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O renascer de Hangun: do resgate à rotina no Zoológico de São Paulo

Hangun, elefanta asiática, foi resgatada há 14 anos e sua história é marcada por superação, resiliência e alegria
Hangun, elefanta asiática do Zoológico de São Paulo
Juliana Lara (Juliana.llrodrigues@usp.br)

Hangun não é apenas uma elefanta resgatada pela equipe do Caldeirão do Huck, ela, com suas 4 toneladas, tem sua própria história, marcada por vivências, gostos e sentimentos particulares. No dia 5, comemorou-se o aniversário da chegada dela ao Zoológico de São Paulo (Zoo SP), momento que marcou a transição de um passado difícil para um presente cheio de ciência e afeto.

Megaoperação de resgate

A jornada para salvar Hangun e sua companheira Serva das condições precárias em que viviam, como a falta de alimento, o acúmulo de sujeira e dejetos e o espaço super reduzido (cerca de 40 vezes menor do que o recomendado), começa com um email. Ele foi enviado pelo então diretor técnico da Fundação Parque Zoológico de São Paulo, Rodrigo Lopes, e comunicava a situação de abandono das duas elefantas a Luciano Huck e equipe. Para viabilizar o resgate, uma operação logística caríssima foi montada. Ela contou com o patrocínio da Duracell, que cobriu os custos de transporte e de engenharia.

As equipes do Caldeirão e do Zoológico foram para a cidade de Salete, no interior de Santa Catarina, e ficaram lá por cerca de um mês. Durante esse período, trabalhou-se em um processo intensivo de recuperação e de preparação dos dois animais para a viagem até São Paulo. Uma das etapas mais importantes do trabalho foi a realização de um condicionamento para que ambas aceitassem entrar nos contêineres sem uma sedação total – processo perigoso para elefantes, pois o peso deles pode causar asfixia e esmagar órgãos vitais. 

Hangun no no Zoológico de São Paulo
Hangun, uma das “idosas” do Zoo de SP, é um animal tão dócil quanto grande [Imagem: Juliana Lara/Acervo pessoal]

O caminho entre Salete e São Paulo possuí cerca de 900 km. A viagem durou aproximadamente 20 horas, sem pausas, e contou com uma equipe de 11 pessoas, entre veterinários, biólogos, tratadores e um motorista. Na estrada, o balanço da carga e a necessidade de hidratação das gigantes representaram preocupações constantes, às quais o grupo de profissionais manteve atenção redobrada. 

Com a chegada ao destino, o desafio era outro: a transferência das elefantas do container no caminhão para o recinto. Na vez de Hangun, ela estava muito inquieta,como é mostrado na reportagem exibida no Caldeirão do Huck, o que impossibilitou  o soerguimento de sua caixa transportadora. Por isso, foi necessário um tiro tranquilizante (com sedação leve) para acalmá-la e finalizar o processo. 

Serva e Hangun foram recebidas no no Zoo SP por vários funcionários..  O recinto, no qual vivem atualmente, tem uma área de 2 mil metros quadrados, cobertura, bebedouro e até um lago, reformado e pensado para o conforto das novas moradoras. 

Hangun se alimentando
Com mais de 40 mil músculos e sem nenhum osso, a tromba é uma ferramenta de precisão capaz de erguer centenas de quilos ou colher uma única semente no solo do recinto [Imagem: Juliana Lara/ Acervo pessoal]

Marcas do passado

Em situações de maus tratos, os animais sofrem com feridas não apenas físicas, mas também emocionais. Apesar da ex-treinadora e atual técnica em condicionamento, Marisa Galvão, mencionar, em entrevista para a Jornalismo Júnior, o comportamento calmo e tranquilo de Hangun, ela também ressalta que o tempo de exploração no circo impactou o mamífero negativamente. 

Frequentemente, os visitantes do zoológico observam um detalhe que chama atenção: a elefanta balança o corpo de um lado para o outro de forma constante. Embora muitos confundam esse gesto com uma “dança” ou como um sinal de alegria, a realidade é que ele é uma estereotipia. Mariana Muñoz, educadora ambiental, explica que tal fenômeno consiste em uma ação repetitiva que se manifesta em animais submetidos a situações de trauma e/ou estresse. No caso de Hangun, essa atitude se caracteriza como uma resposta psicológica aos anos em que viveu sob regime de circos e confinamentos inadequados, sendo considerada apenas como uma atração e não como um ser vivo independente. 

