Por Eduardo José (edujs0207sp@usp.br)
Hoje, dia 20 de julho, o músico Chris Cornell faria 62 anos de idade. O ícone do rock foi um dos precursores do movimento grunge, e vocalista de bandas como Soundgarden e Audioslave. Nesta mesma data, os fãs lamentam o nono ano desde a morte de Chester Bennington, vocalista do grupo Linkin Park.
Chris e Chester foram grandes amigos e compartilharam muitas experiências em comum. Apesar do fim de vida trágico dos artistas, ambos deixaram um legado para o nu metal e para milhões de jovens.
A problemática infância de Chris Cornell
Nascido no dia 20 de julho de 1964, Christopher John Cornell teve uma infância difícil em Seattle, Washington DC. A infância dos cinco irmãos, filhos do casal Karen Cornell e Edward Boyle, ficou marcada por episódios violentos do pai, que tinha problemas com álcool. Aos 14 anos de Chris, seus pais se separaram e os irmãos resolveram adotar o sobrenome materno, Cornell. No ano seguinte, o jovem largou os estudos para ajudar com as finanças da casa.
“A música Incessant Mace fala sobre um jovem que espera crescer sem se tornar nada parecido com seu pai. Esse era o meu sentimento quando eu era mais novo.”
Chris Cornell durante show em Fort Myers, Flórida
Em entrevistas, Chris Cornell relata que começou a fazer uso de entorpecentes já aos 12 anos, mas que seu vício em bebida teve início aos 16. Cercado por um ambiente familiar complicado, com a forte crise econômica que assombrou os EUA nos anos 80, o jovem encontrou na música e nas drogas um refúgio que o seguiria até o fim de sua vida.
Carreira de Chris Cornell

Durante o início dos anos 80, Chris fez parte da banda cover The Shemps, ainda em Seattle. Só em 1984, porém, que membros remanescentes dessa banda viriam a formar a Soundgarden. Depois de uma década no cenário underground, a banda teve seu seu estrelato em 1994, com o lançamento do álbum Superunknown.
O álbum estreou na primeira posição da Billboard 200 e alcançou posições altas nas paradas ao redor de todo o mundo. As faixas Spoonman e Black Hole Sun foram vencedoras do Emmy Awards, o que tornou Superunknown o álbum mais bem sucedido da banda, com cerca de 310 mil cópias vendidas só na semana de estreia.

[Imagem: Reprodução/ Flickr]
Em 1997, Soundgarden anunciou a separação do grupo, com alegações de divergências criativas. Cornell seguiu em carreira solo discreta até 2001, quando membros remanescentes da já renomada Rage Against The Machine buscaram um novo vocalista. Cornell mostrou ser o encaixe perfeito e juntos formaram um novo grupo, o Audioslave.
“Chris era um grande amigo, um dos melhores cantores e compositores, não apenas do grunge, mas de todos os tempos.”
Tom Morello, guitarrista da Audioslave, em entrevista ao BBC Radio 6 Music
Durante a produção do primeiro álbum homônimo da banda, o grupo quase teve que se dissolver. Chris apresentou recaídas no uso de entorpecentes e teve sua presença cancelada no festival Ozzfest de 2002, nos Estados Unidos. Desde o sucesso de Soundgarden no início dos anos 90, Cornell teve constantes recaídas no vício em drogas. Em 2002 não foi diferente e o vocalista passou por crises severas que resultaram no fim de seu relacionamento com a empresária Susan Silver, casados desde 1990.
Audioslave lançou três álbuns, entre 2002 e 2007, teve 3 indicações ao Grammy Awards e emplacou sucessos como Like a Stone, Gasoline e Show me How to Live. O fim da banda teve razões semelhantes ao de Soundgarden. Chris alegou em entrevistas “problemas insolúveis de personalidade” e “diferenças musicais” que levaram à separação do grupo.
[Vídeo: YouTube]
Após a dissolução das duas principais bandas do cantor, Chris Cornell seguiu carreira solo até reatar com a banda Soundgarden em 2010. Em janeiro de 2017, chegou a se reunir com a Audioslave também para algumas apresentações, em um período aparentemente estável da saúde mental e física do cantor.
O triste fim
No dia 17 de maio de 2017, o mundo se surpreendeu com a trágica notícia: Chris Cornell havia sido encontrado morto, no hotel MGM Grand Detroit, vítima de suicídio por enforcamento. A banda Soundgarden tinha acabado de se apresentar em Detroit, horas antes, e tinha agenda para outros shows nos Estados Unidos.

