoli, e a rivalidade entre os dois não demorou a surgir.
A disputa, no entanto, durou pouco. Em 1922, os dois clubes enfrentavam problemas financeiros e decidiram se fundir em uma única equipe, o Foot-Ball Club Internazionale-Naples. Em 1º de agosto de 1926, a equipe teve sua identidade alterada, e assim nasceu a Associazione Calcio Napoli.

Equipe do Naples-FC em 1906. O uniforme original do time era uma camisa listrada em azul-claro e azul-marinho, cores que permanecem até hoje no uniforme do Napoli [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Após dois rebaixamentos nas temporadas 1941/42 e 1947/48, na década de 1950 o clube conseguiu permanecer na Serie A, e na temporada 1957/58 terminou em quarto lugar — sua melhor colocação até então. No entanto, após uma campanha ruim em 1960/61, o Napoli foi rebaixado pela terceira vez em sua história. No ano seguinte, o time foi campeão da Copa da Itália ao vencer o Spal por 2 a 1 e tornou-se a única equipe da Série B, até hoje, a conquistar o torneio.
Em 1964, o time mudou de identidade mais uma vez, para Società Sportiva Calcio Napoli — nome que permanece até hoje. Na temporada 1968/69, o clube terminou em segundo lugar, atrás apenas do Milan. Seis anos depois, em 1974/75, o Napoli repetiu o feito e foi vice-campeão pela segunda vez em sua história, apenas dois pontos atrás da Juventus. No ano seguinte, a equipe conquistou sua segunda Copa da Itália ao vencer o Verona por 4 a 0 na final.
Essas primeiras décadas foram fundamentais para a construção da identidade do Napoli, fortemente ligada ao contexto sociocultural em que o time está inserido. A equipe está localizada no sul do país, região historicamente menos desenvolvida industrialmente e, por isso, alvo de marginalização e preconceito. Assim, o clube se tornou um símbolo da cidade de Nápoles e de toda a região sul.
Hoje, com cerca de três milhões de torcedores, o Napoli tem a quarta maior torcida da Itália — atrás apenas de Juventus, Inter de Milão e Milan —, e é considerada a mais fanática do país. Em entrevista ao Arquibancada, o jornalista esportivo Leonardo Bertozzi explica essa dinâmica entre o torcedor e o time: “Isso de manter e abraçar as origens, de ser a força esportiva e cultural do sul, somada à questão do que significa ser um sulista, que é tão desprezado pelo norte italiano, faz com que a relação com o clube seja diferente das demais torcidas”.
A chegada de Maradona
A década de 1980 foi a mais vitoriosa da história do time, principalmente devido à contratação do melhor jogador do mundo na época, Diego Armando Maradona. Após duas temporadas no Barcelona, marcadas por bons desempenhos, mas também por problemas de saúde e relacionamento com a diretoria, lesões e uma briga generalizada em seu jogo de despedida, o Napoli desembolsou 10,5 milhões de dólares para contratar o craque e estabeleceu um novo recorde de maior transferência da história do futebol.
Corrado Ferlaino, presidente do Napoli entre 1969 e 1993, com breves interrupções nesse período, foi peça central na contratação do argentino em 1984 e na construção do que viria a ser um dos melhores times da Itália na época. Para viabilizar a negociação, o presidente mobilizou toda a cidade, inclusive por meio de articulações políticas e bancárias.

Além de dirigente, Ferlaino também foi engenheiro, piloto de automobilismo e aviador, sendo uma das figuras mais folclóricas da história do futebol italiano [Imagem: Reprodução/X/@NapoliPix]
A decisão de Maradona de defender um clube até então sem grande expressão e de uma cidade marginalizada, em vez de um dos gigantes italianos, como Juventus, Milan ou Internazionale, começou a construir a relação que o argentino teria com os napolitanos. Em 5 de julho de 1984, cerca de oitenta mil torcedores compareceram ao Estádio San Paolo para assistir à apresentação do argentino. Com o craque, o Napoli se fortaleceu gradualmente e terminou as temporadas de 1984/85 e 1985/86 em oitavo e terceiro lugar, respectivamente.
Em entrevista ao Arquibancada, Caio Bitencourt, jornalista e torcedor do Napoli, explica essa relação do argentino com a torcida: “O napolitano não amava Maradona apenas pelo que ele fazia em campo. Era uma coisa de querer abraçá-lo em todo lugar. Maradona não podia sair de casa. Existia aquela sensação de que ele era o nosso herói, o nosso deus”. Ao mesmo tempo em que protagonizava grandes atuações, Maradona também falava publicamente sobre a xenofobia sofrida pelos napolitanos e usava seu status de estrela global para confrontar essa discriminação.

