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Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’ | ‘Bardot’: uma confissão editada

Longa revisita a trajetória de Brigitte Bardot com imagens inéditas e um tom de homenagem quase hipnótico — mas, ao evitar encarar suas polêmicas de frente, transforma a lenda em um retrato cuidadosamente filtrado
Por Beatriz Sandoval (beatrizsandoval@usp.br)

Na sessão especial que sucedeu a coletiva de imprensa do 31º Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade”, a exibição inédita de Bardot (2025), dirigido por Alain Berliner e Elora Thevenet, parecia prometer um retrato definitivo de uma das figuras mais emblemáticas do século 20. Brigitte Bardot — ou simplesmente BB, para os íntimos e para os nostálgicos — é apresentada como aquilo que o imaginário popular insiste em repetir: a mulher que mudou a forma como o mundo enxergava sensualidade, liberdade e fama. 

O novo documentário sobre Brigitte Bardot — reconhecida como um dos maiores e mais influentes símbolos sexuais do cinema mundial nos anos 1950 e 1960 — não se incomoda em contar algumas meias verdades para evitar arranhões em sua reputação. Consagrada internacionalmente após E Deus Criou a Mulher (Et Dieu… créa la femme, 1956), dirigido por seu então marido Roger Vadim, Bardot é tratada aqui menos como uma figura contraditória e mais como uma lenda a ser preservada.

O filme parte de uma vantagem inegável: além do acesso a um vasto acervo de imagens e registros raros, conta com uma entrevista inédita da própria atriz e com sua participação direta na produção — um privilégio que, ao mesmo tempo em que enriquece a obra, denuncia seu caráter de biografia autorizada. O que poderia resultar em um mergulho profundo e sem filtros acaba revelando o principal limite do documentário: desde os primeiros minutos, fica evidente que a narrativa não se permite tensionar Bardot. Pelo contrário, parece constantemente empenhada em contornar as zonas mais sombrias de sua trajetória, como se o objetivo fosse menos compreender a mulher e mais preservar o mito intacto. 

Ainda assim, seria injusto negar que Bardot impressiona. O trabalho de acervo é um dos grandes méritos do longa. Fotografias raras, imagens de bastidores, registros íntimos e áudios de pessoas próximas criam uma sensação constante de que estamos diante de um arquivo vivo, quase proibido, como se o público tivesse sido convidado a abrir uma caixa trancada há décadas. Há algo de fascinante nesse acesso: Bardot não aparece apenas como a estrela inalcançável, mas também como uma mulher marcada por tensões pessoais, pela exaustão da fama e pela sensação de ter sido engolida pela própria imagem. E talvez seja por isso que o filme consiga emocionar quando decide olhar para a fase final de sua vida: o trabalho com os animais. 

Os trechos que mostram sua dedicação à causa animal, assim como sua atuação através da Fundação Brigitte Bardot, são conduzidos com uma exaltação de um trabalho nobre, pelo qual a atriz realmente se dedicou. Nesse ponto, o documentário acerta: é impossível não se sensibilizar com a maneira como Bardot se reinventa, abandonando o cinema para dedicar sua energia a uma luta que, para ela, parece ter sido a única forma real de redenção.

Brigitte Bardot chegou a realizar uma viagem ao Canadá, em 1977, para protestar contra a atividade de caça às focas.  [Imagem: Divulgação/Fundação Brigitte Bardot]

O problema é que, ao construir esse arco de redenção, Bardot parece usar o engajamento como escudo para tudo o que incomoda. A escolha dos entrevistados também não é inocente. Personalidades como Naomi Campbell e Ester Expósito surgem para reforçar a imagem de Bardot como símbolo de liberdade feminina, de coragem e de ruptura estética. São depoimentos que funcionam bem dentro do tom celebratório, mas que, ao mesmo tempo, deixam uma sensação incômoda: como se o filme precisasse constantemente reafirmar a importância histórica de Bardot para justificar o fato de estar contando sua história sem realmente enfrentá-la.

E isso se torna ainda mais evidente quando o documentário chega ao tema mais delicado de todos: as declarações racistas e xenofóbicas de Brigitte, que não foram pontuais, nem discretas — e renderam inclusive condenações judiciais na França. Ao longo dos anos, a atriz acumulou falas e textos em que atacava a imigração e o islamismo, além de associar práticas culturais de minorias a ideias de “barbárie”, discurso que foi repetido com insistência pela atriz especialmente a partir dos anos 2000.

Em vez de assumir a gravidade desses episódios e buscar realmente a análise desses episódios, o longa prefere diluir o problema em explicações psicológicas. Há um esforço visível em justificar esse comportamento como consequência de uma suposta “raiva” gerada pela fama, como se a pressão da exposição pública fosse capaz de explicar — ou suavizar — preconceitos reiterados. Em determinado momento, a narrativa parece insinuar que Bardot teria sido mais vítima do que agressora: uma mulher cansada, ferida pela indústria e pela imprensa, que teria se tornado amarga. A tentativa é clara: transformar intolerância em trauma, e radicalização em desabafo.

O documentário posiciona falas defensivas em momentos-chave, como se buscasse “equilibrar” acusações com a ideia de que ela apenas “se expressava mal” ou “era incompreendida”. O resultado é quase um exercício de maquiagem histórica. Na tentativa de proteger Bardot de sua própria imagem pública, acaba fazendo algo ainda mais incômodo: normaliza parte do discurso.

Ao tratar esses episódios como desvios emocionais, e não como decisões políticas e morais, Bardot se torna um filme menor do que poderia ser. Sua homenagem é elegante, sua montagem é envolvente e seu acervo é um presente para fãs e curiosos. Mas sua recusa em encarar as contradições da personagem transforma o documentário em algo próximo de uma biografia autorizada: uma obra que prefere preservar a lenda idealizada em vez de investigar uma mulher complexa e controversa, e que se aproxima perigosamente de justificar aquilo que deveria, no mínimo, expor com clareza.

Este filme fez parte do Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’. Para mais resenhas do festival, clique na tag no início do texto.

Confira o trailer:

*Imagem de capa: Reprodução/IMDB

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