Jornalismo Júnior

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Telê Santana, o gênio por trás do futebol que encantou o mundo

Há 20 anos, o técnico símbolo do futebol-arte e bicampeão mundial pelo São Paulo faleceu e deixou um legado histórico

Por Ana Rita Hernandes Costa (anaritahermandes@usp.br) e Hellen Vitória Santos Rodrigues (helliv7@usp.br) Telê Santana

No dia 26 de julho de 1931, em Itabirito, Minas Gerais, nasceu Telê Santana, um dos mais importantes técnicos da história do futebol brasileiro e mundial. Em 21 de abril de 2006, o mundo se despediu do grande mestre aos 74 anos, acometido por uma falência múltipla de órgãos decorrente de uma infecção no intestino.

Fio da esperança

Revelado pelo Itabirense, time de sua cidade natal, um ainda jovem Telê Santana iniciou sua carreira como goleiro, mas logo se tornou ponta após ser reprovado debaixo das traves.  Em 1945, foi transferido para o América de São João del-Rei, clube mineiro do qual seu pai era diretor e técnico. Nesse período, Telê foi descoberto pelo gerente de banco Aminthas Novaes, que se interessou pelo jogador e usou de sua influência para encaminhá-lo ao Fluminense. 

No fim da década de 40, Telê chegou ao tricolor carioca com 19 anos e lá se consolidou após marcar 5 gols contra o Bonsucesso, impressionando dirigentes do time das Laranjeiras. O então garoto passou grande parte de sua carreira como jogador do Flu e lá recebeu seu icônico apelido de Fio da Esperança, dado pelo jornalista Mário Filho. “Fio” provém de seu físico esguio, e “Esperança” deriva da sua habilidade em momentos decisivos. 

Durante sua carreira no Rio de Janeiro, foi campeão estadual pelo Fluminense em 1951 e 1959, marcando dois gols na partida final da primeira ocasião. Além disso, foi campeão do Torneio Rio-São Paulo nos anos de 1957 e 1960, e da Copa Rio, em 1952. Em meio a essa trajetória, o ponta-direita ficou marcado como o terceiro jogador que mais vestiu a camisa do Fluminense, com 558 jogos, e o quinto maior artilheiro na história do time, com 163 gols. Sua trajetória no Tricolor das Laranjeiras durou 11 anos, até sua saída em 1962, rumo ao Guarani.

A passagem do mineiro pelo time de Campinas não teve o mesmo êxito da sua atuação no Rio de Janeiro. A sua estadia no Bugre durou de 1960 a 1962, durante a qual integrou o quinteto ofensivo formado por Telê, Ari, Paulo Leão, Tião Macalé e Osvaldo. Todavia, não ergueu nenhum troféu de relevância nesse período.

Em 1963, Telê voltou ao Rio de Janeiro para defender a equipe do Madureira. No mesmo ano, anunciou sua aposentadoria, mas voltou atrás na decisão e continuou jogando pelo tricolor suburbano até 1964, quando rescindiu seu contrato e deixou os gramados.  

Passado esse período, Santana assumiu o cargo de assessor na Administração dos Estádios da Guanabara (ADEG), órgão criado para cuidar da gestão dos estádios públicos no Rio de Janeiro, e no Fundo de Garantia do Atleta Profissional (FUGAP), mecanismo voltado à proteção financeira dos jogadores de futebol e amparo econômico para os atletas profissionais, em que trabalhou ao lado de Ademir de Menezes, ídolo do Vasco. Ainda em 1964, Telê foi comentarista em alguns jogos pela Rádio Tupi.  Contudo, o futebol ainda fazia parte da vida do craque, uma vez que jogava nos times de jornalistas da Rádio e veteranos da ADEG.

Mas, foi em 1965 que o Vasco surpreendeu a todos, ao anunciar o retorno de Santana ao futebol profissional. Nessa época, o time carioca não possuía orçamento para contratar novos jogadores e o técnico cruzmaltino Zezé Moreira indicou seu amigo, Telê Santana, para integrar a equipe. Assim, após quase dois anos aposentado, o ídolo das Laranjeiras voltou aos gramados.

