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Copa do Mundo 2026 | Eras do Brasil: o único país no mundo que pode ir em busca de um hexacampeonato

Há um dia da estreia da Amarelinha, relembre os momentos mais memoráveis da Seleção e como surgiu cada uma das cinco estrelas na camisa brasileira

Por Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.brseleção

Há 96 anos anos, o Brasil fazia sua primeira aparição na edição inaugural da Copa do Mundo FIFA, em 1930, no Uruguai, e, desde então, o torneio nunca deixou de contar com a participação verde amarela. A Seleção Brasileira é a única a ter participado de todas as edições masculinas do torneio, além de ser o maior campeão, com cinco títulos.

As histórias brasileiras se confundem com a própria história do futebol mundial, com suas conquistas, tragédias e personagens lendários. A cada quatro anos, os brasileiros calçam as chuteiras para escrever mais um capítulo na história do “país do futebol” e, na Copa do Mundo de 2026, vão em busca do sonhado hexacampeonato. Mas como essa história foi escrita até aqui? 

Primeiras edições e o Maracanazo

A edição inaugural da Copa do Mundo da FIFA reuniu 13 seleções, sete delas sul-americanas, dentre as quais estava o Brasil – eliminado ainda na fase de grupos. Desde então, o país construiu uma trajetória de crescimento, com as conquistas do terceiro lugar do torneio em 1938 e da Copa Rio Branco dois meses antes do mundial de 1950 – título que gerou altas expectativas para o Mundial daquele ano.

Em casa, o Brasil teve uma campanha dominante: goleou adversários, teve o melhor ataque e o artilheiro da competição, Ademir de Menezes, com nove gols. Porém, na final contra o Uruguai, para mais de 200 mil pessoas no Maracanã, o time perdeu de virada por 2 a 0 em um episódio que ficou conhecido como “Maracanazo” – a primeira grande decepção em uma Copa do Mundo.

Após o Maracanazo a camisa branca virou símbolo de azar para muitos brasileiros. A rejeição foi tão grande que levou a um concurso nacional, em 1953, para definir o novo uniforme da Seleção, vencido pelo gaúcho Aldyr Garcia Schlee, criador da tradicional Amarelinha [Imagem: Reprodução/X/@GTXShrestha13]

A apresentação do Rei 

Em 1958, o Brasil foi ao Mundial na Suécia com o objetivo de superar o trauma que a edição de 50 havia deixado. Os brasileiros não eram temidos, porém contavam com uma geração que se tornou inesquecível: comandados por Vicente Feola, nomes como Bellini, Didi, Zito, Djalma Santos, Vavá, Zagallo, Mané Garrincha e o jovem Pelé compunham o elenco.

Para a última rodada da fase de grupos, o técnico Vicente Feola promoveu as entradas de Pelé e Garrincha na equipe titular – dupla que não deixaria mais o time até o fim da competição. A mudança deu resultado imediato: vitória por 2 a 0 sobre a União Soviética, com dois gols de Vavá, e vaga garantida na fase de mata-mata.

Nas quartas de final, diante do País de Gales, o Brasil encontrou seu confronto mais difícil até então. A forte marcação adversária só foi superada aos 21’ do segundo tempo, quando Pelé, aos 17 anos, mostrou pela primeira vez ao mundo toda a sua genialidade: chapelou o marcador dentro da área e marcou o gol que garantiu a vitória por 1 a 0.

A partir dali, o jovem camisa dez passou a balançar as redes em todos os jogos e a encantar cada vez mais quem acompanhava aquela Seleção – tanto que, ao fim do torneio, foi apelidado de “Rei do Futebol”, e assim é conhecido até hoje. Na final, em 29 de junho, contra a anfitriã Suécia, o Brasil venceu de virada por 5 a 2 e conquistou sua primeira Copa do Mundo.

A Taça Jules Rimet recebeu esse nome em homenagem ao francês de mesmo nome, principal idealizador da Copa do Mundo e mais longevo presidente da FIFA [Imagem: Reprodução/Instagram/@imortaisdofuteboloficial]

Uma geração além de um único craque

No Mundial de 1962, no Chile, o time Canarinho chegou embalado pela conquista inédita e era apontado como um dos favoritos ao título. Com a geração da Copa anterior já mais experiente, a Seleção Brasileira iniciou sua campanha cercada de expectativas. O caminho rumo ao bicampeonato, no entanto, amargou um duro golpe logo na segunda partida da fase de grupos: Pelé sofreu uma lesão muscular e ficou fora do restante da competição. Nessa partida, o Brasil empatou sem gols com a Tchecoslováquia.

