Por Ana Vitória Barbosa (anavita.nb@usp.br)
Imagine todas as construções sociais conhecidas: governos, comunidades, religiões, trabalhos. Agora, imagine o que mudaria se não houvesse a divisão entre os gêneros masculino e feminino. Pois foi esse o exercício que a autora Ursula K. Le Guin propôs ao escrever A mão esquerda da escuridão (Aleph, 2019), em 1969.
O livro é um clássico da ficção científica e conquistou os prêmios Nebula e Hugo em 1969 e 1970, respectivamente. A publicação foi revisitada pela autora ao longo dos anos. Posteriormente, ela adicionou uma introdução com sua definição para o gênero literário: “A ficção científica não prevê; descreve”. A romancista infere que, apesar das suas histórias serem situadas em um futuro distante, elas não procuram prever o futuro, mas sim propor uma outra forma de descrever a realidade.
O mundo se desvenda no olhar de Genly Ai
O ambiente é Gethen, um planeta de frio extremo, com uma população de cerca de cem milhões de habitantes. Essa terra, como outras do universo ficcional, é ocupada pelos humanos há milhares de anos. No entanto, devido à localização mais afastada, não tem contato com outras civilizações até a chegada de Genly Ai.
Quando a narrativa começa, o protagonista — descrito como um homem negro — já vive no planeta há um ano. A história segue principalmente na perspectiva dele enquanto busca cumprir a sua missão: convencer as nações de Gethen a participarem do Ekumen, uma aliança interplanetária que coordena trocas comerciais e de conhecimentos entre os planetas que o integram.
Essa incursão é algo costumeiro para o Ekumen. Sempre que a associação localiza uma civilização inteligente, ela envia os “Investigadores” disfarçados para aprender mais sobre o local, como a língua, cultura e as condições climáticas. Em Gethen, por exemplo, é tão frio que os primeiros pesquisadores que visitaram o apelidaram de “Inverno”. Essa expedição pode ser entendida como a mistura de uma missão de reconhecimento com estudo antropológico. Em sequência, as informações coletadas servem de subsídio para o propósito do “Enviado”, que é a função do personagem principal.
Como o Ekumen possui um viés diplomático, essa aliança destina apenas uma pessoa para revelar sua identidade verdadeira e, claro, seu objetivo. Apesar de ser uma abordagem menos ameaçadora para os gethenianos, ela implica um grande perigo para a vida do personagem principal, que pode morrer ou ser preso durante a missão.
Escrita como um grande relatório de Genly Ai, a história não segue uma ordem linear. A autora inclui capítulos relatados na perspectiva de outros personagens, que seguem a cronologia principal ou não, mas sempre com temas que se relacionam à ela.
Também estão presentes mitos de origem da cultura getheniana. Essa é uma das qualidades do livro, pois oferece uma visão mais aprofundada da vida dos descobridores do planeta e aproxima esses habitantes do leitor, expandindo o universo da obra. Essas mini narrativas revelam a cultura de contos orais transmitidos a cada geração pelos habitantes daquela terra.
Nos primeiros capítulos, a leitura não é tão fluida. Isso porque a autora apresenta um universo fictício ricamente detalhado. São descritos objetos, plantas, animais, biomas, e até mesmo regiões geográficas que só podem ser totalmente concebidas na imaginação do leitor. Essa característica dificulta a experiência, pois causa um estranhamento, mas também a enriquece consideravelmente porque proporciona uma maior imersão na leitura.
O sexo no Inverno
A premissa dos seres ambissexuais é o ponto central da história. O povo de Gethen se desenvolveu como uma espécie humanoide com características fisiológicas e anatômicas distintas das que existem no resto do universo conhecido. Qualquer indivíduo tem traços de ambos os sexos, por isso, possuem aparência andrógena e podem assumir o gênero feminino ou masculino em um período nomeado “kemmer”, que faz parte de um ciclo de 26 dias.
Assim, a organização do mundo deles é completamente diferente da terráquea. Durante o kemmer, todos têm uma pausa para relação íntima e qualquer indivíduo pode engravidar, então o dever de cuidar das crianças é compartilhado. Apesar disso, a história foca na dinâmica dos governos e em funções estereotipadamente masculinas, enquanto o funcionamento dos ambientes familiares e ocupações “femininas” não são incorporados à narrativa.
Na publicação original, foram usados os pronomes masculinos para todos os personagens, como se isso fosse equivalente aos neutros — e as traduções para as versões brasileiras seguiram o mesmo padrão. Ursula Le Guin foi audaciosa ao escrever o livro, entretanto, de forma sutil, sua obra ainda reflete padrões da sociedade patriarcal, em parte compreensível devido à época do seu lançamento, na década de 1960.
Gethenianos não controlam a atribuição do gênero, mas para cada indivíduo ela é oposta a do seu parceiro, portanto, não há menção de qualquer relação homossexual em todo o livro. Apesar da premissa possibilitar a exploração do universo LGBTQIAPN+, a autora optou por excluir esse tema. Na sua criação, ela busca uma abordagem exclusivamente feminista.