A trajetória do Fio da Esperança no Vasco durou apenas 3 meses, pois seu condicionamento físico já estava bastante desgastado, e as lesões eram constantes. Dessa forma, em novembro do mesmo ano, Telê anunciou definitivamente sua aposentadoria e encerrou sua atuação como jogador de futebol.

Instinto da liderança

Em 1967, Telê iniciou sua carreira como técnico ao comandar as categorias de base infanto-juvenis do Fluminense e vencer o Campeonato Carioca Juvenil duas vezes. Dois anos depois, em 1969, assumiu o time principal e logo se consagrou ao vencer o campeonato estadual e a Taça Guanabara. 

Já no início da década de 70, o treinador recebeu e aceitou uma proposta do Atlético Mineiro, e assim chegou a Belo Horizonte, onde escreve uma vitoriosa história. Nesse período, o mestre, como foi carinhosamente apelidado pelo time, tornou-se campeão estadual em 1970 e, posteriormente, ganhou o primeiro título brasileiro do Galo, ainda no formato de mata-mata do campeonato. 

Durante sua passagem, para além dos títulos acumulados, seu estilo de treinar começou a se tornar marcante. Em entrevista ao Arquibancada, Luciano Maluly, Professor Doutor da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP, e coautor do livro “Jornalismo esportivo no Brasil” (2020), diz que Telê apresentava uma forma rígida de jogo, exigindo dos jogadores muita técnica e disciplina. 

“Ele queria ensinar. Ele era um pai disciplinador”

Luciano Maluly

Logo após sua trajetória vitoriosa na capital mineira, Telê iniciou sua jornada na equipe pela qual, mais tarde, tornaria-se ídolo: o São Paulo Futebol Clube. Em 1973, fez sua primeira passagem no tricolor paulista, porém, inicialmente, não alcançou grandes números. 

Ainda neste mesmo ano, ele retornou ao Galo, por onde permaneceu até 1975. Nos cinco anos seguintes, o técnico passou por mais três times brasileiros por curtos períodos: Botafogo (1976); Grêmio (1976 a 1978); e Palmeiras (1979 a 1980). Nesse período, seu feito de maior destaque foi a conquista do Campeonato Gaúcho de 1977 pelo tricolor porto-alegrense. 

Seleção Brasileira 

Após essa sequência de passagens por grandes equipes do futebol brasileiro, Santana chegou então à Seleção. Telê foi visto pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) como o técnico ideal para o time nacional da época, que havia passado por reformulações e buscava mudanças no seu estilo de jogo.

Mesmo antes de oficializar seu novo cargo em 1980, ele já dizia que trabalharia para acabar com a falta de profissionalismo e o bairrismo na Seleção Brasileira, este último muito comum aos treinadores da época, que valorizavam jogadores de certa base ou região e defendiam um estilo de jogo característico. Se exagerada, essa prática poderia dificultar mudanças táticas e priorizar vínculos em vez de critérios técnicos. 

“O Telê foi o primeiro treinador a ser mais famoso que os jogadores. Tinha Zico, tinha Sócrates, mas ele era o mais famoso”

Luciano Maluly

Revista Placar entrevista Telê antes de assumir a seleção, para a edição de 11 de janeiro de 1980 [Imagem: Reprodução/Revista Placar]

Em sua passagem pela equipe verde e amarela, o treinador mineiro decretou os oito princípios básicos para o seu trabalho, uma série de exigências e metodologias que o ajudariam no comando da Seleção Brasileira: 

1. Técnico e preparador físico devem ser permanentes;

2. Total autonomia para convocar e dispensar jogadores;

3. Organizar melhor o calendário, de forma a conciliar os interesses da CBF e das Federações;

4. Observar o máximo possível, e pessoalmente, os jogadores que se destacam em cada Estado, para dar chance a todos, mesmo se fracassarem nos primeiros testes;

