por Ana Carolina Mattos (a.carolinamattosn@usp.br)
O poema “O Vampiro”, Der Vampir no alemão, de Heinrich August Ossenfelder, datado de 1748, é o primeiro registro conhecido na literatura europeia do que atualmente se entende como um vampiro. No poema, o ser é apresentado como uma criatura sedutora e poderosa que se aproxima para corromper uma boa jovem cristã, um ser que se opõe aos bons valores e a seduz com a morte e a corrupção da alma.
Séculos depois, a imagem de ser poderoso e sedutor de um vampiro se instaurou também no cinema, anexada às diferentes metáforas que, ao longo do tempo, passaram a ser aplicadas à ideia abstrata e perturbadora de um morto vivo sugador de sangue. A questão é que os vampiros estabelecidos pelo cinema se inspiram em vampiros da literatura, que por suas vez, se baseiam em interpretações mais pomposas de relatos históricos, lendas e folclores de diferentes partes do mundo, mas principalmente, da Europa Oriental.
“Te sorver à formosa
Face a púrpura fresca.
Tu te assombrarás logo,
Quando for eu beijar-te,
Qual vampiro a beijar-te,
Então, quando tremeres
E mortiça em meus braços
Decaíres qual defunta,
Quererei perguntar-te:
Mi’as lições são melhores
Que a da boa mãe tua?”
Trecho final do poema Der Vampir, traduzido por Erick Ramalho
O mito
Ao longo da humanidade, diversas crenças e relatos sobre as mais diferentes situações e criaturas foram registrados, seja no âmbito religioso, com a ideia de espíritos e demônios, ou com ideias que flertam com a biologia de maneira mais palpável, como mastigadores ou vampiros. Na monografia Considerações Sobre a Figura do Vampiro e o Sobrenatural no Século 18 a partir da Obra de Dom Calmet (1672-1757) (2015), apresentada na Universidade Federal do Paraná pelo historiador e pesquisador na área de história moderna, Gabriel Braga, destaca os escritos do historiador Koen Vermeir, especialista em história da imaginação no período moderno.
Vermeir é autor de artigos que discutem vampiros e, em um deles, aborda a descoberta de restos de uma jovem enterrada em 1576, no norte da Itália, em Lazzaretto Nuovo, região assolada pela peste bubônica à época. A jovem foi entendida como uma vampira por um simples fato, uma pedra em sua boca, provavelmente com intuito de impedir o que chamavam de mastigação.
Ocorre que à época, o mais próximo do que atualmente é classificado como vampiro não eram criaturas que sugam o sangue, mas sim seres que mastigavam as próximas roupas, a mortalha em que foram enterrados e até seus próprios membros. Acreditava-se também que esses seres mastigadores causavam a morte de parentes próximos por isso a pedra, na tentativa de impedir o ato e evitar mais mortes.
Para professor especialista em estudos germânicos, Claude Lecouteux, em seu trabalho Fantômes et Revenants au Moyen Âge, Fantasmas e Aparições na Idade Média em tradução livre para o português, que a figura do vampiro não surgiu aleatóriamente durante o século 17, mas é uma junção de lendas e histórias conhecidas desde a antiguidade, que culminaram no vampiro, um morto-vivo.