Em seu lugar, entrou Amarildo, que assumiu a responsabilidade e manteve o alto nível da equipe, ajudando o Brasil a vencer todas as partidas seguintes. Além dele, Garrincha viveu uma Copa do Mundo histórica e foi decisivo nos momentos mais importantes da campanha.

Apelidado de “O Possesso”, o atacante Amarildo marcou dois gols contra a Espanha, que classificaram o Brasil ao mata-mata [Imagem: Reprodução/Acervo O Globo]

Então, no dia 17 de junho, justamente contra a Tchecoslováquia, o Brasil disputou mais uma final de Copa do Mundo. Assim como em 1958, a Seleção saiu atrás no placar, mas mostrou poder de reação e venceu de virada por 3 a 1, com gols de Amarildo, Zito e Vavá. A conquista transformou o Brasil na segunda seleção bicampeã mundial da história e simbolizou a força coletiva daquela geração, que conseguiu superar até mesmo a ausência de seu principal craque.

A melhor seleção de todos os tempos: o Esquadrão de 70

Eliminado ainda na fase de grupos em 1966, o ciclo até a Copa de 1970 havia sido conturbado: Mário Jorge Lobo Zagallo, ex-jogador e campeão mundial, tinha assumido o comando da Seleção há apenas três meses. 

Com o Rei como protagonista, a equipe contava ainda com Gérson, Rivellino, Tostão, Carlos Alberto Torres e Jairzinho, o “Furacão da Copa”, que marcou gol em todos os jogos da competição. Apesar de cair em um grupo difícil,  com Inglaterra, Tchecoslováquia e Romênia, o esquadrão de Zagallo passou com facilidade pela fase de grupos, com lances inesquecíveis como o quase gol de Pelé e “a maior defesa do século”.

Invicto, o Brasil disputaria sua quarta final de Copa do Mundo, desta vez contra a também bicampeã Itália, que vinha de uma semifinal histórica contra a Alemanha – partida que ficou conhecida como o “Jogo do Século”. Diferentemente das finais anteriores, foi a Seleção Brasileira quem abriu o placar, com um gol de Pelé e, 19 minutos depois, Boninsegna empatou para os italianos. 

Já no segundo tempo, Gérson “Canhotinha de Ouro”, Jairzinho e o capitão Carlos Alberto Torres marcaram e completaram a vitória de 4 a 1, que coroou o Brasil como o primeiro país a ser tricampeão mundial e a última equipe a erguer a Taça Jules Rimet. 

A FIFA definiu que a primeira seleção a vencer três Copas do Mundo ficaria com a taça definitivamente. Ela, então, foi concedida ao Brasil em 1970, mas foi roubada da sede da CBF em 1983. Acredita-se que o troféu foi derretido pelos criminosos e nunca mais foi recuperado [Imagem: Reprodução/Instagram/@fotografiahistorica]

Com a conquista, Zagallo entrou para a história como o primeiro personagem do futebol a conquistar a Copa do Mundo tanto dentro de campo, como jogador, quanto à beira do gramado, como treinador. Já Pelé alcançou um feito inédito ao se tornar o único atleta tricampeão mundial.

A seca de 24 anos

Apesar de contar com craques históricos como Sócrates, Zico e Rivellino, o Brasil, já consolidado como uma das maiores potências do futebol mundial, passou por cinco Copas do Mundo sem sequer chegar à final.

Com isso, a Seleção de 1994 aterrissou nos Estados Unidos como a mais desacreditada até então. Em um grupo com Rússia, Suécia e Camarões, o Brasil não era creditado como um dos favoritos, mas, apesar disso, a equipe brasileira começou a se mostrar mais sólida a cada jogo. Romário, o “Baixinho” , que estava no ápice do seu futebol, foi um dos principais responsáveis por colocar a Amarelinha no topo novamente.

Após o tetracampeonato, a Seleção homenageou Ayrton Senna, falecido meses antes, com uma faixa célebre, e dedicou a vitória ao ídolo nacional [Imagem: Reprodução/Instagram/@sennabrasil] 

De volta em uma disputa pelo título, o Brasil enfrentou novamente a Seleção Italiana que também estava em busca da quarta taça. Em uma partida muito equilibrada que terminou em 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação, o jogo foi para o final mais emocionante que pode existir: a disputa de pênaltis. 

