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Os 70 anos da aposentadoria de Rocky Marciano, o campeão invicto dos pesados

Após defender o título da modalidade seis vezes, Marciano pendurou suas luvas com um cartel perfeito e deixou sua marca na história do boxe

Por Mayara Felisardo (mayarafelisardo@usp.br) e Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.brmarciano

Em 27 de abril de 1956, o pugilista ítalo-americano Rocky Marciano deixava os ringues para entrar para a história do boxe, sendo o primeiro e único campeão dos pesos pesados a encerrar a carreira sem sofrer nenhuma derrota. Apesar de não possuir uma técnica perfeita, sempre se destacou por sua determinação, resistência e preparo físico. Com um cartel de 49 vitórias, das quais 43 foram por nocaute, ele não apenas dominou sua época, como estabeleceu um padrão de excelência que, até hoje, permanece inigualado no boxe profissional.

A trajetória de Rocco

Rocco Francis Marchegiano, que ficou conhecido mundialmente como Rocky Marciano, nasceu em 1ª de setembro de 1923, no Brockton, em Massachusetts, EUA. Filho de Pierino Marchegiano e Pasqualina Picciuto, ele era um de seis irmãos de uma família de imigrantes italianos extremamente pobres. Ainda muito jovem, Rocco deixou a escola e começou a trabalhar em obras, como jardineiro e como curtidor de couro na mesma fábrica em que seu pai trabalhava, para ajudar a família em meio a Grande Depressão de 1929

Rocky Marciano com sua mãe, Pasqualina, em 1950, nos primeiros anos de sua carreira no boxe [Imagem: Reprodução/Instagram/@i_badge_ii_hearts]

Em março de 1943, Marchegiano foi convocado para servir o exército dos Estados Unidos e foi durante o serviço que teve o primeiro contato com o boxe. Como uma maneira de evitar cumprir obrigações da cozinha, começou a lutar em brigas amadoras e rapidamente descobriu o seu talento ao vencer quase todos os combates do quartel. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, ele terminou seu serviço em Fort Lewis, Washington, onde recebeu uma dispensa honrosa do exército com o posto de Soldado de Primeira Classe.

Apesar das suas habilidades no boxe, seu sonho sempre foi se tornar um jogador profissional de beisebol, esporte que estava em alta nos Estados Unidos durante os anos 40. Sua chance veio em 1947, quando Rocky viajou com amigos para Fayetteville, na Carolina do Norte, e tentou uma vaga no Chicago Cubs, equipe na qual passou três semanas atuando como catcher (receptor). Porém, ele nunca chegou a integrar o time principal e foi cortado em função de uma lesão no braço direito, adquirida durante o tempo no exército, que o impedia de atirar a bola com precisão. 

Após o serviço militar, Rocky continuou a lutar e, em 17 de março de 1947, aos 23 anos, deu início a sua carreira profissional em um confronto contra Lee Epperson. A vitória de Rocky, garantida com um nocaute no terceiro round, marcou o nascimento de uma lenda. 

Logo no início, surgiu o nome pelo qual se tornaria conhecido: “Rocky Marciano”, sugestão do técnico Al Weill após o mestre de cerimônias mostrar dificuldade para pronunciar seu sobrenome original, Marchegiano. Com o tempo, o nome se consolidou como um dos mais emblemáticos da história do boxe.

Imagem promocional de Rocky Marciano como campeão mundial dos pesos-pesados, nos anos 1950 [Imagem: Autoria desconhecida/Wikimedia Commons]

Nove anos depois, em 27 de abril de 1956, Rocky anunciou sua aposentadoria. Com apenas 32 anos, o lutador já enfrentava dificuldades nos treinos intensos devido a dores crônicas nas costas, e decidiu encerrar sua carreira para passar mais tempo com sua esposa, Barbara Cousins, e seus filhos, Rocco Kevin e Mary Anne. Após se aposentar, Marciano trabalhou como árbitro e comentarista de lutas de boxe por muitos anos, e continuou a ganhar dinheiro por meio de palestras motivacionais. 