Diego Maradona foi o primeiro jogador a receber a cidadania honorária de Nápoles, em 2017 [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Era de Ouro
Após a chegada de Maradona ao Napoli, o clube iniciava a melhor trajetória de sua história. Os primeiros anos da chegada do craque argentino já indicavam a mudança de postura do clube italiano. Durante os dois primeiros anos, o Gli Azzurri (Os azuis), como são conhecidos, não conquistaram nenhum título, mas a competitividade mostrada ao enfrentar as grandes potências nacionais da época traziam o vislumbre de uma era vitoriosa.
Em 1986 iniciou-se o apogeu do clube napolitano. O primeiro título de Campeonato Italiano aconteceu na temporada 1986/87, e destacou-se pela forma como foi conquistado. O time de Nápoles terminou a competição com 42 pontos, após 15 vitórias, 12 empates e apenas três derrotas, campanha que teve como destaque as duas vitórias diante da Juventus de Platini e a vitória contra o Milan, em casa. Os azuis fizeram valer sua hegemonia no estádio San Paolo e terminaram a competição invictos como mandantes. Para completar a temporada triunfante do clube, o Napoli também foi campeão da Copa Itália ao derrotar a Atalanta nos dois jogos da final: 3 a 0 em Nápoles e 1 a 0 em Bérgamo.
Na temporada seguinte, o Napoli, vislumbrando um futuro promissor, aumentou os seus reforços e trouxe o atacante brasileiro Careca para compor o trio de ataque. O jogador, que antes atuava no São Paulo, juntou-se a Maradona e Giordano para liderar os azuis frente às potências mundiais. Apesar da eficácia no ataque, justificada pelos 15 gols de Maradona na temporada, o clube não conseguiu o bicampeonato e viu o título italiano ser erguido pelo Milan. Contudo, a boa atuação e o vice-campeonato garantiram ao Napoli acesso a Copa da UEFA de 1988/89.

O atual estádio do Napoli leva o nome do ídolo Diego Maradona [Imagem: Reprodução/Instagram/officialsscnapoli]
Na busca pela Taça da UEFA, atual Europa League, o clube italiano derrotou o PAOK, da Grécia, o Lokomotiv Leipzig, da Alemanha Oriental, e o Bordeaux, da França, pelas primeiras fases. Nas quartas, o Napoli enfrentou a Juventus, um de seus rivais nacionais, e saiu em desvantagem no primeiro jogo, mas conseguiu empatar o placar em casa e consagrou a virada na prorrogação. Na fase seguinte, mais um duro adversário: o Bayern de Munique. Os jogos contra os alemães foram mais tranquilos, com uma vitória por 2 a 0 em San Paolo e um empate de 2 a 2 em Munique.
Na final enfrentou o Stuttgart, terceiro time alemão a cruzar o caminho dos italianos. A primeira partida terminou em vitória para os napolitanos por 2 a 1, e o segundo jogo, na Alemanha, ganhou roteiro épico. Os azuis dominaram a partida por 3 a 1 e assistiram o clube alemão alcançar o empate nos últimos minutos. Com o jogo já no fim, o Napoli segurou o empate e levantou, pela primeira vez na sua história, um título continental, feito inédito até para seus rivais Roma e Lazio.
O destaque da competição foi o brasileiro Careca, autor de gols em ambos os jogos da semifinal e da final. Não somente responsável pelo primeiro título internacional do Napoli, Careca também é o principal motivo para a existência de torcedores napolitanos no Brasil. “Eu sei de muitos torcedores do São Paulo, por exemplo, que quando o Careca foi pra lá, naturalmente criaram a identificação com o Napoli”, comenta Bertozzi.
Para consagrar a temporada vitoriosa, o Napoli se tornou bicampeão nacional na temporada 1989/90, após superar o vice Milan por dois pontos. Nessa ocasião, Maradona guardou 16 gols e foi o artilheiro napolitano. Ainda no mesmo ano, a equipe celeste levantou a taça da Supercopa Italiana com um sonoro 5 a 1 contra a Juventus. Todavia, esse também foi o ano que marcou o fim da era de vitórias.

