Jornalismo Júnior

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Inescapável

Em uma noite estrelada, duas desconhecidas conversam em um terraço sobre o interesse humano no espaço
Silhueta de duas pessoas diante de um céu estrelado
Por Nina M. Bozic (ninamilibo@usp.br)

— O que será que nós tanto procuramos no céu, hein?

A pergunta repentina pega Lorena de surpresa, puxando-a de seus devaneios, de volta à realidade. Ela pisca algumas vezes e sorri com curiosidade, virando-se para encontrar o visitante inesperado. A visitante. Uma mulher de cabelos curtos e questionadores olhos escuros a encara.

Lorena faz menção de responder, mas se interrompe. Sem dúvidas, a desconhecida falava com ela. Ainda assim, a confusão vinda daquela abordagem não a permite pensar em uma resposta que lhe pareça digna da pergunta e do tom utilizado. Então, ergue as sobrancelhas e diz, com ironia:

— Você sai fazendo perguntas assim, para qualquer um, ou…?

— Não. Tinha algo na sua expressão que me chamou a atenção, mesmo. — A outra responde calmamente, sem hesitar. — Vou melhorar, então: o que você procura no céu?

Lorena, novamente, se vê surpreendida pela forma direta de sua interlocutora.

— Hum…— Ela suspira, franzindo a testa ao pensar. — Não sei… acho que, agora, só estava procurando um espaço para pensar, mesmo. — Sua expressão se ameniza, voltando a olhar para cima. — Tem algo nessa escuridão estrelada que me acalma, acho que é isso.

A outra fez que sim com a cabeça, se apoiando no parapeito. Lorena a assiste sacar um cigarro preguiçosamente e acendê-lo. Ela nunca gostou de nenhum aspecto sobre fumar – o cheiro, a fumaça, o vício – mas algo  em sua companheira a fez não se incomodar. 

Por um momento, ambas encaram a cidade que se estendia no horizonte. Estão em um terraço não muito alto, mas têm uma vista relativamente boa. Lorena sorri ao perceber o quanto a descrição da visão presente acima delas é semelhante com o que encontram abaixo – luzes em meio à escuridão. Ainda assim, a movimentação nas ruas, a inquietude das pessoas e os sons constantes a lembram que nada nesse planeta se compararia à quietude com que ela se depara ao encarar o que há em seu céu e além dele. Suspira. Seus olhos, mais uma vez, se voltam às estrelas.

A divagação pacífica em que estava antes, porém, não retorna. A presença da outra e o questionamento por ela imposto  instalaram uma curiosidade latente, que impede Lorena de se distrair do momento. Com isso, decide manter a conversa, ainda que sem desviar totalmente o olhar do alto.

— E você? — Diante do silêncio inicial da segunda mulher, Lorena completa, se virando para ela. — O que você acha? O que você procura? O que nós procuramos…?

A outra dá um longo trago, seguido por um suspiro. 

— Sabe que eu vivo me perguntando isso? Toda vez que eu vejo uma notícia sobre exploração espacial, sobre astronomia… sempre que consumo uma obra que trate do espaço… e são tantas. Até quando pego alguém, ou eu mesma, perdido, encarando o céu. Me pergunto o porquê dessa fixação toda. — Ela suspende a fala por um momento. Então, dá de ombros. — Talvez tenha algo a ver com a vastidão, o…nada. Sinto que saber que nosso planeta é só uma… — Ela gesticula vagamente. — rocha flutuando no meio de um espaço infinito deveria ser aterrorizante. Mas não, na verdade, parece que só nos deixa mais curiosos, sabe?

Lorena faz que sim com a cabeça, interessada. A fala de sua companhia foi em um tom de intimidade, deixando o clima entre elas confortável. Uma brisa movimenta seus cabelos e leva a fumaça do cigarro para longe, enquanto traz à dupla o frescor das plantas que enfeitam o terraço. Lorena suspira, absorvendo a cena. A estranheza da discussão, da aproximação delas, agora parece quase cômica.