Rocky e sua esposa, Barbara, no dia de seu casamento, em 31 de dezembro de 1950 [Imagem: Reprodução/Facebook/@BoxingNewsandViews]

Infelizmente, a vida de Rocky chegou ao fim cedo. Em 31 de agosto de 1969, o lutador embarcou em um avião em direção à Des Moines, Iowa, onde faria uma surpresa ao filho de um amigo. Um piloto inexperiente e uma forte tempestade levaram à queda da aeronave, que colidiu com um milharal. Marciano não resistiu e veio a falecer na véspera de seu aniversário de 46 anos.

Marciano: como foi criada a lenda

Em 1948, um ano após não conseguir realizar seu sonho de jogar beisebol profissionalmente devido a lesão no braço direito adquirida no exército, Rocky, curiosamente, se tornou um pugilista profissional. Mesmo após vencer suas primeiras 16 lutas por nocautes, muitos ainda duvidavam de seu sucesso por ter iniciado no esporte tardiamente e por seu alcance limitado, já que muitos consideravam seus braços curtos para a categoria.

Mais do que um implacável e disciplinado lutador, Rocky também era uma figura que transparecia humildade. Em dezembro de 1949, por exemplo, após nocautear Carmine Vingo, que teve de ser levado ao pronto-socorro com hemorragia cerebral, Marciano, preocupado com o estado de seu adversário, pagou por todas as suas despesas hospitalares. Naquele momento, o ítalo-americano até cogitou largar sua carreira caso Carmino não sobrevivesse, mas, felizmente, isso não foi necessário, e, assim, uma amizade entre ambos foi criada.

Durante seus vários nocautes, um golpe se destacava: o “Suzie Q”. Apelidado por outros treinadores e lutadores da época, esse potente golpe de direita chegou até a derrubar o também invicto Roland La Starza, que terminou a luta nas cordas.

Em 24 de setembro de 1953, Rocky derrotou La Starza II por nocaute técnico no 11º round, em defesa do título mundial dos pesos-pesados [Imagem: Reprodução/Youtube/@LegendsofBoxinginColor]

Apesar de nunca ter sido o mais técnico dos boxeadores, como afirmou Breno Macedo, mestre em História Social do Boxe pela USP e ex-pugilista, em entrevista para o Arquibancada, Rocky era muito dedicado: “Ele não era aquele cara que tinha o boxe mais bonito, ele era meio grosseiro, usava uma técnica abaixando a cabeça [método de defesa usado para fazer o oponente errar golpes]. Só que ele era muito eficiente, era um brigador [..] um guerreiro dentro do ringue, que dava tudo.” Outro ponto importante de sua carreira é o fato de ele ter influenciado inúmeros boxeadores, não apenas ítalo-americanos, mas também muitos outros por sua estatura.

“O Rocky tinha, se eu não me engano, 1,78 metros. Ele era relativamente baixo, relativamente fraco e, mesmo assim, ganhava. Então, eu acho que a graça do Rocky é essa, que ele era um cara normal, era um cara humano. Ele não parece esses caras ‘que não são deste mundo’. Ele parecia um cara desse mundo que ia lá e ganhava

Breno Macedo

Em 21 de setembro de 1955, em luta válida pelo título mundial dos pesos-pesados, Rocky venceu Archie Moore e se aposentou com seu famoso cartel de 49 vitórias e nenhuma derrota.

A vitória de Marciano sobre Jersey Joe Walcott por nocaute no 13º round lhe garantiu seu primeiro título mundial [Imagem: Reprodução/Facebook/@BoxingHistory]

Entre o legado e o presente 

Nos anos 50, Rocky Marciano se consolidou como símbolo de força e consistência em uma das categorias mais importantes do esporte. Esse protagonismo também foi ampliado pelo contexto da época, já que Marciano rompeu uma hegemonia ao se firmar como um campeão branco em um cenário historicamente marcado por grandes lutadores negros, fator que ajudou a expandir sua popularidade junto ao público e o transformou, em certos círculos, em uma espécie de “Grande Esperança Branca”, assim apelidado na ocasião de sua luta fictícia contra Muhammad Ali, para o filme A Super Luta (The Super Fight, 1970). 

