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Recifes brasileiros podem perder sua biodiversidade com o aquecimento dos oceanos, aponta pesquisa

O resultado do estudo é mais um alerta sobre os impactos do aquecimento do planeta em decorrência da emissão de gases efeito estufa

Biosfera
19 ago 2021 | Por Guilherme Bento (guilhermebento@usp.br)

Estudo publicado nesta quarta-feira (18) na revista Ecosystems revelou que a vida marinha nos recifes brasileiros pode estar em risco frente às tendências de aquecimento do oceano para os próximos anos, previstas no relatório divulgado neste mês pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Os pesquisadores analisaram o comportamento alimentar dos organismos aquáticos em um recife de coral brasileiro e desenvolveram um modelo matemático que simula o cenário com o aquecimento das águas. O resultado é  o desequilíbrio do ecossistema e a diminuição do número de peixes, o que impacta desde a biodiversidade marinha até a economia pesqueira e de turismo no litoral. Uma das formas de evitar a degradação do bioma é a redução da emissão de gases efeito estufa. 

Segundo Guilherme Longo, professor do Departamento de Oceanografia e Limnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e orientador do estudo, a maioria dos trabalhos nesta área foca nas mudanças de diversidade e nos efeitos migratórios nos organismos com o aquecimento das águas, e mais raramente estuda-se o funcionamento dos ecossistemas. Essa foi a motivação para entender os potenciais impactos do aquecimento no planeta nesse ambiente. Para isso, o grupo de pesquisadores do Laboratório de Ecologia Marinha da UFRN identificou os impactos causados pelas alterações climáticas nas teias tróficas ou teias alimentares, ou seja, nas diversas ligações entre as cadeias alimentares desse ecossistema.

De maneira simplificada, as cadeias alimentares são esquemas que mostram as sequências de organismos que servem um de alimento para o outro e, portanto, ilustram o fluxo de energia e nutrientes na relação entre aqueles indivíduos. Um exemplo de cadeia alimentar aquática é quando um fitoplâncton é alimento de um zooplâncton, que é alimento de um peixe, que por sua vez é prato cheio para um caranguejo, antes deste ser consumido por uma águia — e todos podem ser jantar de microorganismos decompositores. Mas esse peixe também se alimenta de outros peixes menores de outra cadeia; o fitoplâncton também é alimento de camarões e nós humanos podemos comer o caranguejo, para azar da águia. É essa interligação entre as cadeias que forma a teia alimentar.

 A identificação das teias foi possível pela coleta de dados no Atol das Rocas, antiga reserva biológica marinha, que fica a 150 quilômetros de Fernando de Noronha, arquipélago de Pernambuco. O local foi escolhido, segundo Guilherme, devido à distância de áreas de  interferência humana direta. Por isso, essa unidade de conservação serve como um laboratório natural e  representa um recife tropical brasileiro sem indícios de alterações humanas na sua dinâmica natural: um mar de dados naturais para os cientistas.

Os dados foram coletados durante sete anos, o que permitiu aos pesquisadores analisar o comportamento dos organismos dos recifes e as variações do clima. Dessa maneira, cria-se um panorama dinâmico de suas tendências; e não algo que, como uma fotografia, só registra a situação do momento. Os pesquisadores geraram uma gama extensa de informações para alimentar um software chamado “Ecosim e conseguir produzir as projeções para o ecossistema de acordo com as mudanças climáticas previstas. Esse é o primeiro modelo matemático para a análise de um recife produzido aqui no Brasil. 

 

A coleta de alguns dados é feita embaixo d’água. [Imagem: Reprodução/Twitter @gui_o_longo]

A coleta de alguns dados é feita embaixo d’água. [Imagem: Reprodução/Guilherme Longo]

 

Os resultados obtidos apontaram uma queda da biomassa — ou seja, da quantidade de peixes, algas, corais e outros invertebrados — em uma projeção de aumento das temperaturas previstas para daqui os próximos anos. A simulação do estudo mostra que, seguindo o nível de emissão de gases estufa na atmosfera atual, a sobrevivência de muitos animais entrará em colapso já em 2050.

Leonardo Capitani, doutorando da UFRN que liderou o estudo, relata: “O aquecimento dos oceanos vai levar a uma diminuição drástica na diversidade marinha, porque a biomassa dos recifes vai transferir menos energia para o próximo animal da cadeia, as algas vão ter menos nutrientes e os peixes serão menos resistentes, diminuindo e fragilizando as espécies”. 

Algumas espécies apresentam queda de cerca de 50% em sua ocupação nos recifes. Isso gera uma simplificação da teia trófica, de forma que reduz a sua eficiência em transmitir matéria e energia, uma vez que, menos peixes, por exemplo, significa menos alimento para seus predadores. Guilherme conta que essa era uma tendência esperada, pois alguns organismos aquáticos como os peixes não têm a capacidade de regular sua própria temperatura. Assim, o comportamento dos peixes acompanha essas variações de temperatura da água: eles tendem a ficar mais agitados em ambientes com temperatura elevada, e o oposto ocorre quando a temperatura da água é menor — e isso também reflete no seu padrão de consumo alimentar. “Os recifes correm o risco de se tornarem ‘cidades-fantasma’ no mar, totalmente sem vida”, completa Guilherme.

Com a temperatura elevada, esperava-se que em certo ponto os peixes causassem um aumento do consumo naquela região, o que desregula o equilíbrio ecológico da teia e pode levar à extinção de espécies — e portanto, da biodiversidade do bioma. Também supõe-se que isso geraria impactos em seu próprio metabolismo dos peixes, ameaçando sua sobrevivência dos cardumes.

 

Impactos ambientais e econômicos

Dessa forma, algumas atividades como turismo ou pesca também podem ser impactadas. Isso pode gerar alguns impactos econômicos em regiões litorâneas que têm importante parcela da sua renda atrelada a essas atividades. A prática de mergulho pode perder seus adeptos, pois os recifes estarão pouco habitados. Os comerciantes das cidades litorâneas também perdem, pois não haverá aquela graça de comer um peixe fresco recém-pescado.

 

Vista aérea do Atol das Rocas. [Imagem: Reprodução/Facebook Embratur]

Vista aérea do Atol das Rocas. [Imagem: Reprodução/Facebook Embratur]

 

Guilherme ressalta que essa não é uma sentença para os recifes brasileiros. As mudanças mais bruscas nesse ecossistema só serão identificadas em 2050, então ainda há formas de agir e evitar sua degradação. Aumentar a quantidade de unidades de conservação marinha, regulamentar a pesca, impedir a atividade do turismo exagerado e diminuir a poluição seriam maneiras de tornar o ecossistema mais resistente ao iminente aquecimento das águas que inequivocamente tem responsabilidade humana. 

Para o pesquisador Guilherme Longo, o caso do Atol das Rocas, alinhado com as previsões do IPCC, mostra que não há lugar seguro. Não há uma localidade que escapará dos  impactos causados pelo aquecimento do planeta. A pesquisa intitulada “Ocean Warming Will Reduce Standing Biomass in a Tropical Western Atlantic Reef Ecosystem” foi desenvolvida ao longo de sete anos de coleta de dados com o apoio do Programa Ecológico de Longa Duração das Ilhas Oceânicas Brasileiras. 

A pesquisa foi liderada por Leonardo Capitani e também contou com a orientação do  e professor do Departamento de Engenharia Civil da UFRN, Ronaldo Angelini. Houve também a colaboração de Júlio Neves, do Laboratório de Ecologia Marinha da UFRN, e Edson Vieira, do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).  O projeto contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Instituto Serrapilheira e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

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