Por Ana Rita Hernandes da Costa (anaritahernandes@usp.br) rua
Com a chegada da Copa do Mundo a cada quatro anos, ruas de diferentes bairros por todo o Brasil se transformam em telas a céu aberto. Moradores se reúnem para pintar o asfalto e dar cor à torcida como maneira de manter viva uma tradição que une arte, futebol e diversão. Para além da decoração, essas pinturas trazem à tona o espírito comunitário e representam a forma como o Mundial também é vivido fora dos estádios.
Uma tradição que atravessa gerações
Não há consenso sobre a data exata de início da prática de pinturas de ruas em anos de Copa do Mundo, mas acredita-se que essa tradição teve seu estopim há 44 anos, em 1982, ano em que o Mundial foi sediado na Espanha. A Rua Santa Isabel do bairro Vila da Prata, localizada na zona oeste de Manaus, é apontada como a primeira via a receber esses murais.
A arte nasceu da espontaneidade de vizinhos que queriam transformar sua rua em um espaço de celebração coletiva, como uma forma de brincadeira entre as crianças e as próprias famílias que viviam ali. Depois de 11 edições de Copa, porém, a tradição das pinturas tornou-se algo essencial que perdura até os dias de hoje.

Em muitos locais, além de realizar a pintura das ruas, os vizinhos se reúnem durante os jogos da Copa para comer comidas típicas, como churrasco e doces [Imagem: Reprodução/Agência Brasil]
Apesar de não haver registros precisos sobre a popularização da tradição pelo país, sabe-se que essa prática se dissolveu por todo o território a partir da Copa de 1990, sediada na Itália, e tornou-se comum também nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Mas foi a partir de 2002, ano da conquista do pentacampeonato, que o costume se perpetuou de vez como algo intrínseco ao espírito de Copa.
Em 2014, a prefeitura da cidade de Manaus decidiu inaugurar um concurso para premiar as 10 melhores pinturas. O “Ruas da Copa”, criado com a intenção de incentivar que novos locais adotassem a iniciativa artística, premiou as ganhadoras por meio da Manauscult com public view — ou seja, transmissão pública dos jogos — além de disponibilizar telão e som para serem utilizados durante a Copa. A comissão julgadora levava em consideração o aspecto social da decoração, criatividade, histórico e dimensão.
A tradição e o concurso continuaram nas edições seguintes. Em 2014 e 2018, a própria Rua Santa Isabel — ponto inicial da prática — foi uma das vencedoras da disputa. Em 2022, ano da Copa do Catar, o concurso ganhou repercussão internacional e a Federação Internacional de Futebol (FIFA) destacou em suas redes sociais o trabalho realizado pela Prefeitura de Manaus em conjunto com a população.
Um símbolo de pertencimento
O futebol no Brasil é reconhecido institucionalmente como uma prática que ultrapassa o campo esportivo e consolida-se como fenômeno cultural presente no cotidiano da população, além de compor um dos principais elementos da identidade nacional. Assim, a dimensão cultural desse esporte não se restringe aos estádios ou às transmissões esportivas; ela se manifesta também nos espaços urbanos, onde a população se apropria das ruas para expressar sua relação com o futebol.
A pintura dessas ruas destaca-se como uma forma de arte urbana e expressão cultural. Além de produzirem imagens, símbolos e cores, moradores também criam uma identidade de comunidade ao utilizar o asfalto como tela para dialogar diretamente com o futebol. Como forma de reconhecer a influência da tradição para a estrutura social, a prefeitura de Manaus passou a reconhecer quatro ruas usualmente ornamentadas como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade a partir de 2022.
Já em Macaíba, no Rio Grande do Norte, Francisco Wellington Pereira dos Santos e sua família se encarregam de dar vida à rua em anos de Copa desde 2010. Em entrevista ao Arquibancada, ele afirma que essa ação tem um importante papel social, uma vez que toda a cidade se mobiliza para interagir com a produção das artes. A atividade reúne autoridades, crianças — que realizam dinâmicas em escolas e creches — e até mesmo universitários.
“A população toda vem para cá, isso aqui lota. Parece que todo mundo quer realmente soltar esse grito de hexacampeão”
Wellington Potiguar
Ao reunir futebol, uso do espaço público e produção artística no cotidiano brasileiro, a pintura de ruas em ano de Copa do Mundo deixa de ser apenas um costume festivo e passa a se afirmar como uma manifestação da cultura popular.
Do esboço ao asfalto: como nascem as ruas pintadas
O processo prático das pinturas não começa no ato de pintar, ele se inicia antes. Os moradores podem se organizar para levantar recursos para a decoração por meio da venda de rifas ou bingos, por exemplo, e cada um deles contribui com um valor que será destinado à compra do material utilizado. Em algumas ruas, as comissões de organização entre vizinhos já estão formadas há anos, uma vez que fazer as pinturas trata-se de uma tradição local. Quando chega o momento de realizá-las, todos já estão dispostos a colaborar.
Durante a execução, toda a comunidade vira mão de obra. Segundo o artista Wellington, além de seu filho, Hyago Philip, e da esposa, alguns moradores da cidade também se mobilizam para ajudar quando a rua começa a ser pintada. Ao longo do processo, até mesmo as pessoas que vão visitar o local se dispõem a contribuir. “Já deixo tintas prontas, uns pincéis, algumas coisas que ajudam o pessoal a pintar mais fácil, e deixo para eles fazerem”, afirma. “De repente há uma gama de pessoas que estão ali, então rapidinho a gente consegue fazer um lado e depois o outro.”

