Jornalismo Júnior

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A Copa do Mundo mais inovadora da história: os impactos dos avanços tecnológicos no futebol

Entenda como a tecnologia pode contribuir para o desenrolar do Mundial dentro e fora de campo
Duas televisões de gerações diferentes exibem partidas de diferentes Copas do Mundo.
Por Hugo Boff (hugoboff@usp.br)

A Copa do Mundo de 2026 será a primeira edição da história do Mundial a incorporar ferramentas de Inteligência Artificial e conexão 5G. O evento, além de reunir os grandes astros do futebol atual, conta também com uma vasta infraestrutura tecnológica focada na coleta automatizada de dados sobre partidas e atletas.O apelido de “A copa mais moderna de todos os tempos”, atribuído por diversos jornalistas e torcedores ao Mundial, não veio por acaso. A criação de uma rede de conectividade entre diversas ferramentas, como chips na bola utilizada nos jogos, sensores de localização, modelos computadorizados dos atletas, influencia desde a preparação física e tática dos jogadores até a experiência dos telespectadores que assistem de suas casas a bola estufando as redes.

Das pesquisas aos centros de treinamento

A interpretação de dados sobre o desempenho de atletas não é algo único do Mundial, mas a criação de uma ferramenta exclusiva do evento é uma das novidades da FIFA para o campeonato. Criado em parceria com a multinacional chinesa de tecnologia, Lenovo, o Football AI Pro, também chamado de FIFA AI Pro, atua como um assistente virtual de análise pós-jogo, que, a partir do uso de inteligência artificial, é capaz de gerar informações táticas e recomendações estratégicas para a comissão técnica. A plataforma, além de ser capaz de responder perguntas, como “qual é a organização ofensiva desse time”, está disponível para todas as equipes técnicas das seleções participantes, com a intenção de democratizar o acesso aos dados.

De acordo com o professor associado do Departamento de Ciências do Esporte e líder do Laboratório de Biomecânica Aplicada da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Felipe Arruda Moura, a disponibilidade dessas informações contribui em questões táticas, através de dados coletivos, como mapas de calor e número de quebras de linhas defensivas. Além dos aspectos técnicos, Moura também pontua: “[O Football AI Pro] traz uma disputa mais democrática, uma ferramenta que possibilita o acesso à informação de uma maneira igualitária”.

Esquema visual mostra o estudo técnico da movimentação dos jogadores em uma partida de futebol,
A inteligência artificial segue o Football Language Model (Modelo de Linguagem do Futebol) da FIFA e é capaz de avaliar mais de 2000 métricas antes de disponibilizar uma resposta
[Imagem: Reprodução/FIFA]

Outra inovação vinda da união entre a FIFA e a multinacional chinesa de tecnologia que passou a fazer parte da Copa do Mundo foi a criação de avatares 3D de todos os jogadores que estão participando do torneio. Os atletas são escaneados em uma cabine com 36 câmeras. Após a geração dessas imagens, um modelo computacional as une, o que cria um modelo tridimensional fiel às proporções do jogador. Com essa reprodução, é possível substituir a imagem do atleta pelo modelo em lances, como impedimentos duvidosos. Ao invés de analisar a cena capturada pelas câmeras do estádio, o árbitro confere uma imagem computadorizada fiel às medidas de cada atleta, o que torna mais precisa a decisão do juíz.

Em meio a ampliação do uso das tecnologias pela arbitragem na análise de jogadas, jogadores e torcedores criticam certas interferências. Na última quinta-feira (02/07), o jogo entre Croácia e Portugal foi palco para as tensões geradas pelo uso de IA na interpretação de lances. Aos 13 minutos do tempo adicional o croata Josko Gvardiol empatou o jogo, que estava 2×1 para Portugal. Após a marcação do gol, o árbitro assistente de vídeo (VAR) avaliou um toque no croata Igor Matanovic antes da chegada do defensor, o que tornou a posição de seu companheiro irregular.

O toque, ocorrido possivelmente no cabelo do atacante, não pôde ser percebido a olho nu. Apesar disso, o sensor acoplado ao equipamento registrou o contato, o qual, posteriormente, se tornaria responsável por eliminar a Croácia do Mundial.