O trio de ataque composto por Maradona, Giordano e Careca foi apelidado de MAGICA, trocadilho com as sílabas dos nomes dos jogadores [Imagem: Divulgação/Instagram/@futebollegacyfc]
O declínio
Depois de encantar o futebol italiano e mundial durante quatro anos, o Napoli encontrou pela frente tempos sombrios. O time celeste se deparou com a falência em 2004, mas a queda já vinha de anos anteriores. Em 1991, após a Copa do Mundo, o grande ídolo do clube, Diego Maradona, protagonizou um grande escândalo de doping, quando o atleta foi suspenso durante 15 meses por uso de cocaína. Após a perda do maior ídolo, o clube napolitano entrou em um processo de decadência.
“A única coisa ruim da Era Maradona foi a maneira como ele deixou o clube. Ele saiu como um fugitivo, de uma maneira que não precisava acontecer”
Caio Bitencourt
Os escândalos não terminaram por aí. O presidente do clube, Corrado Ferlaino, foi detido pela Operação Mãos Limpas. As acusações tinham como base o lucro exacerbado de uma empreiteira ligada a ele durante o período de reconstrução de Nápoles, após o terremoto na região, em 1980.
Sem alternativa, Ferlaino teve que vender o clube. Além dos escândalos que acometeram o Napoli, o time também sofria com problemas de dívida. Naquele período, as contratações podiam ser feitas a partir de créditos financeiros, então, para reforçar seu elenco, o clube napolitano fez diversos empréstimos com o Banco de Nápoles. Todavia, devido à instabilidade do cenário econômico na região, o Banco faliu e outras instituições financeiras não colaboraram, pois o clube não tinha condições de pagar. O Napoli não possuía estruturas físicas próprias para penhorar e teve que vender os jogadores para arrecadar dinheiro. Bitencourt ressalta que, até os dias atuais, o centro de treinamento, Castel Volturno, não pertence integralmente ao Napoli.

O presidente do Napoli estava envolvido no esquema de corrupção conhecido como “Tangentopoli”, no qual empresas pagavam propinas a autoridades públicas e em troca recebiam contratos de obra ou serviços do governo [Imagem: Reprodução/WikimediaCommons]
Em 1994, o clube já havia perdido seus principais jogadores, alguns para o mercado exterior, mas normalmente a transação acontecia entre os próprios rivais nacionais. O Napoli quase chegou à falência em 1995, quando demorou para se inscrever no campeonato e precisou vender mais jogadores. O time ainda conseguiu se manter na primeira divisão durante boa parte da década de 90, mas na temporada 1997/98 passou pelas mãos de quatro técnicos e fez uma campanha desastrosa na Serie A, na qual ganhou apenas dois jogos. Dessa forma, o Napoli foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Italiano.
A equipe celeste enfrentou a Série B nos anos posteriores e conseguiu sua volta para a elite italiana em 1999/2000. Nesse mesmo ano, Ferlaino vendeu o time napolitano para Giorgio Corbelli, mas o clube napolês teve sua estadia passageira pela Série A, e no ano seguinte voltou a cair para a segunda divisão. Em 2002, descobriu-se que a fortuna de Corbelli, atual dono do Napoli, era falsa. A riqueza, baseada em vendas de quadros na televisão, foi suspensa após a descoberta de que as obras eram réplicas. Em seguida, o time passou por diversos empresários até decretar falência, mas não obteve sucesso em nenhuma de suas gestões.
“O Napoli tinha dívidas com o Estado, e a Justiça decretou a falência. A Federação Italiana, diferentemente do que fez com outros clubes que enfrentaram problemas semelhantes naquele período, não ajudou o Napoli”
Caio Bitencourt
A história continua viva
Os eventos do início da década de 2000 não foram favoráveis para o clube italiano. Contudo, na Itália existe uma forma de comprar a história de um clube e preservá-la, e foi exatamente isso que aconteceu com o Napoli. Aurelio de Laurentis, famoso cineasta italiano, adquiriu a identidade histórica do clube, mas alterou a expressão jurídica, com uma mudança de CNPJ. O diretor reformulou-o com outro nome: ao invés de Società Sportiva Calcio Napoli, o time passou a se chamar Napoli Soccer. Assim, em 2005, os azuis recém-estruturados reiniciaram sua trajetória na Série C, a última divisão profissional da Itália.
Logo em seu primeiro ano de volta, o time celeste quase avançou para a próxima divisão, mas bateu na trave contra o Avellino. A partida disputada na final dos playoffs contou com a participação de mais de sessenta mil napolitanos. No ano seguinte, o Napoli fez uma campanha sólida, foi campeão da Série C e, consequentemente, subiu para a segunda divisão da Itália.
