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‘A democracia nunca é estável e permanente, ela precisa ser cultivada’, afirma Marina Silva

Durante evento em São Paulo, pré-candidata ao Senado falou sobre a importância da soberania nacional, da educação e de sustentabilidade social
Por Thaiza Souza (thaizasouza@usp.br)

Na quinta-feira (16), Marina Silva (Rede) — atual Deputada Federal, ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima e pré-candidata ao Senado por São Paulo — reuniu-se com os participantes da iniciativa Direitos Já! Fórum pela democracia na Casa de Portugal, em São Paulo. O encontro buscou promover uma discussão sobre o tema “Democracia e desenvolvimento” e as expectativas para sua candidatura nas eleições de 2026.

A conversa foi mediada por Fernando Guimarães, coordenador-geral do Direitos Já!. Representando Renato Gonçalves — presidente da Casa de Portugal, que não pôde comparecer ao evento —, participou Ricardo Magalhães.

Guimarães abriu a discussão afirmando que o evento é uma defesa da democracia e representa o “momento que temos para fazer um chamado a toda a sociedade para debater a importância do Poder Legislativo”. O mediador também destacou a relevância da participação de Marina, ressaltando sua trajetória na defesa do meio ambiente e afirmando que a Casa de Portugal se sente honrada em recebê-la.

Democracia além de votar e ser votado

Ao iniciar a conversa, Marina afirmou que o tema “Democracia e Desenvolvimento” não é simples, e que é preciso entender o que é democracia e verificar quais são os principais indicadores do que é um país desenvolvido. A ex-ministra ressaltou ainda que a democracia deve ser essencial para a resolução de problemas, mas não pode ser definida apenas por essa função.

A pré-candidata ao Senado citou a pesquisa do Latinobarómetro, feita em 2023, que demonstrou que cerca de 54% dos latino-americanos “não se importariam que um governo não democrático chegasse ao poder, desde que ele resolvesse os problemas do país”.

Marina reforçou a importância da democracia e afirmou que ela deve ser percebida no cotidiano da população. Como exemplo, citou a realidade de uma mulher de periferia que trabalha o dia todo, não encontra vagas em creches, enfrenta transporte público precário e volta para casa em ruas mal iluminadas. Ao concluir, citou a frase: “Só os tiranos podem oferecer um destino às suas sociedades. Já os democratas, só podem oferecer a possibilidade.”

Fernando Guimarães sentado ao lado de Marina Silva em um palco
Marina Silva já foi senadora pelo estado do Acre, exercendo o cargo por dois mandatos consecutivos, de 1995 a 2011 [Imagem: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]

Ao abordar o papel do Estado, Marina defendeu o conceito de um “Estado mobilizador”, em vez de um Estado apenas provedor ou regulador. Segundo ela, trata-se de um Estado “capaz de mobilizar o melhor de si mesmo, o melhor dos seus trabalhadores, da iniciativa privada, da academia, das juventudes e um Estado que seja capaz de não terceirizar o que não pode ser terceirizado”.

Ao se referir a São Paulo, Marina destacou o papel do estado como porta de entrada para investimentos voltados à prosperidade e ressaltou sua base tecnológica, seus centros universitários e de pesquisa. “É um estado que tem muitos recursos humanos e pode ser retomado para essa nova indústria de transição energética. Aqui, há uma grande solução para a mudança do clima. Temos o combustível de transição: os biocombustíveis”, afirmou.

A pré-candidata ao Senado concluiu sua fala afirmando que o Brasil já tem base para a transição energética: “Temos um plano de transformação ecológica que foi elaborado por cerca de 25 ministérios. Eu, junto com o ministro Fernando Haddad, estou pilotando isso”.

“Somos um país que pode ser o endereço dos investimentos para esse novo ciclo de prosperidade [transição energética].”

Marina Silva

Marina Silva sendo entrevista por jornais com miccrofones na frente
O partido Rede Sustentabilidade (REDE) foi fundado em 2013 por Marina Silva. Ele defende o ambientalismo, o desenvolvimento sustentável e o progressismo [Imagem: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]

A contribuição da ciência e da sustentabilidade

Soraya Smaili, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), questionou a ex-ministra quanto às ameaças sofridas pela  ciência de São Paulo — que, de acordo com ela, é responsável por 40% da ciência brasileira. Smaili reforçou a necessidade de um parlamento forte em favor da ciência do país, desenvolvida principalmente nos institutos e nas universidades públicas, que, segundo ela, carecem de orçamento e estão sob constante ameaça. Para Marina, a formação de produção de conhecimento começa já no ensino fundamental e na formação de professores.