Como salientado pelo ex-pugilista Breno, isso se deu devido à estrutura de preconceito racial da sociedade norte-americana na época: “Esse fator impactante de ele ser branco o ajudou. Foi devido ao racismo estrutural da sociedade estadunidense. Então, o público branco gostava de ver campeões brancos. Tudo bem que tinham ali os campeões negros que eram valorizados e tal, mas se o campeão fosse um cara branco era melhor”.

Embora fosse chamado de “Grande Esperança Branca”, Marciano rejeitava o título e mantinha respeito pelos adversários negros [Imagem: Associated Press/Wikimedia Commons]

Além disso, sua projeção foi potencializada por um momento de transformação nos meios de comunicação: Marciano foi um dos primeiros campeões dos pesos pesados a se beneficiar da crescente popularização da televisão. Seu estilo agressivo, marcado por lutas intensas e muitas vezes sangrentas, se adaptava perfeitamente ao novo meio, contribuindo para ampliar sua fama e consolidar sua imagem diante do grande público. Ainda assim, embora tenha atravessado essa fase de expansão midiática, hoje, o volume de registros disponíveis de suas lutas é relativamente limitado.

Essa percepção aparece também na avaliação do ex-pugilista e treinador de boxe da Maximum Arena, Jorge “Preto”, que acredita que isso explica porque a presença do lutador no imaginário das gerações mais recentes não é tão forte quanto a de outros nomes do boxe: “Não tem muitas imagens e vídeos dele lutando, é pouca coisa, então a juventude e até mesmo a minha geração se espelhava em outros pesos pesados, de uma geração posterior a do Rocky”. 

“Toda pessoa que conhece boxe e vive de boxe, conhece o Rocky Marciano. […] Se tivesse mais imagens, mais vídeos e a mídia fosse mais atual, com certeza ele seria uma referência, assim como foi Mike Tyson”

Jorge Preto, em entrevista ao Arquibancada

Ao longo dos anos, a marca de Rocky passou a ser revisitada e revisada com mais questionamentos, em que parte das críticas pauta o nível de seus adversários – uma leitura que, embora recorrente, não chega a ser um consenso. Para os críticos, a invencibilidade do lutador se deu pela habilidade inferior de seus oponentes, o que garantia a sua vitória. Jorge defende que a própria extensão da carreira desafia esse tipo de interpretação: “Não é possível que, em 49 lutas sem perder, ele não tenha enfrentado alguém forte”, afirma. Breno Macedo reforça que nomes como Ezzard Charles, Jersey Joe Walcott e Joe Louis, grandes atletas do esporte, fazem parte dessa trajetória, o que sustenta a leitura de que sua invencibilidade não se deu à margem da elite do boxe.

Rocky em momento de descontração com o amigo e boxeador Lou Ambers [Imagem: Reprodução/Acervo “O Globo”] 

Ao mesmo tempo em que o boxe segue em renovação, com novos nomes e novas histórias sendo construídas, trajetórias como a de Rocky Marciano ainda atravessam gerações. Mais do que um cartel invicto, ele permanece como uma referência constante dentro do esporte, alguém que ainda é lembrado, discutido e revisitado por quem acompanha e vive o boxe. Entre mudanças no ringue e na forma como o público consome as lutas, sua figura segue presente, não como algo preso ao passado, mas como parte de uma história frequentemente observada, reinterpretada e mantida viva até hoje.

“Os ícones do boxe são muito celebrados e estudados. E estudados não só na técnica do ringue, mas como eram: a postura, o que falava, como se comportava, a imagem como um todo. E o Rocky é um desses baluartes, uma dessas estrelas que permanecem vivas mesmo depois de irem embora. […] O Rocky permanece sendo um ícone”

Breno Macedo

*Imagem de capa: Reprodução/Acervo “O Globo”

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