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Irã disputará Copa do Mundo nos Estados Unidos em meio à guerra no Oriente Médio

Entenda como o conflito entre os países, a exclusão da Rússia e a falta de critérios claros para sanções colocam a FIFA no centro do debate geopolítico

Por Lucas Miranda (lucasmirandaf@usp.br) irã copa

A Federação Internacional do Futebol (FIFA) mantém os Estados Unidos (EUA) como principal sede da Copa do Mundo de 2026 — mesmo após os ataques realizados contra o Irã, que garantiu vaga na competição em março de 2025. A decisão da entidade, ao preservar a organização do torneio em território norte-americano, reacende o debate sobre os critérios adotados pela FIFA em casos de conflitos internacionais, principalmente quando comparados à exclusão da Rússia após a invasão da Ucrânia, em 2022.

Tensões diplomáticas cercam presença iraniana no Mundial irã copa

No início do conflito, o presidente dos EUA, Donald Trump, chegou a declarar que o Irã não deveria participar da competição por razões de segurança, embora os jogadores fossem bem-vindos. O próprio governo persa afirmou que a seleção não participaria do torneio por causa da guerra, mas recuou da decisão posteriormente.

Kai Lehmann, professor de Relações Internacionais na Universidade de São Paulo (USP), afirma que a participação do Irã no Mundial traz riscos concretos, sobretudo do ponto de vista político e de segurança. Ele ressalta que a FIFA tende a pressionar o governo norte-americano para garantir a proteção de todas as delegações e evitar episódios que comprometam a imagem da competição. A Copa envolve cifras bilionárias e grande exposição internacional, então a tendência será de esforço máximo para preservar a normalidade durante o evento. 

Em março, a Federação Iraniana de Futebol (FFIRI) solicitou à FIFA que os jogos da equipe — marcados para Los Angeles e Seattle, nos EUA — fossem transferidos para o México. O pedido foi recusado pela Federação, que reiterou que o Mundial seguirá conforme o planejado. Ainda assim, a entidade aprovou a transferência do centro de treinamento da seleção, originalmente programado para Tucson, nos EUA, para Tijuana, no México.

Esta será a primeira vez que um país-sede de Mundial receberá, durante a competição, uma nação com a qual está em guerra [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

A seleção iraniana foi uma das primeiras a garantir vaga na competição, mas os vistos americanos dos jogadores só foram aprovados em 5 de junho, a menos de uma semana do início do torneio. Ainda assim, diversos integrantes da comissão técnica tiveram os pedidos negados — dentre eles, o presidente da FFIRI, Mehdi Taj.

O secretário de Estados dos EUA, Marco Rubio, afirmou que os atletas iranianos serão recebidos normalmente, mas ressaltou que membros da delegação com possíveis vínculos à Guarda Revolucionária Iraniana — força militar subordinada ao líder supremo do país, classificado como grupo terrorista por Washington — seriam impedidos de entrar em território norte-americano. Mehdi Taj é ex-integrante da organização. 

Segundo o embaixador do Irã no México, Abolfazl Pasandideh, as condições dos vistos concedidos aos atletas iranianos determinam que eles entrem e saiam dos Estados Unidos no mesmo dia de suas partidas.

Precedente da Rússia e os critérios da FIFA

Este não é o primeiro caso em que conflitos internacionais impactam grandes eventos esportivos. Nos últimos anos, entidades como o Comitê Olímpico Internacional (COI), a União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) e a FIFA proibiram a Rússia de participar de competições internacionais em resposta à invasão da Ucrânia, em 2022. Naquele momento, a Rússia disputava as Eliminatórias Europeias para a Copa do Mundo e, com a decisão, acabou excluída do torneio. Além da equipe nacional, clubes russos também passaram a ser impedidos de disputar competições internacionais. 

Estimativas indicam cerca de 500 mil mortos e 1,5 milhão de feridos desde o início do conflito na Ucrânia [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

O regulamento disciplinar da FIFA prevê ampla gama de sanções a federações nacionais, desde multas e suspensões até a exclusão de competições internacionais. Os critérios que orientam essas decisões aparecem de forma genérica, baseados em princípios como fair play, não discriminação e preservação da integridade do futebol. Na prática, o documento não estabelece parâmetros objetivos para casos que envolvem conflitos armados ou tensões geopolíticas, o que deixa margem para avaliações individuais.

A exclusão da Rússia marcou uma das respostas mais contundentes de entidades esportivas a um conflito recente. Em contraste, os EUA seguem como principal sede da Copa do Mundo de 2026, mesmo diante do envolvimento em ações militares no cenário global.