Marina afirmou que o discurso da “transferência de tecnologia” tem sido usado como justificativa para reduzir o investimento nas universidades. Segundo ela, o poder público deve financiar tanto a pesquisa básica quanto a pesquisa aplicada.

Ela afirma que um país em desenvolvimento precisa ter foco na pesquisa aplicada e deu exemplos, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a produção de vacinas para a Covid-19. Porém, questiona: “Mas quem disse que uma coisa tem que ser em prejuízo da outra? Temos que ter orçamento para possibilitar as duas coisas [pesquisa básica e aplicada]”. 

Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação e professor na Universidade de São Paulo (USP), questionou a pré-candidata sobre sustentabilidade social e projetos de desenvolvimento econômico, destacando que “a construção de uma sociedade justa é também a construção de um meio ambiente justo”. Marina respondeu que um modelo de conservação que pressupõe a presença de pessoas é o ideal, desde que com atividades de baixo impacto. 

“É algo que foi aprendido com os indígenas pelo seu modo de vida, que é de baixíssimo impacto na natureza. As áreas mais preservadas no mundo com presença humana estão sob o domínio de povos indígenas e comunidades tradicionais”, declarou a pré-candidata.

Marina afirmou ainda que hoje a sustentabilidade possui várias dimensões, como a econômica, social, ambiental e a cultural. E que o processo sustentável tem que responder a todas essas dimensões. “Sustentabilidade não é uma maneira definida de fazer as coisas. É, sobretudo, uma maneira de ser, uma visão de um ideal de vida”, disse. 

Ao finalizar sua fala sobre sustentabilidade, Marina Silva declarou: “Não diria que devemos conciliar o agronegócio com o meio ambiente, e sim integrar a natureza e o desenvolvimento em uma mesma equação. Não tem como trabalhar separado, não existe isso”. A pré candidata acrescentou que os dados e as evidências não vem só do saber da academia científica, mas também do saber nativo das populações tradicionais.

“A sustentabilidade não é algo de esquerda ou de direita. Eu diria que, no contexto da mudança do clima, é uma realidade que se impõe a todas as pessoas que querem ficar vivas.”

Marina Silva

Pré-candidatura ao Senado

Ao falar sobre sua pré-candidatura, Marina Silva mencionou o quão simbólica é a presença de duas mulheres como pré-candidatas ao Senado, ela e Simone Tebet (PSB). “Temos um déficit na participação de mulheres em muitos lugares, mas aqui, no Congresso Nacional, isso é muito importante. Nós somos mais de 50% da população e só temos 18% de representação na sala do Senado”.

A ex-ministra também defendeu e incentivou a participação dos cidadãos nos debates, na formulação de ideias e na construção de propostas, em um momento que, segundo ela, é marcado por intensa polarização. “Querem nos tirar o lugar de debater, de reconciliar o Brasil, de fazer com que voltemos a ser um país que conversa”, declarou. 

Marina comentou sobre sua relação com Simone Tebet — ex-ministra do Planejamento e Orçamento do Brasil e também pré-candidata ao Senado por São Paulo —, e destacou as diferenças e semelhanças entre as duas. “Eu sou uma mulher que nasci e cresci na floresta amazônica, alfabetizada aos 16 anos em um regime de semi-escravidão, ambientalista e, acima de tudo, uma mulher boa”, afirmou. Em seguida, comparou: “Ela [Tebet], uma mulher branca. Eu, uma mulher preta. Ela é católica; eu, evangélica. E é mais sobre essas articulações que eu pretendo que possamos pensar”.

“A grande lição da crise a que chegamos é que o novo ciclo não deve deixar para trás os indígenas, os suburbanos, as mulheres, o povo preto e o pobre. Seguiremos todos juntos.”

Marina Silva

Sobre a roda de conversa

O evento faz parte de um ciclo de debates promovido pelos Direitos Já! Fórum pela Democracia, com foco na reconstrução democrática, no desenvolvimento sustentável e na inclusão social.

A organização foi criada em 2019, e surgiu como “uma iniciativa da sociedade civil em defesa dos valores fundamentais expressos na Constituição Cidadã”, de acordo com a página oficial do Fórum. Desde então, a organização segue realizando rodas de conversa com nomes da política nacional. 

Marina Silva foi a quarta convidada da iniciativa, que já contou com a presença de Fernando Haddad e Márcio França, além da participação da pré-candidata ao Senado Federal por São Paulo, Simone Tebet. Para a coordenação do Direitos Já!, o incentivo a conversas com pré-candidatos à eleição de 2026 fomenta o direito à cidadania e participação política ativa da sociedade civil, além de elucidar visões e projetos políticos dos candidatos convidados.

Imagem de capa: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior

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