A passagem pela Série B durou apenas um ano. Naquele período, a competição contava com participantes ilustres. A rival Juventus havia, pela primeira vez na sua história, caído para o escalão inferior e liderou a volta das grandes potências para a elite do futebol italiano. Após conquistar a vaga para a Serie A, o Napoli demonstrou ser um time estruturado e equilibrado, se mantendo longe da parte de baixo da tabela.

Na edição 2005/06, o Napoli ganhou a Série C italiana com seis rodadas de antecedência [Imagem: Reprodução/WikimediaCommons]
“O Napoli é um time em que os jogadores querem jogar, porque ele tem uma torcida apaixonada, uma torcida que te abraça e um time que compete. Pode não ser hoje o principal favorito aos títulos, mas você sabe que vai competir”
Caio Bitencourt
Retorno aos grandes palcos
Após os anos de reconstrução, o Napoli voltou ao protagonismo do futebol italiano na temporada 2009/10. A chegada do técnico Walter Mazzarri, somada às contratações de Morgan De Sanctis, Hugo Campagnaro e Fabio Quagliarella, impulsionou uma sequência invicta de 15 jogos na Serie A. “Aquele time tinha jogadores muito bons. O Hamsik já estava consolidado, havia o Lavezzi e o Paolo Cannavaro, que era muito ídolo da torcida por ter acompanhado o clube na Série B”, relembra Bitencourt. O desempenho recolocou os Partenopei — do italiano, “napolitanos” — nas competições europeias, com a classificação para a Europa League.
A temporada seguinte trouxe um feito ainda mais importante. Embalado pela chegada de Edinson Cavani, artilheiro da equipe, o Napoli terminou a Serie A de 2010/11 na terceira colocação e garantiu seu retorno à Champions League, após 21 anos. Ao lado de Marek Hamsik e Ezequiel Lavezzi, o uruguaio formou o lendário trio dos “Três Tenores”, um dos ataques mais marcantes da história recente do clube.
A volta à Liga dos Campeões colocou o Napoli entre as principais forças do continente. No chamado “grupo da morte”, ao lado de Bayern de Munique e Manchester City, os italianos eliminaram os ingleses e avançaram às oitavas de final. No mata-mata, protagonizaram um dos confrontos mais memoráveis da edição contra o Chelsea. Após vencerem por 3 a 1 no San Paolo, com dois gols de Lavezzi e um de Cavani, os napolitanos sofreram a virada em Stamford Bridge e acabaram eliminados na prorrogação.
Ainda assim, a temporada terminou em festa. O Napoli encerrou o jejum de títulos ao conquistar a Copa da Itália. Depois de eliminar Cesena, Inter de Milão e Siena, os napolitanos enfrentaram a Juventus na decisão, disputada no Estádio Olímpico de Roma. A rivalidade entre os clubes vai além do futebol e simboliza a histórica divisão entre o norte e o sul da Itália, marcada por diferenças econômicas e recorrentes episódios de preconceito contra os sulistas.
“Parafraseando um pouco o hino do Corinthians, a Juventus talvez seja o clube mais italiano da Itália. O Napoli, por outro lado, representa uma resistência na sua região”
Caio Bitencourt
Na final, os gols de Edinson Cavani e Marek Hamsik garantiram a vitória por 2 a 0 e o primeiro título do Napoli desde a Era Maradona, além de encerrar a invencibilidade de 43 partidas da Juventus em competições nacionais.
A temporada 2012/13 marcou a despedida de Walter Mazzarri. O treinador encerrou sua passagem com a melhor campanha do clube desde o retorno à elite: o vice-campeonato italiano. O desempenho consolidou o Napoli como a principal força atrás da Juventus, enquanto Edinson Cavani terminou como artilheiro isolado da Serie A, com 29 gols, antes de ser negociado com o Paris Saint-Germain.
O ciclo seguinte iniciou uma nova fase do Napoli sob o comando do espanhol Rafael Benítez. Para manter o clube competitivo na Serie A e na Champions League, a diretoria promoveu uma reformulação no elenco. Gonzalo Higuaín chegou para substituir Edinson Cavani, enquanto José Callejón, Raúl Albiol, Dries Mertens, Pepe Reina e Jorginho reforçaram a equipe. Ao mesmo tempo, Lorenzo Insigne, revelado pelas categorias de base, passou a ganhar protagonismo e iniciou sua trajetória como um dos símbolos da nova geração napolitana.
Na Liga dos Campeões, porém, o destino voltou a ser cruel com os italianos. Inserido em outro grupo de altíssimo nível, ao lado de Arsenal, Borussia Dortmund e Olympique de Marseille, o Napoli somou 12 pontos, mas acabou eliminado pelos critérios de desempate e tornou-se o primeiro clube da história da competição a cair ainda na fase de grupos com essa pontuação. Ao menos no cenário nacional, a equipe voltou a sorrir: ao derrotar a Fiorentina por 3 a 1 na decisão, conquistou sua quinta Copa da Itália.