Para Lehmann, a comparação entre os dois casos revela diferenças relevantes de contexto. Segundo ele, a exclusão da Rússia ocorreu em meio a forte pressão internacional, sobretudo de países europeus e de entidades esportivas continentais, o que reduziu a margem de manobra da FIFA.

No caso dos EUA, a situação seria distinta porque o país é a principal sede do Mundial, porque o torneio está próximo e porque a pressão internacional por uma punição aos norte-americanos, ainda que exista, é consideravelmente menor do que a observada no caso russo. Por isso, uma medida desse porte seria inviável sob os pontos de vista político e organizacional.

Lehmann avalia que as decisões da FIFA tendem a refletir menos critérios objetivos e mais o ambiente político de cada momento. Embora a entidade invoque princípios institucionais e regulatórios, a aplicação prática das sanções depende do nível de pressão diplomática, econômica e midiática exercido sobre a organização. Assim, casos semelhantes podem receber respostas distintas conforme o peso dos envolvidos e a conjuntura global.

Criado em 2025, o Prêmio da Paz da FIFA, que reconhece iniciativas que adotaram “medidas excepcionais e extraordinárias pela paz”, teve Trump como primeiro homenageado [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Segundo o professor, países com grande relevância econômica, capacidade de investimento, peso diplomático e importância comercial tendem a possuir maior margem de proteção institucional. Em torneios como a Copa do Mundo, que mobilizam bilhões de dólares em direitos de transmissão, patrocínios e turismo, fatores geopolíticos e econômicos costumam ser determinantes para as decisões das entidades organizadoras.

Política migratória dos Estados Unidos amplia desafios para a Copa

No plano interno, o cenário também gera preocupações. O endurecimento da política migratória dos EUA e o aumento do rigor nos controles de entrada podem dificultar o ingresso de torcedores estrangeiros, especialmente daqueles vindos de países submetidos a regras mais rígidas. 

Os efeitos desse contexto já aparecem no turismo norte-americano. Dados do Barômetro Mundial do Turismo, da Organização das Nações Unidas (ONU), indicam que o setor registrou queda de 5,4% em 2025, enquanto o restante do mundo apresentou alta de 4%. 

A atuação frequente de agentes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) em operações de fiscalização migratória também não contribui para a imagem do país. Em janeiro de 2026, dois cidadãos norte-americanos morreram após serem baleados por agentes do órgão em Minneapolis, no estado de Minnesota.

As mortes ocorridas em Minneapolis reacenderam o debate sobre os limites da atuação de agentes federais em operações de fiscalização migratória nos EUA [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Problemas operacionais recentes nos aeroportos dos EUA também ampliaram o desconforto entre turistas internacionais. Em meio a um impasse orçamentário no Congresso, funcionários ligados à segurança aeroportuária permaneceram mais de um mês sem receber salários durante o primeiro trimestre de 2026. Centenas de trabalhadores deixaram os cargos, o que provocou atrasos e filas de até quatro horas para os viajantes. 

A questão só foi solucionada no final de março, quando uma medida assinada pelo governo federal autorizou a retomada dos pagamentos e buscou normalizar o funcionamento do setor. Ainda assim, os episódios ampliaram a percepção de instabilidade no turismo do país.

Também gera repercussão uma proposta apresentada pelo governo Trump no fim de 2025, que prevê maior fiscalização sobre visitantes estrangeiros. O plano incluiria a exigência de histórico de redes sociais dos últimos cinco anos para cidadãos de 42 países atualmente isentos de visto — dentre eles, Reino Unido e diversas nações europeias. Embora a medida ainda não tenha sido implementada, a possibilidade já provoca receio entre parte dos viajantes internacionais.

Nesse cenário, Lehmann afirma que a política migratória dos EUA pode representar um desafio logístico para a realização da Copa. Medidas adicionais de controle migratório, como exigências documentais ampliadas ou verificação de redes sociais, tenderiam a ampliar filas, atrasos e dificuldades de entrada no país. 

A polarização política nos EUA e a repercussão internacional das recentes ações militares do país fazem as preocupações ultrapassarem o campo esportivo e atingem também a segurança do Mundial. Autoridades norte-americanas e dirigentes da FIFA demonstraram apreensão com a possibilidade de ataques de grupos extremistas durante a competição. Segundo informações divulgadas pela agência Reuters em março, relatórios de inteligência apontaram riscos relacionados à infraestrutura de transporte e à possibilidade de distúrbios civis em áreas ligadas ao evento. Os documentos mencionam ameaças associadas tanto a organizações extremistas quanto a grupos criminosos.

Palco da final da Copa do Mundo de 2026, o New York/New Jersey Stadium integra o esquema de segurança reforçado adotado para o torneio [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

*A capa desta matéria usa imagens editadas de Ank Khumar.

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