[Imagem: Reprodução/ YouTube]
A causa da morte aponta para as recaídas de Chris nos meses que antecederam seu falecimento. Ele esteve sóbrio desde 2002, quando seus colegas da Audioslave o incentivaram a entrar em um programa de reabilitação. Houve uma recaída 14 anos depois, em 2016, quando o cantor teve uma lesão no ombro, e precisou se medicar para conseguir dormir, usando um ansiolítico chamado Ativan, ou Lorazepam, como também é conhecido. O medicamento pode ter contribuído para recaídas com outras substâncias.
O abuso do uso de drogas, a depressão e o suicídio, são frequentemente associados a ídolos do rock. Outros artistas tiveram trajetórias semelhantes , como Kurt Cobain (Nirvana), Ian Curtis (Joy Division), Champignon e Chorão (Charlie Brown Jr) e principalmente Chester Bennington, vocalista da banda Linkin Park, que tinha forte relação com Chris Cornell.
“Você [Chris Cornell] me inspirou de muitas maneiras que jamais poderia ter imaginado. Seu talento era puro e incomparável. Não consigo imaginar um mundo sem você nele.”
Chester Bennington
Chester e a Linkin Park
Chester Bennington nasceu no dia 20 de março de 1976 em Phoenix, Arizona, nos Estados Unidos. Filho de Susan Eubanks e Lee Russell Bennington, Chester era o mais novo entre seus três irmãos. Em entrevistas, o cantor contou que também passou por problemas na infância. Aos onze, passou a exteriorizar sua raiva não só por meio da música, mas também por meio de substâncias ilícitas.

Casou-se cedo, aos vinte anos e se mudou para Los Angeles (LA) com a esposa. Já em LA, Chester recebeu o convite para audição de uma banda chamada Xero, que precisava de um novo vocalista. O grupo foi um projeto liderado por Mike Shinoda e Mark Wakefield, que pretendia misturar hip-hop com metal.
Os integrantes buscaram um novo vocalista para dividir o microfone com o rap de Mike Shinoda. Em 1999, a banda incorporou Chester no elenco. O grupo passou a se chamar Hybrid Theory mas, posteriormente, mudou para Linkin Park. No ano seguinte, lançaram seu álbum de estreia, Hybrid Theory, que alcançou sucesso estrondoso.
Antônio Ricardo e Mateus Pereira são administradores do Portal Linkin Park, uma página especializada em notícias sobre o grupo. Em entrevista à Jornalismo Júnior, Antônio contou que a banda “surgiu com uma ideia inovadora no meio de muitas bandas que faziam um som sempre parecido”. Para ele, a mistura de gêneros e a combinação “perfeita” entre todos os membros fizeram com que a banda alcançasse sucesso rapidamente.
Hybrid Theory teve repercussão instantânea. Alçou a segunda posição na Billboard 200 e foi certificado como Disco de Ouro pela Recording Industry Association of America (RIAA) (Associação Americana da Indústria de Gravação) cinco semanas após seu lançamento. Sucessos como Crawling, One Step Closer, Papercut e In The End estouraram.
“Quando a vida nos deixa cego, o amor nos mantém unidos”
Linkin Park – The Messenger
A banda manteve sucesso com o disco sucessor Meteora e seu single Numb, lançados em 2003. Houve também a produção de Colision Course (2004), EP remix em parceria com Jay-Z, até o lançamento do terceiro disco, Minutes to Midnight, em 2007. Foi durante a turnê deste álbum, em 2008, que os caminhos de Chester Bennington e Chris Cornell se cruzaram pela primeira vez.
Irmandade entre Chris e Chester
Na época, Linkin Park liderava o projeto do festival Projekt Revolution, que tinha a proposta de reunir diversas bandas em turnê desde 2002. Na edição de 2007, Chris Cornell subiu no palco para performar a música Crawling junto com a banda de Chester.

