Por Alicia Dias (almeidag.aliciadias@usp.br) e Nina M Bozic (ninamilibo@usp.br)
Na última quinta-feira (14), aconteceu o segundo dia da São Paulo Innovation Week (SPIW), evento que reúne empresas e figuras públicas em exposições e discussões sobre inovação tecnológica. Entre os destaques do dia estava a pauta ambiental, ligada ao desenvolvimento sustentável e ao combate às mudanças climáticas.
O tópico foi abordado a partir de perspectivas sobre a Conferência das Partes (COP) 30, ocorrida no Brasil no ano passado. A discussão contou com as palestras “O Caminho da Descarbonização no contexto Geopolítico” e “Clima e Inovação – Da COP 30 à COP 31”, realizadas por membros da conferência de 2025 e cobertas pela Jornalismo Júnior.
O Caminho da Descarbonização no contexto Geopolítico
Com o foco na discussão do futuro da transição energética global, a primeira palestra acompanhada pela Jornalismo Júnior foi apresentada pelo embaixador brasileiro André Aranha Corrêa do Lago, presidente da COP 30. Economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Aranha iniciou a carreira diplomática em 1982. Foi embaixador no Japão e na Índia, negociador-chefe de clima do Brasil de 2011 a 2013 e na Rio+20, e secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Itamaraty de 2023 a 2025.
Para o embaixador, é preciso enfatizar que a agenda climática, além de ambiental, é econômica. O diplomata aponta que há possibilidade de grande avanço social e ganho financeiro, tanto privado quanto público, a partir do desenvolvimento guiado por metas ambientais. Com isso, a produção sustentável é inserida no sistema de mercado e é consequentemente impulsionada por suas dinâmicas.
Segundo ele, o Brasil possui uma posição privilegiada para conduzir o caminho de distanciamento dos combustíveis fósseis e precisa estar na vanguarda da transição energética. O país é um grande produtor de petróleo e é líder global na utilização de energia renovável, o que o torna capaz de apresentar uma perspectiva equilibrada sobre essa agenda.
“Existe grande oportunidade de inserção [do Brasil] nesse novo cenário da economia internacional”.
André Aranha Corrêa do Lago, presidente da COP 30
Principais feitos do Brasil na COP 30

Durante a COP 30, o Brasil ficou responsável por encaminhar a legislação internacional a respeito da descarbonização. Essas diretrizes são responsáveis por direcionar decisões econômicas de diferentes países.
Segundo Aranha, dentro da conferência, representantes brasileiros lideraram coalizões importantes, como a Coalizão Aberta de Mercados Regulados de Carbono, que contou com a participação de países como a China e membros da União Europeia (UE). A agenda possibilitou trocas de experiências sobre o processo de descarbonização, discutiu caminhos para harmonização das normas entre os países e a importância da colaboração internacional.
“O Brasil possui a seriedade de ouvir a todos… Somos um país muito diverso.”
André Aranha Corrêa do Lago, presidente da COP 30
O embaixador também destacou a elaboração de dois Mapas do Caminho da Presidência da COP 30: o pela Transição para o Afastamento dos Combustíveis Fósseis de Forma Justa, Ordenada e Equitativa, e o pelo Fim e pela Reversão do Desmatamento e da Degradação Florestal até 2030. Tais documentos seguem em desenvolvimento ao longo do ano de 2026, durante o qual serão reunidas referências e possibilidades de cooperação internacional para mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
Clima e Inovação – da COP 30 à COP 31
O painel, mediado por Marcelo Araújo, executivo no setor energético e industrial, contou com a participação de Ana Toni, CEO da COP 30, de Dan Ioschpe, representante nomeado pela ONU para mobilizar ações climáticas de atores não governamentais e de André Aranha.
Os participantes discutiram como conduzir uma transição energética economicamente viável e socialmente inclusiva no Brasil. Toni, assim como o presidente da COP 30, destaca que esse tema, para além da questão ambiental e climática, é essencialmente um debate sobre economia e segurança energética.

Um dos principais pontos enfatizados na conversa foi a necessidade da aceleração da implementação das metas climáticas. Para Ioschpe, “o importante agora é a constância e rapidez na execução das diretrizes elaboradas”, no que chamou de “era da implementação”. Aranha complementa que “O Brasil estava no caminho certo, mas na velocidade errada. Tecnologia e Inovação, como o que é apresentado na SPIW, são fundamentais para acelerar as mudanças necessárias.”
A Agenda de Ação Climática foi apontada como uma iniciativa brasileira de destaque na aceleração da efetivação de medidas ambientais. O projeto visa mobilizar agentes públicos, privados e sociais para atuarem de forma conjunta nesse processo. Ele permanecerá vigente pelos próximos 5 anos e, segundo os palestrantes, é um símbolo da força das propostas brasileiras no futuro das discussões climáticas.
A importância da adaptação a um novo contexto mundial – de mudanças climáticas – também foi comentada como questão essencial nas discussões. Casos como as altas temperaturas no Rio de Janeiro e as enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024 foram apresentados como exemplos dos efeitos da crise ambiental vivenciada na atualidade. Toni afirma que grande parte das discussões sobre adaptação climática devem ocorrer sob uma perspectiva social, com a priorização da busca por formas de auxílio aos mais afetados pelas mudanças.

Em entrevista à Jornalismo Júnior, ao ser questionada sobre como a COP abordou o bem-estar das populações mais vulneráveis – que sofrem de forma mais intensa os efeitos das mudanças climáticas – a CEO afirmou que o principal eixo das discussões sociais foi o debate em torno da chamada “transição justa”.
“Quem sofre mais com as consequências da mudança do clima são os pequenos agricultores e quem mora nas áreas mais vulneráveis das cidades.”
Ana Toni, CEO da COP 30
A palestrante destacou que a COP concentrou grande parte dos debates sociais na busca por uma transição energética que não agrave as desigualdades e que assegure proteção aos mais afetados pelos impactos climáticos.
*Imagem da capa: Alicia Dias/Acervo pessoal