Marek Hamsik se tornou o elo entre as gerações de Cavani e Lavezzi e a de Insigne e Mertens; para muitos torcedores, o eslovaco é o maior ídolo da história do Napoli depois de Maradona [Imagem: Reprodução/X/@sscnapoli]
Sarrismo, campanhas históricas e sabores amargos
A passagem de Rafael Benítez chegou ao fim na temporada 2014/15. Com exceção da conquista da Supercopa da Itália sobre a Juventus, o treinador espanhol encerrou seu ciclo após uma campanha marcada pela irregularidade. As eliminações nas semifinais da Liga Europa e da Copa da Itália, somadas à derrota para a Lazio na última rodada da Serie A, que custou a classificação para a Champions League, pesaram para sua saída. A temporada também ficou marcada pela chegada do zagueiro Kalidou Koulibaly, que, nos anos seguintes, se consolidaria como um dos maiores ídolos da história recente do Napoli.
A busca por um novo comandante terminou com a contratação de Maurizio Sarri, técnico que havia se destacado por trabalhos em clubes modestos do futebol italiano. Recebido com desconfiança por parte da torcida — e até mesmo por Diego Maradona —, o treinador assumiu um Napoli disposto a desafiar a hegemonia da Juventus na Serie A. A resposta em campo foi imediata: com um futebol ofensivo e envolvente, os napolitanos encerraram o primeiro turno na liderança do campeonato.
O sonho do Scudetto, porém, acabou frustrado na reta final. Embalada por uma longa sequência de vitórias, a Juventus retomou a ponta e manteve sua supremacia no futebol italiano, o que adiou mais uma vez o primeiro título nacional do Napoli desde a Era Maradona. Mesmo com o vice-campeonato, Insigne, Jorginho e Koulibaly consolidaram ainda mais suas posições como destaques do clube junto de Hamsik, e Gonzalo Higuaín quebrou um recorde histórico. O argentino marcou 36 gols em 35 partidas e estabeleceu o maior número de bolas na rede em uma única edição da Serie A no formato moderno.
Apesar da grande temporada, Higuaín deixou Nápoles sob forte rejeição da torcida ao acertar sua transferência para a Juventus, que pagou sua multa rescisória. A negociação com a maior rival foi encarada com enorme rejeição e permanece como um dos episódios mais controversos da história recente do clube. “Foi um sentimento de traição muito forte, porque a Juventus ganhou o campeonato em cima do Napoli. Além disso, ele fez exames médicos escondido de todo mundo, em Madri, para não precisar voltar a Nápoles”, explicou Caio Bitencourt sobre a saída do argentino.
Sem Higuaín e diante da grave lesão de Arkadiusz Milik, contratado para substituí-lo, Maurizio Sarri precisou reinventar sua equipe. A solução foi improvisar Dries Mertens, antes ponta-esquerda, como falso nove, mudança que transformou o belga em um dos protagonistas do futebol italiano. O Napoli terminou a temporada com o melhor ataque da Serie A, enquanto Mertens marcou 28 gols e formou um dos principais trios do futebol europeu com Insigne e Callejón. Ainda assim, a equipe encerrou o campeonato na terceira colocação, com 86 pontos — a maior pontuação de um terceiro colocado na história da liga.

Dries Mertens é o maior artilheiro da história do Napoli, com 148 gols; Hamsik, Insigne e Maradona fecham o top 4 [Imagem: Reprodução/Instagram/@driesmertens]
A temporada 2017/18 ficou marcada como o momento mais doloroso da era Maurizio Sarri. Com a decisão de priorizar o Campeonato Italiano em detrimento da Champions League e da Copa da Itália, o Napoli iniciou a campanha determinado a encerrar o jejum de títulos nacionais. Assim como dois anos antes, os Partenopei terminaram o primeiro turno na liderança, mas voltaram a ver a Juventus disparar na reta decisiva da competição.