5. Correr o Brasil para manter contato direto com jogadores e técnicos em seus próprios clubes, nos locais de treinamento;

6. Buscar uma maior aproximação dos técnicos brasileiros, que formam uma classe desunida e desinformada;

7. Exigir tempo para treinar a Seleção, ainda que seja para uma única partida;

8. Acompanhar, periodicamente, a evolução do futebol em outros centros, especialmente a Europa; 

Apesar de seus esforços e de seus marcos pela Seleção, o técnico não conseguiu erguer as taças das Copas do Mundo de 1982 e 1986. Em ambas as competições amargou a quinta colocação. Por conta disso, Telê recebeu o apelido de “Pé-frio”. 

De volta aos gramados semanais 

No período entre Copas, o mineiro treinou o time árabe Al-Ahli, pelo qual tornou-se campeão árabe de 1983, campeão da Copa do Rei de 1984 e campeão da Copa do Golfo de 1985. 

Depois de sua passagem pela Amarelinha, Telê retornou ao Atlético Mineiro mais uma vez, de 1987 a 1988, clube pelo qual venceu o Campeonato Mineiro e acumulou, no total, mais de 430 jogos, com apenas 77 derrotas. Assim, consagrou-se grande ídolo do Galo. 

Nos dois anos seguintes, o treinador teve uma breve passagem pelo Flamengo, entre 1988 e 1989, durante a qual foi campeão da Taça Guanabara. No seu último ano pelo Rubro-negro, ele voltou ao tricolor carioca, mas não apresentou números expressivos e, já em 1990, se transferiu ao Palmeiras, clube no qual também permaneceu por apenas uma temporada. 

O retorno ao São Paulo e o início de uma nova era

Telê morou no Centro de Treinamento do São Paulo, na Barra Funda, por um tempo enquanto era técnico do clube [Imagem: Tales.ebner/Wikimedia Commons]

Telê retornou ao São Paulo em outubro de 1990, anos após sua primeira passagem pelo time paulista, em 1973. Ele assumiu o comando da equipe depois da demissão do técnico Pablo Forlán. O treinador chegou ao clube receoso: a demissão anterior enquanto comandava o Palmeiras, as derrotas pela Seleção Brasileira e o apelido de “Pé-frio” ainda pesavam sobre os ombros. Mas, apesar de toda adversidade, Telê chegou no dia 12 de outubro daquele ano para se alojar no Estádio do Morumbi. 

Nessa época, o time paulista enfrentava dificuldades no campeonato nacional e ocupava a 15° posição, com atuações que não agradavam os torcedores. Santana então assumiu o cargo, e naquele mesmo ano o São Paulo terminou o Campeonato Brasileiro como vice-campeão.

Esse marco de superação foi apenas o início da trajetória de Telê no tricolor: no ano seguinte, foi campeão brasileiro e paulista. Em entrevista ao Arquibancada, Natália Pereira, torcedora do São Paulo desde a infância, afirma que a imagem do Telê é, até hoje, símbolo de glória entre os técnicos.

Em 1992, o técnico foi novamente campeão estadual e se consagrou também como vencedor da Copa Libertadores. Para completar seu ano vitorioso, Telê alcançou a glória máxima, o título do Mundial de Clubes, vencido sobre o Barcelona de Johan Cruyff. Santana havia sido, enfim, campeão do mundo: o mesmo feito que não conquistou pela Seleção, veio dez anos após a emblemática derrota para a Itália.

Para além dos títulos coletivos, Telê levou o prêmio de Melhor técnico da América do Sul, de 1992.

Em 1993, o glorioso trabalho continuou a dar frutos. O time já vitorioso do São Paulo repetiu feitos históricos e se tornou bicampeão continental e mundial, além de conquistar a Supercopa Libertadores e a Recopa Sul-Americana. 