Nesse cenário, explicar ao público a estereotipia é essencial no trabalho educativo do Zoo Sp, visto que é preciso desconstruir a ideia da “elefanta que dança”. Dessa forma, o público pode compreender a gravidade dos maus-tratos e a importância do bem-estar animal. 

Placa com informações sobre elefantes asiáticos
Classificados como “Em Perigo” pela Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), restam menos de 50 mil elefantes asiáticos na natureza [Imagem: Juliana Lara/ Acervo pessoal] 

Rotina e vivências atuais

Quando se trata do dia a dia de Hangun no Zoo SP, os cuidados que ela recebe são uma parte fundamental, principalmente devido à idade avançada. Todos os dias, técnicos, como Marisa Galvão, realizam uma sessão de condicionamento, cujo objetivo é facilitar o manejo da elefanta – para a aplicações de vacinas e realização de exames simples, por exemplo – sem a necessidade de sedação Isso garante a segurança da equipe e do animal. 

Um dos focos do treinamento é as patas. Nele, Hangun é incentivada a posicioná-las em uma estrutura específica. Dessa forma, técnicos podem inspecionar e lixar as unhas e as solas. Segundo Galvão, é característico de elefantes mais velhos, especialmente aqueles em cativeiro, ter problemas nas patas. Isso ocorre, porque, além de não caminharem o suficiente, esses animais apoiam todo o peso (cerca de 2 a 4 toneladas) sobre a ponta dos dedos. Caso as unhas cresçam excessivamente, todo esse volume acaba sendo transferido diretamente para elas, em vez de ser distribuído pela sola, o que pode causar rachaduras, inflamações e ferimentos graves.

Hangun interagindo com cuidadora
Apesar das 4 toneladas, os elefantes caminham sobre a ponta dos dedos, apoiados em uma almofada de tecido fibroso que absorve o impacto e permite que se desloquem quase sem fazer barulho [Imagem: Juliana Lara/Acervo pessoal]

A alimentação é outra parte essencial na rotina dessa elefanta, que passa cerca de 16 horas, por dia, se alimentando e que ingere, aproximadamente, 100 quilos de comida. A dieta é super diversificada. Começa com a ração e frutas — segundo os tratadores, a favorita de Hangun é o melão. Depois, são oferecidos alimentos volumosos (assim chamados por possuírem alto teor de fibra, baixa densidade energética e por ocuparem grande volume no sistema digestivo) como feno, capim e alfafa, e a favorita: a cana-de-açúcar.  Nas redes sociais do Zoo SP, você pode encontrar posts que mostram o processo de alimentação. 

O zoológico também proporciona práticas de enriquecimento ambiental, que estimulam os comportamentos naturais dos animais. De acordo com Galvão, no caso da Hangun, são utilizados estímulos como a distribuição do alimento em diferentes níveis (no alto, no chão, na meia altura) e até mesmo na água. O objetivo é incentivar  o forrageio, comportamento animal de busca, seleção e consumo de alimentos no habitat natural. 

Em 2024, houve uma grande alteração no cotidiano da elefante: a morte de sua companheira Serva. Esses animais costumam ser muito inteligentes e empáticos e, por isso, cada um reage de uma forma diferente ao luto. Apesar de ter sentido falta de sua parceira, conforme a entrevista de Marisa Galvão para a Jornalismo Júnior, a equipe do zoológico não notou nenhuma mudança brusca no comportamento de Hangun. Medidas adotadas para ajudar na superação da perda foram, principalmente: redobrar a atenção e manter a rotina. 

Apesar da solidão, de acordo com a técnica de condicionamento, a chegada de um indivíduo desconhecido, neste momento, poderia ser prejudicial ao bem-estar de Hangun,  devido à sua idade avançada. Atualmente, o protocolo do zoológico foca na manutenção da estabilidade da sua rotina e no acompanhamento técnico constante. 