transformar um homem
Imagem:[Reprodução/Wikimedia Commons]
Relatos
O primeiro relato conhecido sobre vampiros data de 1659 em uma carta endereçada à rainha da Polônia a época, Marie-Louise Gonzague. No documento, o então secretário real, Pierre Des Noyers, escreve sobre rumores de cadáveres que mastigam suas roupas e partes do corpo, eventos que seguiam da morte da família do cadáver mastigador. Segundo as lendas, crianças que nasciam com dentes estavam destinadas a se tornarem mastigadores ao falecerem e a causar a morte de pessoas próximas. De acordo com as lendas, a única forma de evitar o trágico destino era decapitar o cadáver do mastigador.
O local essencial para a construção do mito vampírico é o Leste Europeu, e principalmente, a região que atualmente diz respeito à Sérvia. Apesar de relatos sobre mastigadores já serem conhecidos em outras regiões da Europa, foi a partir dos casos de Peter Plogojowitz e Arnod Paole que a ideia de morto-vivo ganhou maior destaque.
O caso de Peter Plogojowitz data de 1725, em uma pequena vila na região da Sérvia. Após cerca de dez semanas da morte de Plogojowitz, nove pessoas morreram vítimas de uma doença misteriosa que parecia agir em apenas 24 horas. A questão é que todas as pessoas falecidas afirmaram terem visto Peter Plogojowitz, que se deitou em suas camas e tentou estrangulá-las. Alguns relatam que o camponês foi até sua antiga casa e pediu a sua esposa que lhe entregasse um sapato, e que também teria visitado seu filho pedindo por comida, mas quando teve seu pedido negado, o matou.
Em desespero, a população pediu auxílio do provedor imperial e autorização para o papa local para que o corpo de Plogojowitz fosse exumado. Com a permissão concedida, o cadáver foi decapitado, como forma de impedir que as mortes continuassem. De acordo com o relato do provedor, Peter foi de fato considerado um vampiro, principalmente pelo estado de seus cabelos e unhas, que haviam crescido após sua morte. O corpo de Plogojowitz estava em estado conservado e uma “nova pele” se desenvolvia sobre o cadáver, além da presença de sangue na boca do defunto, todas características consideradas como vampíricas.
Outro famoso relato é o caso de Arnod Paole, de 1732. Paole era um soldado sérvio que disse que havia sido perseguido por um vampiro durante uma viagem. A história diz que o soldado comeu a terra do túmulo do tal vampiro para tentar se proteger. Tempo depois, Paole quebrou o pescoço em uma queda e faleceu.
Cerca de um mês após sua morte, habitantes da vila em que moravam relataram terem sofrido ataques noturnos, com quatro deles vindo á óbito pouco depois Para os habitantes, o responsável pelas mortes era Arnod Paole. O cadáver do soldado foi então exumado e, aparentemente, se encontrava sem sinais de decomposição, com aparência semelhante aos descrito no relato de Peter Plogojowitz.
O corpo de Paole foi perfurado por uma estaca de madeira e em seguida, queimado. Os ataques continuaram mesmo após a “segunda morte” do soldado. Os falecimentos seguintes foram atribuídos às quatro vítimas fatais dos ataques noturnos, que também foram exumadas, decapitadas e incineradas.
As representações vampíricas
Nosferatu, o Vampiro (Nosferatu, 1922), é talvez o mais antigo e famoso filme vampírico de todos. Fruto de uma época de grande desenvolvimento para o cinema alemão e fortemente baseado no livro Drácula (Companhia das Letras, 2014), de Bram Stocker, o longa acompanha um corretor de imóveis que busca vender uma propriedade em Londres para o misterioso Conde Orlock (Max Schreck), que carrega uma estranha conexão com a esposa do corretor, Ellen (Greta Schröder).
Aqui, o Conde é um vampiro que, para além do básico de morto vivo sugador de sangue, assume caráter extremamente poderoso. Orlok não é apenas um ser imortal, é um ser onipresente capaz de manipular e controlar pessoas. Sua simples presença é suficiente para atrair doenças, medo e desgraça.

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Em entrevista ao Cinéfilos, o autor do livro Vampiros na França Moderna: a polêmica sobre os mortos-vivos (1659-1751) (Appris Editora, 2020), e um dos apresentadores do podcast de horror República do Medo, Gabriel Braga, aborda a polêmica quanto a representação de Nosferatu no contexto social e político da Europa à época: “É possível meio antissemita, a própria maquiagem ressoa as caricaturas antissemitas da época e claro, o perigo de quem vem de fora”.
“Quem causa o problema é aquele que vem de longe, ele não quer somente corromper e sugar o sangue de todas as belas donzelas, no caso do Nosferatu, ele traz a peste junto. Além da decadência moral, traz pragas, doenças e morte.”
-Gabriel Braga, Doutor em história
Nas obras baseadas no livro de Stoker, o vampiro deixa seu castelo isolado e se dirige para centros urbanos em busca de sua amada e com ele, leva ratos e desgraça. Na mais recente versão de Nosferatu (2024), dirigida por Robert Eggers, conforme a criatura se aproxima, doenças e dificuldades passam a assolar a cidade, com pessoas perecendo de tuberculose, peste e ataques de Orlok (Bill Skarsgård), além da insanidade mental e desgaste psicológico que se instala não só na cidade, mas na própria Ellen (Lily Rose-Depp), seu marido (Nicholas Hoult) e aqueles que tentam ajudá-los.