Na 34ª rodada, o Napoli venceu a Juventus em Turim por 1 a 0, com um gol de cabeça de Kalidou Koulibaly, e reduziu a diferença para apenas um ponto, reacendendo o sonho do Scudetto com três partidas restantes. A esperança, porém, durou pouco. Na rodada seguinte, a Juventus buscou uma virada heroica sobre a Internazionale nos minutos finais. No dia seguinte, bastava ao Napoli vencer a Fiorentina para seguir vivo na disputa, mas a expulsão de Koulibaly logo aos sete minutos abriu caminho para um hat-trick de Giovanni Simeone e uma derrota por 3 a 0 que praticamente encerrou a corrida pelo título. “Existe a ideia de que, em 2018, o Sarri disse que o Napoli perdeu o título no hotel, porque a equipe chegou desmotivada para a partida contra a Fiorentina”, relatou Caio Bitencourt.
“Foi um pecado, esse foi um time que poderia em outro momento ter sido campeão com muita tranquilidade”
Leo Bertozzi
A Juventus confirmou o título na rodada seguinte, enquanto o Napoli encerrou a Serie A com 91 pontos, a maior pontuação de um vice-campeão na história da competição. O vice para a maior rival e o desgaste na relação com o presidente Aurelio De Laurentiis colocaram um ponto final na passagem de Maurizio Sarri. Apesar de não conquistar o tão sonhado Scudetto, o treinador deixou como legado uma das equipes mais marcantes da história recente do clube e um estilo de jogo que encantou a Europa. Para iniciar um novo ciclo, a diretoria apostou em um dos técnicos mais vitoriosos do futebol mundial: Carlo Ancelotti.
Ponte entre gerações
Os anos seguintes mantiveram o Napoli consolidado entre as principais forças da Serie A, mas o envelhecimento do elenco começava a indicar a necessidade de uma renovação. Em sua primeira temporada, Carlo Ancelotti manteve a equipe como a principal perseguidora da Juventus na briga pelo título, embora o desfecho tenha sido mais um vice-campeonato para os napolitanos.
Em campo, Arkadiusz Milik finalmente conseguiu uma temporada de destaque sem ser prejudicado por lesões, enquanto Fabián Ruiz assumiu o protagonismo no meio-campo. O ciclo também ficou marcado pela despedida de Marek Hamsik, que deixou o clube como o jogador com mais partidas disputadas e, à época, o maior artilheiro da história do Napoli.
“Para mim, o Hamšík é o maior jogador humano da história da Società Sportiva Calcio Napoli, considerando que Maradona é de outro mundo”
Caio Bitencourt
A temporada 2019/20 representou um dos períodos mais turbulentos do Napoli desde o retorno à Serie A. Após uma sequência de maus resultados e um empate com o Red Bull Salzburg pela Champions League, o presidente Aurelio De Laurentiis determinou que o elenco entrasse em um período de concentração obrigatória. Os jogadores, porém, recusaram a ordem e protagonizaram um motim que aprofundou a crise interna. Em resposta, a diretoria ameaçou aplicar multas e abrir processos contra parte do elenco. Em meio ao ambiente conturbado e ao desempenho abaixo das expectativas na Serie A, Carlo Ancelotti acabou demitido em dezembro de 2019.
Para seu lugar, o Napoli apostou em Gennaro Gattuso, que iniciou um processo de reconstrução da equipe. A reação, entretanto, foi interrompida pela pandemia de COVID-19, que paralisou o futebol por vários meses. Com o retorno das competições, disputadas sem a presença de público, os napolitanos encontraram um motivo para celebrar. Em junho de 2020, o clube derrotou a Juventus nos pênaltis e conquistou sua sexta Copa da Itália. Na campanha, outro marco histórico foi alcançado: na semifinal contra a Inter de Milão, Dries Mertens marcou o gol que o transformou no maior artilheiro da história do Napoli e consolidou de vez seu lugar entre os maiores ídolos dos Partenopei.
O fim de 2020 trouxe uma das notícias mais dolorosas da história do clube, que comoveu não apenas os napolitanos, mas todo o mundo do futebol. Diego Armando Maradona, maior ídolo do Napoli e eterno camisa dez, faleceu aos 60 anos. Como homenagem, o tradicional Estádio San Paolo passou a se chamar Estádio Diego Armando Maradona, símbolo da ligação eterna entre o argentino e a cidade de Nápoles.
A principal contratação do período foi Victor Osimhen, adquirido junto ao Lille por 70 milhões de euros, a compra mais cara da história do clube até então. O Napoli chegou à última rodada da Serie A dependendo apenas de uma vitória sobre o Hellas Verona para voltar à Champions League. Porém, diante de um Estádio Diego Armando Maradona vazio por causa das restrições sanitárias, os napolitanos ficaram no empate, enquanto a Juventus venceu seu compromisso e tomou a vaga. O resultado encerrou a passagem de Gennaro Gattuso, demitido minutos após o apito final.