[Imagem: Reprodução / YouTube]
Chester e Chris estavam, naquele momento, no seu segundo casamento. A amizade, então, se estendeu para as esposas dos músicos, Talinda Bennington e Vicky Cornell.
A amizade entre a família Cornell e Bennington era reservada. É sabido que Chester e Chris conviviam bastante fora dos palcos e Bennington chegou a ser padrinho de Christopher, o primeiro filho do casal Cornell.
One More Light
Linkin Park estava prestes a entrar no ar pelo programa do Jimmy Kimmel para divulgar seu sétimo álbum de estúdio, o One More Light (2017), quando recebeu a notícia da morte de Chris Cornell. Originalmente, a banda iria apresentar o single Heavy ao público do programa, mas resolveu tocar a faixa One More Light, que deu nome ao disco. O momento foi registrado através de um vídeo no YouTube.

Chester ficou visivelmente abalado com a perda do melhor amigo. Perto do fim da canção, durante o solo do guitarrista Brad Delson, Chester improvisa um “Scream” técnica vocal com o qual ficou conhecido — para gritar as palavras “I do”, em resposta ao refrão que questiona “Who cares if one more light goes out in the sky with a million stars?”.
Em tradução livre, ele responde a questão “Quem se importaria se mais uma estrela se apagar, em um céu com milhões delas?”, dizendo “Eu me importo”.
O trágico fim de Chester Bennington
Chris Cornell faria 53 anos no dia 20 de julho de 2017, pouco mais de dois meses após sua morte. Nessa data, porém, o mundo acordaria mais triste. Chester Bennington foi encontrado morto em sua casa, na Califórnia, após voltar de uma viagem em família para ensaios com a Linkin Park. Segundo relatórios da perícia, a causa foi suicídio por enforcamento, assim como a morte de seu melhor amigo.
“Foi como perder um amigo, alguém de quem eu posso ter escutado a voz mais do que uma pessoa que eu convivo pessoalmente”
Mateus Pereira

O legado
Linkin Park só retornou aos palcos oficialmente em 2024, com reformulação dos integrantes. Colin Brittain tornou-se o novo baterista da banda, substituindo Rob Bourdon, que optou por não retornar ao grupo. Além dele, a banda buscou se reinventar ao integrar Emily Armstrong nos vocais. A cantora tinha relativo sucesso na banda Dead Sara, onde performava canções pesadas e intensas, aos moldes dos primeiros álbuns da Linkin Park.

[Imagem: Reprodução/ WikimediaCommons]
Em setembro do mesmo ano, a banda fez um show para anunciar o retorno do grupo aos palcos. Após apresentar os integrantes da banda, Mike Shinoda introduz a nova vocalista dizendo: “Essa é a Emilly, e Chester Bennington, nesta tarde, é cada um de vocês”. Mateus Pereira, do Portal Linkin Park contou que o mundo parou para assistir aquele “retorno com transmissão universal, anúncio do novo álbum, nova música e novos membros”. “Foi absurdo”, concluiu.
Linkin Park lotou o Allianz Park, em São Paulo, no dia 15 de novembro de 2024, para o show de lançamento de seu mais novo álbum, From Zero. O disco contém músicas de estilos variados. Faixas como The Emptiness Machine, Casualty e Two Faced remetem aos primeiros álbuns do grupo, enquanto Over Each Other e Good Things Go, por exemplo, remetem aos discos mais recentes, com teor mais experimental.
“A ideia da banda nunca foi repetir o que já foi feito, foi sempre se reinventar e essa é a cara da banda, seja com Chester Bennington ou com a Emily.”
Mateus Pereira
