Por Letícia de Aquino (leticiaalvesaquino@usp.br)
Conhecido por retratar o submundo caótico e violento do crime britânico em filmes como Snatch – Porcos e Diamantes (Snatch, 2000) e Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock, Stock and Two Smoking Barrels, 1998), marcados por paletas escuras, takes agressivos e personagens excêntricos, Guy Ritchie parece apostar em seu novo filme em uma estética mais sofisticada e internacional, sem perder a ação eletrizante e o humor sarcástico que marcam seus protagonistas. Na Zona Cinzenta chega aos cinemas nacionais nesta quinta-feira (14).
O filme acompanha um grupo de agentes moralmente ambíguos que atuam justamente nessa “zona cinzenta” entre legalidade e crime. Encarregados de recuperar uma grande fortuna embolsada via empréstimo por um poderoso e perigoso magnata que não quer devolver o dinheiro, os personagens embarcam em uma operação internacional marcada por negociações tensas, muita perseguição e alianças estratégicas.
Liderados por Rachel Wilds, personagem da belíssima Eiza González, uma experiente advogada e negociadora, cabe à equipe altamente treinada garantir a segurança dela durante todo o processo da missão. Após a recuperação da quantia, a empresa não cumpre o que foi acordado entre as partes durante a negociação, o que gera uma cadeia de perseguição e violência ainda maior e que, afinal, não é solucionada. O longa termina abruptamente com um telefone tocando, criando um gancho fortíssimo para uma continuação, apesar de até então não haver confirmações oficiais.

O elenco reúne nomes conhecidos do cinema de ação contemporâneo e os protagonistas possuem uma sintonia excelente, em especial Sid e Bronco, interpretados por Henry Cavill e Jake Gyllenhaal, respectivamente, que entregam atuações notáveis e dinâmicas. Isso sem contar Eiza González, Rosamund Pike e Jason Wong — alguns, inclusive, já tendo trabalhado com Ritchie no passado e que conheciam seu estilo, adequando-se de maneira satisfatória em seus papéis.
O longa investe em diálogos rápidos e carismáticos, cenas explosivas e uma atmosfera luxuosa que permeia os ambientes frequentados pela elite econômica retratada no longa. Ritchie utiliza takes bem articulados com foco em pequenos rituais, como a preparação de drinks especiais, para reforçar a imagem de personagens sempre calculados e no controle da situação.
Embora visualmente distante da crueza urbana presente no início de sua filmografia, Na Zona Cinzenta ainda preserva marcas muito reconhecíveis da direção de Guy Ritchie. O cineasta continua apostando em grupos formados por homens altamente competentes, conversas ágeis carregadas de ironia e personagens que parecem transformar qualquer situação perigosa em uma disputa de ego e carisma.
Assim como em Snatch, a ação surge de forma acelerada, acompanhada por uma constante sensação de tensão. A principal diferença é que, aqui, o caos criminal das ruas londrinas, tão presente na primeira fase de sua filmografia, dá lugar a um universo internacional mais refinado, composto por hotéis sofisticados, negociações milionárias e figuras influentes cercadas por luxo. Ainda assim, o ritmo intenso, o suspense contínuo e a dinâmica entre os personagens mantêm a identidade clássica do diretor.

Apesar do carisma do elenco, o roteiro segue caminhos relativamente previsíveis. A obra utiliza estruturas bastante conhecidas do gênero, como traições esperadas e reviravoltas que podem ser antecipadas ao longo da narrativa com base nos filmes anteriores do diretor. Apesar disso, Ritchie consegue manter a experiência envolvente ao equilibrar o que faz de melhor, permitindo com que até os momentos mais previsíveis mantenham o espectador entretido.
Na Zona Cinzenta funciona justamente por compreender bem sua proposta de entretenimento. Sem buscar grandes inovações temáticas ou reflexões mais complexas, propõe e cumpre a ideia de ser um filme pipoca imersivo e com fotografia de qualidade.

Na Zona Cinzenta está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
Imagem de capa: [Divulgação/Diamond Films]