A escolha do novo treinador para a temporada 2021/22 passou por dois cenários distintos, como relembra Caio Bitencourt. “Naquele contexto, existia uma situação curiosa: se o Napoli fosse para a Champions, estava tudo acertado com o Allegri. Caso contrário, a primeira opção seria o Spalletti. Foi o que aconteceu, e o Spalletti assumiu”.
Sob o comando de Luciano Spalletti, o Napoli voltou a disputar o Scudetto. Apesar de perder força na reta final por causa das lesões e terminar a Serie A na terceira colocação, o clube garantiu o retorno à Champions League após dois anos de ausência. A temporada também marcou o fim de um ciclo: Lorenzo Insigne, Dries Mertens e Kalidou Koulibaly deixaram o clube, encerrando uma safra de jogadores muito identificados com a torcida. A partir daquele momento, Victor Osimhen assumiria o posto de principal referência técnica de um Napoli que iniciava uma nova geração.

Osimhen venceu o prêmio de melhor jogador sub-23 da Serie A em 2021/22; o centroavante passou a utilizar sua icônica máscara após uma fratura facial sofrida em jogo contra a Inter [Imagem: Reprodução/X/@sscnapoli]
Scudetto, crise e Scudetto
A temporada 2022/23 marcou o auge da reconstrução napolitana e a campanha mais vitoriosa do clube desde a Era Maradona. Sob o comando de Luciano Spalletti, o Napoli encantou o futebol europeu com um estilo de jogo ofensivo e dominante que, para muitos torcedores, remetia aos melhores momentos do sarrismo. A superioridade foi refletida na tabela: com cinco rodadas de antecedência, os Partenopei conquistaram o Scudetto após 33 anos de espera, encerraram o campeonato com 90 pontos e levaram milhões de torcedores às ruas de Nápoles em uma das maiores celebrações recentes do futebol mundial.
Grande parte desse sucesso passou por um elenco rejuvenescido. Victor Osimhen terminou como artilheiro da Serie A, com 26 gols, e se tornou o primeiro africano a alcançar a artilharia do torneio. Kim Min-jae, contratado para substituir Kalidou Koulibaly, foi eleito o melhor defensor do campeonato, enquanto Khvicha Kvaratskhelia, que chegou como uma aposta para ocupar a lacuna deixada por Lorenzo Insigne, rapidamente conquistou a torcida. Apelidado de “Kvaradona”, o georgiano encerrou sua temporada de estreia com o prêmio de melhor jogador da Serie A.
Torcedor do Napoli, Caio Bitencourt relembra a campanha que culminou na conquista do tão esperado Scudetto: “O Kvaratskhelia simplesmente assumiu o lugar que era do Raspadori e começou a marcar gols. Entrou como titular em um nível absoluto desde as primeiras rodadas e formou uma dupla excelente com o Osimhen […]. O time começou a encaixar”.
“Em janeiro, o Napoli começou a disparar. […] Quando a vantagem chegou a dez, 12, 15 pontos, eu tive quase a certeza de que seríamos campeões. O momento em que mais me emocionei foi quando vencemos a Juventus em Turim por 1 a 0, com o gol do Raspadori nos minutos finais. Ali eu pensei: ‘É agora. Vai acontecer’. […] Depois de alguns jogos, veio a sensação de que finalmente tínhamos chegado à terra prometida”, completa.
“A festa que todo mundo estava preparando durou praticamente um mês inteiro. Havia festa em todos os jogos e por qualquer motivo”
Caio Bitencourt
Na Champions League, o Napoli também viveu uma campanha histórica. O clube alcançou pela primeira vez as quartas de final da competição, mas acabou eliminado pelo Milan. No auge do sucesso, Luciano Spalletti anunciou que deixaria o comando da equipe logo após devolver o Scudetto a Nápoles, para tirar um ano sabático.

O apelido “Kvaradona” nasceu como uma homenagem da torcida napolitana ao maior ídolo da história do clube; além da referência a Maradona, o georgiano passou a ser comparado ao argentino pelo estilo de jogo marcado pelos dribles curtos, criatividade e capacidade de decidir partidas [Imagem: Reprodução/X/@sscnapoli]
Se a conquista do título nacional representou a realização de um sonho para a torcida napolitana, a temporada seguinte simbolizou o extremo oposto. Em 2023/24, o Napoli protagonizou uma das maiores quedas de rendimento da história recente do futebol italiano. Atual campeão nacional, o clube terminou a Serie A apenas na décima colocação, ficou fora das competições europeias pela primeira vez em 14 anos e registrou a pior campanha de um defensor do título italiano na era dos três pontos.