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Poucos anos depois de Nosferatu, a produção hollywoodiana que integra os famosos Monstros da Universal, Drácula (1931), foi lançada e, com ela, se estabeleceu a mais famosa interpretação de um vampiro no cinema. Interpretado por Bela Lugosi, o conde assume um caráter sedutor e irresistível, não só poderoso e onipresente, como conde Orlock, mas também sádico.
Apesar de sua estranheza e comportamentos incomuns perceptíveis a qualquer um, o Conde de Lugosi se disfarça como alguém minimamente humano, um ser que apesar de bizarro, misterioso e provocativo, se passa por semelhante, menos monstruoso que a representação vampírica de Conde Orlok anos antes.

interpretou Drácula e com isso, os fonemas do inglês ainda em desenvolvimento de Lugosi se tornaram marca
registrada do Drácula da Universal Studios
Imagem: [Reprodução/IMDb]
Para o pesquisador Gabriel Braga, os vampiros dos filmes das décadas de 1960 e 1970 eram mais voltados para uma questão interna ligada ao Movimento dos Direitos Civis. “Para uma heterosexualidade masculina branca, isso era um objeto de medo, tinham a ideia de que perderiam essas sensação de proeminência”, diz o autor. “Em Drácula no Mundo da Minissaia (Drácula A.D. 1972, 1972), por exemplo, temos um Drácula recusitado na Londres dos anos 1970 numa juventude depravada que só se interessa por sexo e rituais satânicos”, acrescenta.

Imagem: [Reprodução/IMDb]
Em 1980, a figura do vampiro volta a mudar. Com um público consumidor jovem muito bem consolidado no cinema, vampiros mais jovens e de certa forma, descolados, começam a aparecer no cinema e, entre eles, o famoso Garotos Perdidos (The Lost Boys, 1987). O clássico da década de 1980 foi um dos filmes responsáveis pela mudança de paradigma na figura vampiresca, inspirando muitas outras obras sobre jovens vampiros no futuro, como Buffy: A caça vampiros (Buffy, The vampire slayer, 1997-2003), considerada uma das melhores séries de todos os tempos e definidora não só no âmbito de séries adolescentes mas também na representação de vampiros na mídia.

criador da série, Joss Whedon
Imagem: [Reprodução/TMDB]
A trama de Garotos Perdidos acompanha dois irmãos que se mudam com sua mãe recém divorciada para Santa Carla, em uma tentativa de recomeçar. Mas, rapidamente se envolvem com sugadores de sangue e precisam agir para proteger sua família e reparar o mal que assola a cidade.
“Se o filme é focado em adolescentes, o vampiro vai ser o mais velho”, explica o historiador. “Em Garotos Perdidos, são adolescentes que se reúnem para lutar contra os vampiros, o perigo não é mais aquele que vem de fora, mas o vampiro aqui tende a representar o mais velho, uma sociedade que já passou e ainda tenta se estabelecer”, completa. No filme, o jovem e rebelde grupo de vampiros é conduzido pela figura de um “vampiro-chefe”, um líder do clã que é um ser mais velho e experiente que, de certa forma, acolhe e comanda os vampiros mais jovens.

em Os Garotos Perdidos
Imagem: [Reprodução/TMDB]
No filme, os vampiros mantêm a natureza sedutora e atraente estabelecida pelo cinema anteriormente, com o diferencial de tentar recrutar membros para o clã vampírico. “O vampiro compartilha seu sangue ou fluidos corporais e vai contaminando outras pessoas da região, controlando elas ou até controlar uma cidade inteira”, aponta o Doutor.
Em Pecadores (Sinners, 2025), por exemplo, os irmãos Smoke e Stack (Michael B. Jordan) são assolados por um vampiro (Jack O’Connell) na noite de inauguração de seu bar na Mississipi de 1932. Aos poucos, o vampiro se aproxima do bar e vai, um a um, infectando o máximo de pessoas possível, recrutando seguidores vampíricos que são submissos a ele, suas dores e aspirações.
Coisa semelhante aparece em Missa da Meia-Noite (Midnight Mass, 2021), quando a população de uma pequena ilha se vê cada vez mais envolvida em uma estranha relação com o recém chegado padre, Paul (Hamish Linklater) que, aos poucos reúne, um grupo de fiéis que acreditam, e até vivenciam, cenas que consideram milagres performados na pequena Igreja da ilha.

a pandemia da Covid-19
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O Vampiro torturado
Em 1973, a norte-americana Anne Rice escreveu o livro Entrevista com o Vampiro (Rocco, 1986) e revolucionou a forma como vampiros eram representados na literatura e no cinema. O livro se passa na década de 1970 e acompanha os depoimentos do vampiro Louis de Pointe Du Lac a um jovem jornalista,
Transformado em 1791, Louis revela ao homem suas experiências ao longo de quase dois séculos como um vampiro torturado, que segue sua existência repleta de arrependimentos e apresenta o lado pútrido da imortalidade, algo que o protagonista se refere como a prisão de seu corpo.
Apesar de um olhar mais melancólico para os sugadores de sangue, os vampiros da literatura de Rice são semelhantes aos descritos pelo folclore do leste europeu. Na segunda parte do livro, Louis viaja com a jovem vampira Claudia para a Europa Ocidental e lá, encontra figuras que Claudia se refere mais tarde como “nossos irmãos ocidentais”.
No livro, Claudia carrega uma série de informações sobre o assunto e entre eles, uma descrição sobre a forma como humanos lidam com a ameaça vampírica, não apenas queimando seus corpos, mas também seguem com o procedimento clássico da estaca no coração seguida de decapitação.
Ao alcançarem o destino durante a viagem, Louis e Claudia se deparam com uma população muito mais ligada aos folclores e temerosa quanto ao vampirismo. Os habitantes carregam crucifixos e expõem alhos em guirlandas na esperança de afastar os vampiros, além da profanação de túmulos para exterminar as ameaças vampirescas e impedir que se espalhem.
Na viagem, se deparam com uma cidade que parece assolada por mortes provocadas por uma besta desconhecida. Entre os mortos, está uma jovem chamada Emily, que apesar de morta, ainda tinha bochechas rosadas e parecia respirar. Louis e Claudia então, decidem procurar a criatura responsável por tais ataques que, a tal altura, já imaginam se tratar de algum tipo de morto-vivo sugador de sangue.
Ao encontrá-la, percebem que apesar de semelhante a deles, com grandes dentes caninos e uma sede por sangue humano, a criatura usa roupas que, de tão antigas, se despedaçam sozinhas, não fala e não passa de uma carne pútrida. É tão diferente deles que Louis se refere ao vampiro como “a coisa” e, para o jornalista que o entrevista, diz: “tínhamos encontrado o vampiro europeu, a criatura do velho mundo”.
“Lendo, parece muito que a Anne Rice conhecia relatos históricos de vampiros, que tinha algum conhecimento desses mitos”, relata o historiador. “Ela faz aquele vampiro mitológico em contraposição aos poemas da literatura, como o Louis, que são falantes e sedutores. Esse vampiro folclórico é quase um zumbi, mais animalesco”.

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Na década de 1990, o livro foi adaptado para os cinemas e contou com astros do cinema nos papéis principais, Tom Cruise como o Vampiro Lestat e Brad Pitt interpretando o melancólico Louis. O filme foi um sucesso de bilheteria e crítica, se destacando por uma nova forma de se retratar vampiros no cinema; de criaturas imortais e sedutoras, utilizadas como metáfora para representar o passado, os seres passaram a ser uma metáfora recorrente para sentimentos, perda e solidão, além da sexualidade que, nas obras de Anne Rice, estão sempre muito presentes.
“O vampiro pode não ser a podridão do cadáver, mas é uma podridão moral. Tirar uma pessoa do caminho da moral e cair em um mundo de perdição e sexualidade, aquilo que se tenta enterrar mas em algum momento volta, independente do que se faça”
– Gabriel Braga
A série de Entrevista com o Vampiro (Interview with the Vampire, 2022-), da AMC, levou essa ideia como um dos seus principais norteadores de maneira bem explícita, com a emblemática cena de transformação de Louis (Jacob Anderson) por Lestat (Sam Reid), seu criador, se passando em uma Igreja. Na produção, muito do processo da transformação de Louis, envolve aceitar e se render aos sentimentos mistos que nutre por Lestat, explicitando uma relação que no filme parece se esconder em entrelinhas óbvias.
Seja na série, no livro ou no filme, a relação do protagonista Louis com a religião sempre está presente e é uma das características definidoras de seu personagem. O protagonista é e sempre será um pecador e, por mais que se culpe por isso, sua condição de morto-vivo o condena a viver com a culpa e vergonha pelo resto da eternidade, evocando o vicioso e doloroso ciclo que é a imortalidade na crônicas vampirescas de Anne Rice.

Imagem: [Reprodução/IMDb]
