Hugo Boff (hugoboff@usp.br) e Luiza Paglione (luizapaglione@usp.br)
Na última quarta-feira (13), o São Paulo Innovation Week (SPIW) reuniu diversos palestrantes no Mercado Live Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) para debater ciência, tecnologia e inovação. O destaque do dia foi a palestra “De zero à Marte: os bastidores da nova corrida espacial e o caminho até a NASA”, que detalhou bastidores das missões ao planeta vermelho e desafios de levar humanos até ele.
A palestra foi ministrada por Ivair Gontijo, cientista da NASA, bacharel – em Física – e mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG,) com doutorado pela Universidade de Glasgow e pós-doutorado pela Universidade Heriot-Watt e na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Gontijo, que iniciou a carreira como técnico agrícola em uma fazenda em Minas Gerais, seguiu uma trajetória até a física de ponta, na qual atuou como líder da construção dos transmissores de radar que controlaram o pouso dos rovers Curiosity e Perseverance.
O cientista, que trabalhou por 18 anos no Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA, reforça que, mesmo com o sucesso do andamento da missão Mars 2020, responsável por pousar o jipe-robô Perseverance em solo marciano, o caminho até o planeta continua sendo arisco. Para que isso se torne uma realidade, é necessário descobrir como Marte se diferenciou tanto da Terra, quais são seus compostos orgânicos, como levar e manter os humanos nesse ambiente e quanto tempo demoraria para concretizar tudo isso.
“Eu acredito que vou estar vivo ainda pra ver gente pousando em Marte.
Agora, isso vai ser uma maratona. Vai ser extremamente difícil de ser feito.”
– Ivair Gontijo, cientista brasileiro que trabalha na NASA
Passos mecânicos para a corrida humana até Marte
Mesmo sendo frequentemente associada aos filmes de ficção científica, a missão tripulada até Marte ainda enfrenta diversos obstáculos, explicou Gontijo. Segundo o pesquisador, a chegada até o planeta vermelho funciona como uma “corrida de obstáculos”, os quais têm que ser estudados para que seja possível superá-los. Dentre os desafios,destacam-se: a produção de oxigênio em território marciano, o suprimento de comida e a estabilidade psicológica dos tripulantes, tendo em vista o pequeno espaço das espaçonaves e o amplo período de tempo da missão, calculado entre 6 e 8 meses.
Embora a presença humana em Marte ainda esteja distante de ser efetivada, a ida de robôs já é uma realidade. A Missão Mars 2020 se coloca como o primeiro passo dentre os três que permitem a vinda de amostras de Marte até a Terra. Composto por 7 instrumentos e com, aproximadamente, 1 tonelada, o veículo coleta elementos do solo – como fragmentos de rochas, componentes do terreno analisado – e estuda climatologia e geologia marcianas.
Outro avanço conquistado através do robô foi a produção de oxigênio a partir de matéria-prima marciana, uma vez que o Mars Oxygen In-Situ Resource Utilization Experiment (MOXIE) – instrumento localizado na base do veículo – rompe as moléculas de gás carbônico da atmosfera de Marte, o que torna possível a síntese de O2 no planeta vermelho.

Durante a palestra, o pesquisador comentou sobre sua participação no processo de confecção da SuperCam, um dos aparatos do robô. De acordo com ele, essa ferramenta, localizada na “cabeça” do jipe, funciona através da emissão de um laser de alta potência capaz de atingir rochas marcianas a até 7 metros de distância. Após o contato entre o laser emitido pela SuperCam e os fragmentos rochosos, uma luz é produzida. A partir da captação e leitura desses feixes luminosos, é possível determinar os elementos químicos que compõem a rocha e a organização desses átomos na formação de minerais.
Com o intuito de encontrar material orgânico – o que contribui para a hipótese de presença de vida em Marte –, a cratera Jezero foi escolhida como local para o pouso do rover Perseverance. Para Gontijo, a formação, de aproximadamente 40 km de extensão, abrigava água em estado líquido, o que transformou o local em uma potencial reserva de bioassinaturas criadas há bilhões de anos. “No passado, era um lago cheio de água. E é também um lugar maravilhoso para micro-organismos serem preservados, de modo que possamos encontrá-los agora, tantos bilhões de anos depois”.
“O objetivo maior da missão de Perseverance é investigar a astrobiologia,
e em particular, para abordar a questão de se a vida existe ou não em Marte.”
– Ivair Gontijo, palestrante no SPIW
O engenheiro pontua que, caso tal coleta seja feita com sucesso, serão necessárias mais duas missões para o resgate das amostras. O veículo empacota tais fragmentos em 43 tubos de metal altamente esterilizados (38 com amostras e 5 tubos de testemunho) e deposita esses invólucros pela superfície de Marte. Após anos de separação de materiais, outro veículo será enviado com o intuito de agrupar os cilindros e lançá-los de volta para a órbita marciana. Após esse lançamento, será possível, em um terceiro ato, resgatar os tubos e enviá-los de volta para Terra.
A Lua como campo de testes
Gontijo ressalta que missões como a Artemis, que lançou um foguete em abril para orbitar a Lua, servem como campo de testes para levar a humanidade ao espaço profundo. Em casos de emergência, também é muito mais simples resgatar uma tripulação, dada a proximidade.
A Artemis integra a missão “Moon to Mars”. O objetivo de tal iniciativa é viabilizar a presença humana fora da órbita terrestre por um longo período. Planeja-se que a concretização dessa meta se dê por etapas. Uma delas é o estabelecimento de bases lunares, colocando à prova tecnologias de sobrevivência, como o MOXIE, para produção de oxigênio; além de buscar formas viáveis para levar ou produzir combustível o suficiente para trazer o retorno dos astronautas e a proteção contra a radiação durante os meses de viagem espacial.

O físico citou também como as iniciativas privadas podem retardar a missão por meio da proliferação de satélites em órbita baixa, exemplificada pela rede Starlink. O aumento no número desses equipamentos ameaça a astronomia profissional, pois polui imagens de galáxias com riscos luminosos e destrói detectores sensíveis em telescópios terrestres. Diferente das missões estatais, que seguem tratados internacionais, a iniciativa privada opera com maior liberdade, o que dificulta o controle do lixo espacial e aumenta o risco de detritos atingirem áreas povoadas ao caírem na Terra.
Será que estão em Marte as soluções para os problemas terrestres?

Ao final da palestra, Marcelo Gleiser, físico e ganhador do prêmio Templeton, mediou uma roda de debates entre o público e o palestrante. Durante essa essa conversa, Ivair Gontijo alerta os presentes sobre os perigos que rodeiam a ideia de Terraforming Marte, ou seja, colocar as missões até o gigante vermelho como avanços para uma resposta para a crise ambiental terrestre. De acordo com Gontijo, “É perigoso sonhar com outros mundos enquanto forçamos os limites ambientais da Terra”.
De maneira semelhante à Gontijo, Gleiser pontua os riscos atribuídos ao mito do Terraformismo. Para o ganhador do prêmio Templeton, é inviável atribuir as missões que abrigariam pessoas na Lua ou em Marte como salvação para a humanidade. “Essa visão é, na verdade, mais uma desculpa romântica para tratar a exploração do espaço como o futuro da espécie e, assim, justificar o desenvolvimento das tecnologias necessárias para fazer a exploração mineral”, afirma.
*Imagem de capa: Luiza Paglione/Acervo Pessoal