Com três gols convertidos para o Brasil e dois pra Itália, o último pênalti seria decidido entre o goleiro Taffarel e o atacante italiano Roberto Baggio que, ao chutar, isolou a bola muito acima das traves e fez com que o Brasil se consagrasse o primeiro tetracampeão mundial.

“Os Três Rs” da Seleção

Como atual campeão, o Brasil chegou ao Mundial da França em 1998 como o grande favorito. Entretanto, na final, foi derrotado pelos franceses por 3 a 0. Em 2002, na edição seguinte, sediada conjuntamente entre Coreia do Sul e Japão, as expectativas estavam divididas dentro do país do futebol. Apesar de estar no comando há apenas um ano, o técnico Luiz Felipe Scolari já havia sido eliminado na Copa América nas quartas de final e o Brasil teve dificuldades para garantir a vaga ao mundial nas Eliminatórias. 

Em um grupo considerado relativamente tranquilo, a Seleção Brasileira passou pela Turquia, China e Costa Rica, e mostrou melhoria de desempenho a cada partida. Nas oitavas de final, em um jogo disputado, derrotou a Bélgica por 2 a 1, com gols de Rivaldo e Ronaldo Fenômeno.

Nas quartas, o desafio foi diante da Inglaterra de David Beckham, que saiu na frente aos 22’, com um gol de Michael Owen. Porém, Ronaldinho Gaúcho, “O Bruxo”, brilhou: deu a assistência para o gol de Rivaldo e, pouco depois, marcou em uma cobrança de falta histórica, de quase 40 metros de distância em relação à meta do goleiro inglês, virando o jogo para o Brasil.

Na semifinal, a Seleção reencontrou a Turquia e, em mais uma partida complicada, venceu por 1 a 0, com gol de Ronaldo Fenômeno, que garantiu a vaga na grande final.

O icônico corte de cabelo “Cascão” de Fenômeno foi uma estratégia deliberada para desviar o foco da imprensa sobre uma suposta lesão na coxa [Imagem: Reprodução/X/@CBF_Futebol] 

No dia 30 de junho, o verde e amarelo entrou em campo para disputar aquela que, até hoje, foi a sua última final de Copa do Mundo. No Estádio Internacional de Yokohama, contra a Alemanha, Ronaldo Fenômeno e Rivaldo construíram uma bela jogada que terminou no primeiro gol brasileiro. Depois, Ronaldo marcou novamente e confirmou a vitória por 2 a 0.  

Com o título, o Brasil se tornou o primeiro – e, até hoje, único – pentacampeão mundial e o capitão Cafu foi o último a erguer uma taça de Copa do Mundo pelo país.

Mais 24 anos de seca na Seleção

Após o pentacampeonato em 2002, o Brasil não venceu mais a Copa do Mundo e vive agora o maior jejum de sua história, que já ultrapassa a seca encerrada em 1994. A trajetória foi marcada por altos e baixos, com destaque para a trágica eliminação de 2014, quando, no dia 8 de julho, pela semifinal da Copa do Mundo, no estádio Mineirão, a Amarelinha sofreu uma derrota esmagadora de 7 a 1 para a Alemanha – placar considerado por muitos o maior vexame da história do futebol brasileiro. 

O jogo ficou marcado pelos quatro gols alemães marcados em apenas seis minutos (entre 23′ e 29′) e consolidou Miroslav Klose como o maior artilheiro das Copas [Imagem: Reprodução/Youtube/@fifa] 

Desde então, o Brasil é constantemente derrotado nas quartas de final do torneio. Na desclassificação mais recente, no Catar, em 2022, a Seleção era considerada uma das favoritas, mas apenas quatro minutos a separaram de disputar a semifinal. Após abrir o placar com Neymar, a equipe falhou em segurar o resultado contra a Croácia e sofreu o gol de empate aos 116 minutos, que resultou na eliminação nos pênaltis. 

Este ano, o Brasil chega à Copa do Mundo da FIFA 2026 em situação parecida com a de 1994: 24 anos em jejum, muita cobrança dos torcedores e a volta do torneio à América do Norte. Para os supersticiosos de plantão, esses fatores podem significar a possibilidade do Canarinho voltar a erguer uma taça no torneio e conquistar o sonhado hexa.

*Foto de capa: Reprodução/X/@CBF_Futebol

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