“Eu considero [Telê] como o maior técnico que o São Paulo já teve, e acredito que a maioria dos torcedores também. Não é à toa que se tornou ídolo e possui uma estátua em sua homenagem no Estádio do Morumbi”

Natália Pereira 

Até os dias atuais, Telê Santana é lembrado como sinônimo de um futebol vitorioso e técnico. Ele é reconhecido pelo seu jeito peculiar de comandar e considerado por muitos como símbolo do futebol-arte, e maior técnico do tricolor paulista.

Legado: O futebol-arte de Telê Santana

Ao longo de toda sua carreira, tanto como jogador, quanto como técnico, Telê estruturou uma forma única de fazer jogo, que se popularizou sob o nome de “futebol-arte”. 

O futebol-arte é o estilo de jogo em que valoriza-se a união das habilidades e da criatividade nos passes: o jogar bonito para ganhar, era isso que o técnico Telê Santana pregava. A presença de dribles, ou seja, toques rápidos e inteligentes era essencial para essa forma de fazer futebol, assim como, para o mestre, era primordial que o jogador tivesse em campo a liberdade para criar. 

Então, ao unir seu estilo de treinamento, intenso e exaustivo, à ideia do jogo bonito, ele se fez precursor do futebol-arte e o aplicou por onde passou. O maior exemplo disso é a Seleção Brasileira de 1982, que mesmo sem ter sido a campeã mundial, exibiu um estilo de jogo artístico e encantador com o trio de meio-campistas Zico, Sócrates e Falcão, tal qual fez o São Paulo, a partir da década de 90. 

“Esse desenvolvimento dele, de você encontrar as peças certas, de você treinar exaustivamente, e de você conseguir fazer um jogo em que o outro também tenha espaço ganhou um grande reconhecimento do público, principalmente dos jornais, foram jornalistas que defenderam essa bandeira no futebol”, comenta Maluly.  

O professor do curso de Jornalismo da USP também ressalta: “Para nós jornalistas, isso valeu como uma experiência maravilhosa. Ter uma bandeira, o esporte, principalmente o futebol, considerado um símbolo da cultura brasileira. (…) Isso está se perdendo com o tempo, mas continuam sendo símbolos”. Ou seja, para além de uma forma de jogo, o futebol-arte torna-se uma forma de expressão cultural do esporte no país. 

Nesse sentido, a visão de Telê Santana ia ainda mais longe: “O Telê era tão acima que ele achava que o jogo era reflexo da sociedade. Se o jogo fosse menos violento, a sociedade seria menos violenta. Era um dos princípios dele”, completa Maluly. As suas ideias ultrapassaram o campo e trouxeram reflexões que influenciavam também a forma de pensar o esporte e a própria sociedade. 

Herança ainda vista em campo 

Em 1996, após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), causado por estresse e diabetes, Telê Santana foi forçado a sair do comando do São Paulo e encerrar sua carreira como técnico. Dez anos depois, ele veio a falecer, em 21 de abril, devido a complicações médicas, provocadas por uma infecção abdominal grave, que evoluiu para uma falência múltipla de órgãos.

Vinte anos após sua morte, o legado de Telê ainda permanece vivo na sociedade e no esporte. A sua metodologia de fazer e entender futebol ainda inspira diversos jogadores e técnicos, como Rogério Ceni, Muricy Ramalho, Zico, Diniz, Vitor Pereira e Abel Ferreira

O técnico mineiro também deixou sua marca no jornalismo brasileiro da atualidade. Por conta da perpetuação do “fazer futebol bonito”, a imprensa ainda cobra dos jogadores e dos treinadores um jogo harmônico, não só técnico. 

“Ele transformou não só o esporte, mas como os jornalistas apresentaram o próprio futebol. (…) Isso é verdade. Ele teve uma influência ali, e ainda tem, porque tem muitos jornalistas que ainda defendem [o futebol bonito]” 

Luciano Maluly

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