A instabilidade foi refletida também fora de campo. O Napoli passou por três treinadores em uma única temporada — Rudi Garcia, Walter Mazzarri, que retornou ao clube após uma década, e Francesco Calzona — sem conseguir reencontrar o futebol que encantou a Europa meses antes. A equipe também decepcionou ao cair cedo na Copa Itália e na Champions League. Como se não bastassem os problemas esportivos, a saída de Kim Min-jae para o Bayern de Munique e os desgastes públicos entre Victor Osimhen e a diretoria, motivados por uma polêmica nas redes sociais e pela difícil negociação de renovação contratual, ampliaram o clima de crise em Nápoles.
A missão de recolocar o Napoli no caminho das vitórias ficou nas mãos de Antonio Conte. Conhecido por sua disciplina e capacidade de transformar equipes em pouco tempo, o treinador comandou uma reconstrução muito mais rápida do que se imaginava. A saída de Osimhen, negociado com o Galatasaray no início da temporada, parecia representar um duro golpe, mas as chegadas de Romelu Lukaku, Scott McTominay e David Neres rapidamente compensaram a perda. Em janeiro, outro adeus marcante aconteceu com a transferência de Kvaratskhelia para o Paris Saint-Germain.
Sem compromissos nas competições europeias, o Napoli concentrou todas as atenções na Serie A e travou uma disputa acirrada pelo Scudetto com a Internazionale durante toda a temporada. A consagração veio apenas na última rodada: no dia 23 de maio, a vitória por 2 a 0 sobre o Cagliari garantiu o quarto título italiano da história do clube, apenas um ponto à frente da Inter. Um dos grandes símbolos da campanha foi Scott McTominay, que, após anos de questionamentos no Manchester United, se reinventou em Nápoles e terminou a temporada eleito o melhor jogador do Campeonato Italiano de 2024/25.

Com a conquista do Scudetto, Antonio Conte tornou-se o primeiro treinador da era moderna da Serie A a ser campeão italiano por três clubes diferentes: Juventus, Internazionale e Napoli [Imagem: Reprodução/X/@sscnapoli]
O legado do clube
Ao longo de seus 100 anos de história, o Napoli construiu um legado que vai muito além dos títulos. O clube tornou-se um símbolo de resistência de uma região historicamente marginalizada e transformou o futebol em uma expressão do orgulho de pertencer ao sul da Itália. Em diferentes épocas, desafiou o poder econômico e esportivo do norte do país e mostrou que também havia espaço para um protagonista nascido longe dos grandes centros italianos.
Mais do que vencer, o Napoli consolidou “um jeito diferente de viver o futebol”, como define Caio Bitencourt, trata-se de uma maneira mais visceral e apaixonada, capaz de amar e sofrer na mesma intensidade. Essa identidade ultrapassou as fronteiras de Nápoles e foi incorporada por torcedores espalhados pelo mundo, tornando o clube uma das maiores representações da cultura napolitana e, ao mesmo tempo, um ponto de encontro entre diferentes povos. Não por acaso, brasileiros, argentinos, uruguaios e jogadores de tantas outras nacionalidades ajudaram a construir capítulos importantes dessa história.
Grande parte dessa trajetória foi escrita por Diego Armando Maradona, maior ídolo da história do clube e personagem central de sua ascensão ao cenário mundial. Nas últimas décadas, porém, o Napoli mostrou que era capaz de honrar esse legado sem depender exclusivamente dele.
Ao reconstruir sua identidade e voltar a dominar o futebol italiano, o time provou que as lembranças do eterno D10S servem como inspiração para um clube que aprendeu a caminhar com as próprias pernas. De Omar Sívori, Ruud Krol, Careca e Alemão a Marek Hamsík, Dries Mertens, Khvicha Kvaratskhelia, Victor Osimhen e Scott McTominay, diferentes gerações ajudaram a consolidar um futebol competitivo, ofensivo e admirado dentro e fora da Itália.
Ao completar o centenário, o Napoli deixa como maior herança a prova de que um clube pode representar muito mais do que resultados. Sua história mostra que o futebol também pode ser identidade, pertencimento e resistência. Em uma cidade acostumada a desafiar estigmas, o Napoli transformou a paixão de seu povo em sua maior força e fez dela um legado que continuará atravessando gerações.
“O legado do Napoli é o do futebol como pura paixão. É um exemplo muito bonito para o mundo do futebol”
Leo Bertozzi
Imagem da capa: Reprodução/Instagram/@officialsscnapoli