Hangun jogando terra nas costas para proteger do sol
A pele dos elefantes chega a ter 2,5 cm de espessura, mas é extremamente sensível. A prática de jogar terra ou lama nas costas é essencial, pois funciona como protetor solar, repelente e auxilia na termorregulação [Imagem: Juliana Lara/Acervo pessoal]

Preservação e importância dos elefantes

É de extrema importância, quando se fala em elefantes, salientar o papel fundamental deles na natureza. Eles contribuem não apenas para o equilíbrio do ecossistema, mas também atuam na dispersão de sementes. Esses animais trabalham indiretamente como “jardineiros”, porque se alimentam de plantas e espalham os bagos, através do espalhamento de fezes, por onde caminham. 

Elefantes africanos e asiáticos colaboram na modelagem da paisagem, derrubando árvores, controlando os níveis de arbustos por meio da alimentação e abrindo clareiras e caminhos. Assim, a ausência desses gigantes no cenário natural representaria grande perda para o meio ambiente e grande instabilidade ecológica. 

No entanto, ambas as espécies estão sob constante ameaça. O desmatamento de seus hábitats para o uso na agricultura reduz,  cada vez mais, as fontes de alimento e “encurrala” tais animais em espaços menores. Mariana Muñoz, educadora ambiental, afirma que os membros da família taxonômica Elephantidae são muito inteligentes e criam “mapas” mentais dos caminhos que percorrem – rotas de alimentação, por exemplo – e, então, a destruição deles os deixa perdidos. 

Nesse momento crítico, o papel das instituições de conservação ganha mais importância. Locais, como zoológicos, que antes eram voltados exclusivamente para entretenimento, agora tem como principal objetivo a preservação da biodiversidade. 

O maior zoológico da América Latina abriga diversos animais resgatados, como a Hangun, e trabalha com diversos projetos de recuperação animal. Um  dos maiores exemplos disso é o Centro de Conservação da Ararinha-Azul, que, segundo Muñoz, abriga cerca de 10% da população mundial desses pássaros. Ao atuar na proteção de espécies tão distintas, o Zoológico de São Paulo reafirma seu papel na conservação global. 

A presença de Hangun e a divulgação de sua história são ferramentas de educação ambiental, que permitem que pesquisadores e público compreendam a urgência de proteger os elefantes, seres fundamentais para os ecossistemas dos quais fazem parte.

Elefante pode ser visto à esquerda da obra de Carol Wang que enfeita  o Zoológico de São Paulo
O Zoo SP atua como um refúgio para a biodiversidade mundial e mantém um intercâmbio genético e técnico com outras ONGs de preservação animal, essencial para evitar a extinção de várias espécies [Imagem: Juliana Lara/ Acervo pessoal]

5 curiosidades sobre elefantes asiáticos

  • Diferenças entre primos: Ao contrário dos elefantes africanos, os asiáticos são menores, têm as orelhas proporcionalmente menores e possuem duas protuberâncias no topo da cabeça;
  • Só os machos têem sorriso de marfim: Na espécie asiática, apenas os machos possuem  presas de marfimAs fêmeas geralmente não as possuem ou têm presas muito pequenas (chamadas de tushes), que raramente aparecem fora da boca;
  • Girl power: As manadas são estritamente matriarcais, ou seja, são lideradas pela fêmea mais velha e experiente, que detém todo o conhecimento sobre rotas de água e comida, enquanto os machos adultos costumam viver sozinhos ou em pequenos grupos temporários;
  • A “TPM” dos machos: É um estado biológico periódico dos machos adultos, caracterizado por aumento drástico nos níveis de testosterona e agressividade. Durante o musth, uma secreção oleosa escorre das glândulas temporais, indicando que o elefante está em seu pico reprodutivo e territorial;
  • São inimigos da soneca: Elefantes adultos dormem pouco (cerca de 2 a 4 horas por dia) e conseguem tirar a maioria dos seus cochilos em pé. 
Elefante com traços humanos, desenho encontrado no Zoo SP
O uso de elementos lúdicos no Zoo SP vai além do entretenimento, é uma ferramenta de educação científica que ajuda a criar empatia nas crianças e facilita a compreensão de informações sobre os elefantes [Imagem: Juliana Lara/Acervo Pessoal]

*Imagem de capa: Juliana Lara/ Jornalismo Júnior

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