Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

‘Todo Mundo em Pânico’: Tem referências para dar e vender, mas humor para sustentá-las nem sempre

Repleto de referências e ideias divertidas, o filme tropeça no próprio excesso, tornando-se progressivamente exaustivo à medida que avança.
por Karl Marx Lamerinha (karl_marx@usp.br)

Após treze anos longe dos cinemas, a franquia Todo Mundo em Pânico retorna aos cinemas com Todo Mundo em Pânico (Scary Movie, 2026) nesta quinta-feira (04). Apostando justamente naquilo que a transformou em um fenômeno dos anos 2000: humor escrachado, sátiras do terror contemporâneo, o longa também marca a volta  dos irmãos Wayans ao comando criativo da série. 

A expectativa não era pequena. Afinal, além do retorno  personagens icônicos da franquia, como (Cindy) e (Brenda), o novo longa surge após uma sequência de filmes que gradualmente desgastou a reputação da franquia, especialmente depois da saída dos Wayans e da recepção amplamente negativa de Todo Mundo em Pânico 5 (Scary Movie 5, 2013).

Mais do que uma simples continuação, Todo Mundo em Pânico (2026) se apresenta como uma tentativa de reconectar a série com suas origens, revisitando a fórmula que consagrou os primeiros capítulos enquanto atualiza seu alvo para os fenômenos recentes do horror. O resultado, porém, é um retorno que encontra momentos genuinamente inspirados, mas que também evidencia as dificuldades de sustentar uma fórmula baseada no excesso.

Com uma abertura um tanto diferente do que se esperaria de um filme da franquia, o longa já apresenta uma de suas características mais recorrentes, a desconexão. Não que houvesse grandes expectativas em torno de seu enredo ou de uma estrutura narrativa particularmente elaborada, afinal, nunca foi esse o principal atrativo da série. Ainda assim, a falta de coesão se torna perceptível desde os primeiros minutos e passa a moldar a experiência do espectador de forma cada vez mais evidente.

Entre Todo Mundo em Pânico 5 e o novo filme passaram-se 13 anos, o maior hiato da história da série. Para comparação, os cinco primeiros filmes foram lançados em um intervalo de apenas 13 anos
[Imagem: Divulgação/Paramount Pictures]

Ao longo do filme, a narrativa parece menos interessada em construir uma progressão consistente e 

mais focada em conectar esquetes, referências e easter eggs isolados. O resultado é uma sensação constante de fragmentação, como se o filme fosse uma coletânea de melhores momentos ou uma sequência de cortes selecionados reunidos sob um mesmo título. Em alguns instantes essa abordagem funciona graças ao carisma das piadas e das referências, mas, à medida que avança, a ausência de uma linha condutora mais sólida torna a experiência progressivamente desgastante.

Em contraponto à sua estrutura fragmentada, o filme encontra alguns de seus momentos mais criativos justamente quando abraça o absurdo. Seja através de sequências em animação 2D, de quebras inesperadas de expectativa ou da exploração das regras particulares de seu universo, onde até mesmo um painel de papel pode gritar ao ser esfaqueado, o longa demonstra uma criatividade visual que, frequentemente, supera sua própria narrativa.

As referências, por sua vez, são o elemento que melhor sustenta a experiência. Entre sátiras ao cinema contemporâneo e piadas que miram temas como racismo, privilégio branco e a chamada “cultura woke“, o filme encontra parte de sua personalidade e de suas melhores risadas. Quando funciona, sua comédia nasce justamente da capacidade de exagerar contradições sociais e transformá-las em situações absurdas.

Entretanto, essa mesma acidez nem sempre encontra equilíbrio. Em diversos momentos, o tom das piadas escorrega para ressentimentos que parecem particulares à própria visão criativa do longa. Em especial, considerando a presença de sequências que parecem menos interessadas em construir humor e mais empenhadas em atacar temas específicos. O resultado são piadas direcionadas ao pronome neutro, à identidade de pessoas trans e a outras pautas contemporâneas que raramente encontram uma construção cômica à altura da provocação que tentam gerar, soando mais amargas do que genuinamente engraçadas.

O longa foi lançado simplesmente como Scary Movie, O próprio Marlon Wayans ator de (Shorty) e um dos roteiristas do filme, definiu o projeto como uma “rebooquel”, uma mistura de reboot (reinício) com sequel (sequência), brincando com a obsessão de Hollywood por reinicializações de franquias
[Imagem: Divulgação/Paramount Pictures]

Quanto aos personagens clássicos, o filme acerta ao preservar grande parte das características que os tornaram marcantes para o público. Cindy, Brenda e os demais continuam reconhecíveis em suas personalidades e dinâmicas, algo essencial para uma produção que depende tanto da nostalgia. 

Ao mesmo tempo, o roteiro se permite introduzir pequenas mudanças em seus comportamentos, evitando que retornem apenas como cópias estáticas de suas versões anteriores. Cindy, por exemplo, assume contornos ainda mais excêntricos e imprevisíveis, quase como uma senhora completamente desajustada, o que rende alguns dos momentos mais divertidos da personagem.

Outra característica particularmente interessante é a forte presença da metalinguagem, elemento que praticamente define a identidade deste novo capítulo. O filme não apenas se recusa a levar a si mesmo a sério, como transforma essa postura em sua principal ferramenta de humor. Em muitos momentos, a sensação é de que a obra está constantemente consciente de sua própria existência, de sua reputação e até das críticas que inevitavelmente receberá.

Embora essa autoconsciência funcione, por vezes, como um escudo contra avaliações mais severas, ela também representa uma das escolhas mais acertadas do longa. É justamente através dela que o universo da franquia ganha mais liberdade para expandir suas próprias regras, brincar com expectativas e inserir participações inesperadas. Entre essas surpresas, a aparição de As Branquelas (White Chicks, 2004) certamente merece destaque, configurando uma das referências mais engraçadas e bem aproveitadas de todo o filme.

No fim das contas, Todo Mundo em Pânico encontra força justamente naquilo que faz de melhor: o absurdo. A criatividade visual, a metalinguagem, os personagens clássicos e a avalanche de referências garantem alguns dos momentos mais divertidos do longa, especialmente quando a comédia se permite explorar as regras malucas de seu próprio universo.

Por outro lado, a falta de coesão entre as cenas impede que o filme construa qualquer ritmo consistente. A sucessão de esquetes, referências e piadas isoladas faz com que a narrativa pareça fragmentada, enquanto a repetição de certas ideias desgasta um humor que funciona melhor no seu uso bem pensado. Soma-se a isso algumas provocações que parecem motivadas mais por ressentimento do que por uma construção cômica realmente eficaz. O resultado é um filme carismático, repleto de boas referências e momentos inspirados, mas que se perde no próprio excesso. Divertido em diversos momentos, porém desconexo, repetitivo e exaustivo demais para sustentar o interesse até seus minutos finais.

Todo Mundo em Pânico: já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer: 

Todo Mundo em Pânico: já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer: 

*Imagem de capa: [Divulgação/Paramount Pictures]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima