Por Hellen Rodrigues (helliv7@usp.br) argentina
Carinhosamente apelidado de Scaloneta pelos torcedores, a equipe alviceleste construiu um histórico de recente vitória na competição ao levantar a taça em 2022. Na disputa que se inicia, mais do que ganhar o tão disputado título, a Seleção Argentina busca manter sua hegemonia atual.
A história Argentina na Copa do Mundo começou em 1930, quando disputou pela primeira vez o título mundial e acabou por perder a final contra o rioplatense, atual Uruguai, por 4 a 2.
Além de marcante, a passagem argentina também é lembrada pelos posicionamentos. Assim como outros países da América, o time alviceleste promoveu um boicote ao torneio de 1938 em retaliação ao eurocentrismo do presidente da FIFA, que remanejou a sede daquela edição para favorecer seu país natal, a França.
Além disso, a Argentina também recusou-se a participar na edição de 1950, primeira após o fim da Segunda Guerra Mundial, pois havia enfrentado problemas com a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) alguns anos antes e não aceitou mandar sua delegação para o Brasil. Paralelamente, o futebol argentino estava passando por um colapso interno devido a falta de pagamento dos atletas, o que motivou o sindicato de jogadores de futebol a organizar uma greve geral e se ausentar da competição.
Devido a essas razões, a seleção alviceleste passou 24 anos sem participar da competição e só retornou aos palcos mundiais em 1958. Iludida pela hegemonia regional que adquiriu após conquistar quatro Copas América na década de 40, o time argentino viu sua equipe ser deixada para trás por outras seleções no confronto mundial: a Itália já era bicampeã na época, o Uruguai tinha sido campeão em 1950 e a Alemanha iniciava sua trajetória vitoriosa em 1954. A confirmação do prejuízo se concretizou ainda mais quando a seleção alviceleste foi eliminada ainda na primeira fase em sua Copa de retorno.

A seleção argentina é a maior campeã da Copa América, com 16 títulos [Imagem: Reprodução/Pexels]
Tal dano só foi superado quase duas décadas depois, quando o país finalmente conquistou seu primeiro título mundial em 1978. A vitória em casa marcou o início da revolução do futebol argentino.
A segunda estrela não demorou para chegar: foi em 1986, sob a liderança de Maradona, que a equipe celeste se tornou bicampeã do torneio. Após essa atuação, a Seleção Argentina colecionou apenas vice-campeonatos. Em 1990, ficou em segundo lugar depois de perder por 1 a 0 para a Itália e, mais recentemente, foi derrotada pela Alemanha na final da Copa de 2014 por 1 a 0, com gol marcado na prorrogação.
Em 2018, o desempenho argentino foi abaixo do esperado. Com uma campanha difícil desde a fase de grupos, a equipe celeste foi superada pela França nas oitavas por um placar de 4 a 3.
Após atuação esquecível, o time passou por uma reformulação técnica. O treinador vigente da época, Jorge Sampaoli, deixou o comando da equipe e Lionel Scaloni, membro de sua comissão técnica, assumiu o comando como treinador interino. A Associação de Futebol Argentino (AFA) vivia uma crise interna e, por falta de opção, Scaloni foi efetivado.

Scaloni era o técnico mais novo durante a Copa do Mundo de 2022, com apenas 44 anos [Imagem: Reprodução/Instagram/@afaseleccion]
Contudo, uma solução que parecia apenas provisória tornou-se permanente. Sob o comando técnico de Scaloni, o time foi campeão da Copa Sul-Americana em 2021 e no ano seguinte, conquistou mais uma vez o tão sonhado título mundial. No Catar, a seleção sul-americana enfrentou placares apertados, como a vitória contra a Austrália por 2 a 1 nas oitavas e a decisão nos pênaltis contra a Holanda nas quartas.
A semifinal foi o momento de maior tranquilidade para os argentinos, visto que superaram sem muitas dificuldades a seleção da Croácia por 3 a 0. Na final, o time alviceleste enfrentou a equipe francesa em uma partida eletrizante que terminou em 3 a 3. A vitória foi decidida nos pênaltis, nos quais consagrou-se a Seleção Argentina.
A atual campeã chega confiante para essa Copa. O time celeste alcançou sua classificação ainda na 14ª rodada das Eliminatórias Sul-Americanas, como líder isolado com nove pontos de vantagem do segundo colocado, o Equador.
O time chega para sua 19ª Copa — a 14ª seguida — e enfrentará a Argélia em seu primeiro jogo em Kansas City, nos Estados Unidos, no dia 16 de junho. A equipe buscará um bicampeonato que não acontece para nenhum país sul-americano desde 1962, quando o Brasil ergueu a taça pela segunda vez consecutiva.
Estilo de jogo da Argentina
Sem DiMaria e com Flaco López, a lista dos 26 relacionados para defender a camisa argentina na Copa do Mundo conta com o alto escalão europeu. Confira os nomes convocados:
Goleiros:
- 23 – Emiliano Martínez (Aston Villa, ENG)
- 1 – Juan Musso (Atlético de Madrid, ESP)
- 12 – Gerónimo Rulli (Olympique de Marselha, FRA)
Defensores:
- 2 – Leonardo Balerdi (Olympique de Marselha, FRA)
- 3 – Nicolás Tagliafico (Lyon, FRA)
- 4 – Gonzalo Montiel (River Plate, ARG)
- 6 – Lisandro Martínez (Manchester United, ENG)
- 13 – Cristian Romero (Tottenham, ENG)
- 19 – Nicolás Otamendi (sem clube)
- 25 – Facundo Medina (Olympique de Marselha, FRA)
- 26 – Nahuel Molina (Atlético de Madrid, ESP)
Meias:
- 5 – Leandro Paredes (Boca Juniors, ARG)
- 7 – Rodrigo De Paul (Inter Miami, EUA)
- 8 – Valentín Barco (Strasbourg, FRA)
- 11 – Giovani Lo Celso (Betis, ESP)
- 14 – Exequiel Palacios (Bayer Leverkusen, ALE)
- 20 – Alexis Mac Allister (Liverpool, ENG)
- 24 – Enzo Fernández (Chelsea, ENG)
Atacantes:
- 9 – Julián Álvarez (Atlético de Madrid, ESP)
- 10 – Lionel Messi (Inter Miami, EUA)
- 15 – Nicolás González (Atlético de Madrid, ESP)
- 16 – Thiago Almada (Atlético de Madrid, ESP)
- 17 – Giuliano Simeone (Atlético de Madrid, ESP)
- 18 – Nico Paz (Como, ITA)
- 21 – Flaco López (Palmeiras, BRA)
- 22 – Lautaro Martínez (Inter de Milão, ITA)

Provável escalação da seleção argentina [Arte: Hellen Rodrigues/buildlineup.com]
O time que chega para disputar a edição de 2026 não sofreu muitas alterações desde 2022.
A Argentina não exerce uma pressão forte na saída de bola adversária e tende a marcar em blocos médios para baixo. No desenho tático padrão de defesa, em 4-4-2, a equipe alviceleste marca apenas com nove jogadores de linha, visto que Messi sempre se mantém mais adiantado na linha intermediária do campo.
Com a bola, o time argentino valoriza a posse e as jogadas trabalhadas desde o goleiro até o ataque, o que comumente força o meio campista a descer suas linhas e trabalhar entre o zagueiro para receber o passe e conduzi-lo.
No ataque, a equipe sul-americana flutua bastante pelo campo e sempre tenta se aproximar entre si para possibilitar os toques rápidos. Vale destacar as infiltrações nas costas do zagueiro que são recorrentes no time argentino, comumente com um meia recebendo e dando um toque mais alongado para o ponta/lateral receber já na grande área.
Na análise técnica, é impossível não citar a influência de Messi no ataque argentino, seja em uma cobrança de falta rápida para pegar os adversários desprevenidos ou na condução da bola desde o meio campo até o gol.
Outro ponto de destaque relacionado ao craque é o dinamismo de formação da equipe. A depender de onde Messi inicia a partida, o esquema tático da Argentina muda. Com Lionel na ponta direita, o padrão é o 4-3-3, mas o esquema altera-se para um 4-2-3-1 quando o jogador atua no centro e ainda pode transformar-se em um 4-4-2 quando ele permanece mais centralizado no ataque.
Por ser um time consideravelmente envelhecido, o elenco principal varia bastante de jogo para jogo. Por isso, os reservas de qualidade são essenciais no controle tático da seleção.
Estrelas da Argentina
Lionel Messi

Messi é o quinto maior artilheiro da seleção [Imagem: Reprodução/Instagram/@leomessi]
Grande nome dessa seleção e uns dos maiores ídolos do futebol argentino, o craque chega para sua sexta e última Copa do Mundo. O atacante é atual capitão da equipe e atua na Major League Soccer (MLS) pelo Inter Miami. O ídolo acumula 13 gols pela seleção — sete só na última Copa — na qual foi eleito melhor jogador do torneio e subsequentemente premiado como melhor jogador da temporada.
Considerado por muitos o melhor jogador da história, Lionel desembarca nas Américas pronto para encantar os torcedores argentinos pela última vez. O bicampeonato seria o adeus perfeito e coroaria ainda mais a trajetória incomparável de um dos maiores gênios da história do futebol.
Lautaro Martínez

O craque já disse em entrevistas que, no seu tempo livre, prefere assistir basquete [Imagem: Reprodução/Instagram/@lautaromartinez]
O camisa 10 e capitão da Inter de Milão, Lautaro Martinez, compõe o segundo grande pilar ofensivo dessa seleção e é um dos nomes mais temidos do futebol mundial.
O craque chega pronto para buscar o bicampeonato em sua segunda Copa do Mundo. Lautaro acumula gols decisivos pela seleção argentina e foi o herói do título da última Copa América, em 2024, com o gol decisivo na prorrogação. Atualmente, Lautaro ostenta uma excelente média de 22 gols e 6 assistências na temporada pelo clube italiano. “El Toro”, como é conhecido, se mostrou chave principal no ataque alviceleste e é um dos grandes nomes da atual campeã.
Alexis Mac Allister

Apesar de ser argentino, a família de Mac Allister tem descendência europeia [Imagem: Reprodução/Instagram/@alemacallister]
O motor do meio-campo dessa seleção é um dos nomes mais talentosos do futebol moderno, e irá disputar sua segunda Copa do Mundo em 2026. No torneio passado, o argentino foi peça fundamental nas construções de jogadas e titular absoluto da seleção. Atualmente, Mac Allister destaca-se pela sua maestria técnica, controle de jogo refinado e gols importantes, tanto no Liverpool quanto na seleção alviceleste.
O meia é versátil e trabalha tanto como armador quanto como defensivo, o que o torna responsável pela roubada de bolas na defesa e a condução de jogadas até a intermediária da área adversária.
O que esperar?
O time argentino possui grandes peças da elite global, conhecidos por sua determinação e resiliência. O time alviceleste está entre as favoritas ao título, embora não seja o primeiro nome na lista.
Contudo, a equipe argentina já mostrou que pode surpreender: na última disputa, a seleção não era uma das mais cotadas à vitória e foi desacreditada devido aos placares apertados de seus jogos, mas no final foi coroada como a grande campeã.
Com um trabalho técnico consistente, o time azul e branco é pautado como o melhor sul-americano da disputa e ponto de observação para todos aqueles que querem levantar a taça.
*Imagem na capa: Reprodução/Instagram/@afaseleccion