— Sei… — Ela continua. — É, acho que tem uma mistura de medo e esperança, uma… ânsia em entender o espaço. Em descobrir o que tem além de nós… se tem algo além de nós. — Ela franze a testa, bem humorada. — Não sei, mas toda vez que realmente paro pra pensar nisso, me sinto… ansiosa? — Ri. — O que chega a ser irônico, considerando que eu acabei de dizer que me acalmo olhando pro céu.

— É, eu entendo. —  A outra sorri, concordando com a cabeça. Seus trejeitos são relaxados e despreocupados, mas há uma sútil nota de ânimo em sua voz, que parece cada vez mais presente com o decorrer da conversa. — São muitas possibilidades, mesmo. Tantas perguntas, respostas… capaz de enlouquecer qualquer um, né?

— Sim, totalmente. 

Lorena sente que o rumo do assunto vai destruir o ambiente de conforto tão recém formado.  E, ainda assim, não consegue se impedir de segui-lo, de refletir sobre.  Então, continua, em tom mais grave:

— São, mesmo, muitas perguntas… e tudo sempre em cima de nós, sempre. — Ela indica o céu com a cabeça, o encarando intensamente. — Isso sem contar o  que você mesma disse, o quanto toda essa questão nos cerca na própria Terra, nas notícias, na cultura… — De repente, parece sentir o peso da infinitude sobre si. Tem a sensação de que aquela conversa, seus pensamentos, suas palavras passam a ter a magnitude do que discutem. — é inescapável.

Por um momento, o silêncio pesa sobre o ambiente. 

— É. — A segunda mulher diz, ainda sustentando um sorriso. — E, mesmo assim, nós não enlouquecemos, né?

Lorena hesita em responder. Sente que tinha, de novo, mergulhado em devaneios. Sempre teve essa tendência e, como dissera, o céu servia como seu refúgio para pensar. Agora, entretanto, o próprio céu é o motivo da incansável corrente de ideias. O que se esconde nele, a vastidão logo acima de si, como nos rodeamos de questões que não temos como responder… tudo repentinamente a assombra. Estava errada, chamar a sensação que tinha ao refletir sobre aquilo de “ansiedade” era um eufemismo risível. Ela se sente desamparada. Enlouquecida. 

Tentando espantar a confusão mental e retornar à realidade, àquela conversa, passa as mão sobre os olhos e pisca. Mas o que é a conversa, senão a causadora daquela tormenta? Lorena se vira para a companheira de terraço, sem saber como prosseguir. A mulher não a encara de volta, está com a cabeça apoiada nas mãos, com o olhar voltado ao céu. A expressão despreocupada, já praticamente extinta, foi substituída pelo sorriso sonhador. Quando movimenta o rosto, se direciona à cidade aos seus pés e observa a movimentação abaixo por alguns segundos. Feito isso, volta a encarar as estrelas. A calma do momento estabiliza a consciência de Lorena. 

— Não… — Ela fala lentamente. — Não enlouquecemos.

No fundo de sua mente, algo a faz questionar se realmente não estariam todos perdendo o juízo. A faz questionar se é possível estar tão cercado pela infinitude e, mesmo assim, seguir inafetado com a vida, tão pequena. Se todo o fascínio humano com o espaço – sua exploração, sua representação artística, seu estudo – não seria uma mísera forma de tentar controlar o poder dele sobre a consciência. 

Apesar disso, a brisa leve continua a refrescar seu rosto. A cidade segue se movimentando. Sua companheira permanece sorrindo, distraída. Lorena se encontra no presente. Não se permite enlouquecer. 

O céu ainda está sobre ela, sobre nós, como sempre. Infinito, misterioso, desconhecido, como sempre. Mas, de repente, sua presença inescapável parece mais com uma certeza reconfortante do que uma dúvida enlouquecedora. Guardando sobre nós, apesar de tudo. 

Lorena sorri e novamente se perde na vastidão, dessa vez em pura tranquilidade.

Imagem da capa: Wil Stewart/Unsplash 

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