O processo de pintura da rua em Macaíba conta com ajuda de toda a comunidade local [Imagem: Acervo pessoal/Wellington Potiguar]
Em relação ao processo criativo, a originalidade é levada a sério e os moradores buscam inovar a cada Copa. Nas ruas de Manaus, o concurso “Ruas da Copa” leva em consideração a imaginação na hora de criar e incentiva que os valores da prática ultrapassem a homenagem à Seleção. Em 2018, a Rua 3, localizada no bairro Alvorada, utilizou mosaicos feitos por tapetes suspensos preenchidos com bandeirolas de plástico. Mais do que decorar a rua, a atividade reforçou os laços comunitários e evidenciou como o esporte pode ser um catalisador de união e identidade.
Wellington explica que a inspiração para a escolha dos desenhos é ligada à trajetória do futebol e à relação afetiva com a Seleção Brasileira. Na visão do responsável pelo projeto da rua da Copa em Macaíba, a escolha dos elementos visuais parte da paixão pelo esporte e da intenção de renovar o trabalho a cada edição, com propostas diferentes dos anos anteriores.
“O que inspira a gente para fazer esses trabalhos é exatamente a paixão pelo futebol, a paixão pelo esporte”
Wellington Potiguar

Os artistas também produzem peças tridimensionais para compor a decoração, como uma estátua réplica da taça da Copa do Mundo [Imagem: Acervo pessoal/Wellington Potiguar]
O processo e o resultado dessa forma de arte não são apenas visuais. A iniciativa de fazer as ruas é totalmente comunitária e só ocorre devido ao envolvimento direto dos moradores, que contribuem com materiais, mão de obra e participação nas decisões. Acima de tudo, o período de montagem é responsável por fortalecer os laços entre vizinhos e transformar o futebol em um meio de inspiração para a arte e a cultura.
A tradição que passou a perder espaço
A tradição da pintura das ruas da Copa reflete o termômetro emocional do brasileiro não só em relação ao Mundial, mas também com a própria Seleção.
No ano de 2026, uma pesquisa realizada pelo Datafolha apontou que 54% dos brasileiros não têm nenhum interesse em acompanhar a Copa do Mundo, o maior índice de indiferença registrado desde o início da série histórica, em 1994. Por outro lado, apenas 17% declararam ter “grande interesse” no Mundial, o que também é o menor patamar já apurado pelo instituto. A título de comparação, 56% declararam forte interesse na competição em 1994, durante a Copa do tetracampeonato.
O distanciamento da população com a Seleção não é repentino: esse sentimento foi construído Copa após Copa, especialmente após a histórica derrota para a Alemanha por 7 a 1 em 2014. Quatro anos depois, o recorde de desinteresse registrado foi de 53%. O índice diminuiu um pouco em 2022 e chegou a 51%, mas voltou a crescer neste ano.
Quem organiza os murais sentiu essa mudança de perto. O artesão de Macaíba conta que, após a derrota para a Alemanha por 7 a 1, o público encolheu e os comentários nos arredores da rua mudaram de tom. “Em 2018, eu quase não fiz a decoração da rua porque escutava muitas coisas [negativas] do pessoal, por conta da vergonha que foi em 2014”, comenta. “O pessoal ainda veio assistir, porém um público menor. Já em 2022, veio bem mais forte. Agora, para essa de 2026, vamos pensar em uma forma de pintar melhor e, quem sabe, a gente ganhar o campeonato.”
Apesar do pessimismo desse ano, com um índice de apenas 29% que acredita no hexacampeonato, o artista potiguar afirma: “nós temos que nos orgulhar sempre, nós somos pentacampeões, ninguém conquistou mais títulos do que a gente desde que começou, lá na década de 30.”
As ruas no clima de 2026
Apesar da desesperança de uma parcela dos brasileiros, muitos ainda se dispõe a perpetuar o costume das pinturas. Esse é o caso da rua ornamentada pelo artista potiguar Wellington:

[Imagem: Reprodução/Instagram/@ruadacopa_oficial]
Além de Wellington, outros artistas ao redor do Brasil também se dedicam a decorar ruas para a Copa do Mundo de 2026. O influenciador Natan Silva (@natannarua), por exemplo, mostrou o processo de criação de uma rua no bairro Alvorada, em Manaus, e o criador de conteúdo digital Laurinho (@laurinho_oficial) publicou em seu perfil a pintura de uma via em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.
Em Manaus, a tradição continua ganhando impulsos. A prefeitura lançou o edital da competição Ruas da Copa 2026, que apoia as comunidades na organização de espaços públicos para exibição dos jogos, com foco em convivência comunitária e integração social. Além de promover esse incentivo, também irá selecionar as 10 melhores pinturas de ruas:

[Imagem: Reprodução/Instagram/@politicanoamazonas]
*A capa desta matéria usa imagens editadas da Agência Brasil por Fernando Frazão (1, 2 e 3) e Fabio Rodrigues Pozzebom, e de Olga_spb.