Ao longo da história a narrativa gira cada vez mais em torno dos personagens. Inicialmente, há o choque cultural de Genly Ai, mas logo fica claro que seus sentimentos e percepções vem do preconceito. A sua atitude vira um impedimento para o cumprimento da missão e paira sobre o seu relacionamento com o habitante de Gethen e seu único aliado, Therem Harth Estraven.
“Amigo.
O que é um amigo, num mundo onde qualquer amigo pode ser
um amante quando muda a fase da lua?
Não eu, trancado em minha virilidade: não era amigo de Therem Harth,
ou de qualquer outro de sua raça.
Nem homem nem mulher, nenhum dos dois e ambos, cíclicos, lunares,
metamorfoseando-se sob o toque das mãos, crianças defeituosas colocadas no
berço da humanidade, não eram carne da minha carne, não eram meus amigos;
não haveria amor entre nós.”
Genly Ai, o Enviado de Ekumen. Página 215
Estraven é similar a um primeiro-ministro no reino de Karhide e é a única pessoa que se interessa pela missão do personagem principal. Seja por interesses pessoais ou porque acredita que seria benéfico para a sua nação, ele aconselha o Genly Ai e o aproxima do rei — Argaven.
Nesse contexto, a questão do gênero vira um entrave para o protagonista, que não consegue superar a sua visão limitada ao interagir com os gethenianos. Quando ele esboça opiniões negativas sobre os costumes daquele povo, destaca características físicas e de personalidade, especialmente aquelas mais femininas, como quando qualifica alguém de “pouco viril” e “afeminado”. Com isso, a escritora traça um retrato de como o machismo interfere em importantes tomadas de decisão, mesmo em alguém bem-intencionado.
Ironicamente, para aquele povo, Genly Ai é a aberração. A autora não simplifica a história introduzindo os gethenianos como os certos ou os “bonzinhos”. Ela constrói personagens com profundidade e que têm suas próprias ambições. Para eles, o estrangeiro enviado é um “pervertido”, pois ele está sempre no kemmer — período que são férteis e sentem desejo sexual — enquanto eles só passam uma pequena fração do tempo deles nele.
Monarquia vs burocracia
Como nunca aconteceu uma guerra naquele planeta, esse contexto fez Genly Ai elaborar duas teorias: a primeira atribui o crédito à natureza getheniana e à mistura dos sexos; a segunda atribui o crédito ao frio. Para ele, o clima extremo fez os países priorizarem a autopreservação para lidar com a era glacial. O gelo é um imperativo da história, guia a narrativa e cria novos desafios para os personagens. É de uma importância tão grande na vida diária que, em cada uma das nações deste planeta, há pelo menos sessenta palavras para descrevê-lo.
Entre os territórios de Gethen, dois são os mais influentes: Karhide, uma monarquia relativamente livre; e Orgoreyn, descrito como uma burocracia, mas que se assemelha muito ao socialismo devido à centralização do poder estatal no funcionamento do seu governo. Essas nações vivem em conflito que nunca escala para uma disputa armada, nesse sentido vivem em uma persistente “Guerra Fria”. No romance, há uma clara parcialidade para Karhide, que se aproxima mais em estilo de governança da nacionalidade da autora que é estadunidense.
O país de destaque se expressa de forma particular, algo que dificulta ainda mais a negociação de Genly Ai, o “shifgretor” — prestígio do interlocutor nas relações. Um diálogo precisa ser pautado sempre considerando a honra de ambos os lados, por isso, o contato que o protagonista busca acaba falhando e há a necessidade de um guia para intermediar a situação, papel ocupado pelo Estraven — o político que ele despreza. Entretanto, Genly Ai não aprecia Estraven, em vez disso desconfia de todas as pretensões dele.
Orgoreyn possui língua e religião próprias, mas o destaque no livro ainda recai sobre Karhide. Este último possui o sistema de governo, cultura e crenças mais desenvolvidos na história. Um exemplo disso é a religião local, a Handdara, que aparece em diversos capítulos. Sua temática dialoga com a premissa do livro: o misticismo que a envolve trata da aceitação do não saber, do não compreender e do equilíbrio dos opostos. O título da obra remete a esses princípios e também incorpora um verso de uma canção dessa religião.
“Luz é a mão esquerda da escuridão
e escuridão, a mão direita da luz.
Dois são um, vida e morte, unidas
como amantes no kemmer,
como mãos entrelaçadas,
como o fim e a jornada.”
Canção de Tormer. Página 234.
O mundo de Le Guin
A mão esquerda da escuridão faz parte de uma série de livros do mesmo universo ficcional, chamado “Ciclo Hainish”. Nele, os planetas habitados compartilham uma origem humana comum, influenciada pelo planeta Hain, incluindo a Terra e Gethen. Para conhecer mais sobre esse universo, é possível ler em qualquer ordem outros livros do ciclo, como Os Despossuídos. Por isso, existem várias obras que mencionam o Ekumen — o termo vem do grego e significa “região habitada” —, pela descrição da autora é uma organização planetária quase utópica.
*Imagem de capa: Ana Vitória Barbosa/Acervo pessoal