Sala repleta de luzes de led.
O processo de captura das imagens dos jogadores na cabine dura aproximadamente 90 segundos
[Imagem: Reprodução/FIFA]

Além dessas exclusividades anunciadas para a edição de 2026, outras tecnologias ligadas ao esporte também são amplamente utilizadas pelas delegações. De acordo com Felipe Moura, o calendário corrido dos jogos, o deslocamento entre os 3 países-sede – Canadá, Estados Unidos e México –, a adaptação nos diferentes climas e os fusos horários acarreta o desgaste dos atletas. Na tentativa de evitar tamanho cansaço, ele destaca o uso do rastreamento de atletas, como distâncias percorridas em faixas de velocidade, acelerações, desacelerações e sprints. “E, nas equipes mais avançadas, têm algum tipo de avaliação no âmbito bioquímico, para fazer avaliações de indicadores inflamatórios associados aos treinamentos e carga de treinamento”.

O professor pontua a importância do monitoramento dos atletas no processo de tomada de decisão pela comissão técnica a respeito da carga de treino, repouso e até mesmo afastamento momentâneo de membros da equipe. Segundo ele, além do acompanhamento realizado pelas tecnologias de rastreamento, algumas seleções utilizam questionários para controlar certos parâmetros, como a qualidade de sono e o estado de humor. 

90 minutos de pura tecnologia 

Para garantir o cumprimento das regras durante as partidas, os estádios que  sediam os jogos receberam uma infraestrutura de rastreamento óptico. O sistema integra câmeras que condensam as imagens dos jogadores e da bola em um mapa de coordenadas verticais, horizontais e de profundidade. A partir dessa tecnologia, o VAR recebe a informação exata de quando a bola saiu pelas laterais ou linhas de fundo, o que agiliza a decisão do juíz e a validação de gols.

Vista pela primeira vez na Copa do Catar em 2022, a aplicação de sensores nas bolas que percorrem os gramados também contribui nas tomadas de decisão da arbitragem. Moura explica que a TRIONDA conta com um acelerômetro com um giroscópio capazes de mostrar uma estimativa das acelerações no sentido anterior, posterior, médio, lateral e vertical, além das velocidades angulares e de rotação dessa bola.

Bola de futebol dentro de espaçonave.
A TRIONDA, além de contar com chips e sensores, possui também sistemas de contrapeso, para que a bola não fique desbalanceada durante sua trajetória
[Imagem: Reprodução/Instagram]

Outra ferramenta digital utilizada durante as partidas é o tablet de substituições. Entregue para todas as comissões técnicas e para os diretores de partida, o aparelho importa as escalações dos jogos aproximadamente 90 minutos antes do início das partidas. O técnico e seus auxiliares selecionam na tela os jogadores que desejam substituir. A informação chega via internet ou Bluetooth na máquina do diretor da partida, que confirma a alteração e monta a lista de mudanças.

A corrida contra o tempo

Entre o chute do atacante ao gol e as imagens em alta resolução que chegam nos aparelhos, há um grande percurso de tecnologia. Em entrevista à Jornalismo Júnior, Flávio Menna Barreto – Diretor de operações de tecnologia para produção de conteúdo ao vivo da Warner Bros Discovery Brasil – explica como funciona o processo de transmissão em grandes eventos esportivos. De acordo com ele, a FIFA, através do contrato com a empresa de transmissão Host Broadcast Services (HBS), realiza a cobertura de todos os jogos da Copa do Mundo, de forma padronizada. Durante as partidas, a HBS gera um sinal internacional de transmissão, que será enviado para todas as companhias de telecomunicações que adquiriram os direitos de reprodução.

Após a produção desse sinal, as informações são enviadas para um centro de tratamento chamado de Centro Internacional de Transmissão, localizado em Dallas, Texas. Nesse espaço as empresas detentoras dos direitos de exibição, em conjunto com a infraestrutura da HBS, integram o sinal internacional recebido ao sinal exclusivo, que contém conteúdos produzidos pelas próprias emissoras, como narrações, imagens câmeras exclusivas, efeitos sonoros e ícones de computação gráfica. Com essa união estabelecida, as informações em áudio e vídeo atravessam o mundo por redes de fibra óptica até chegarem nos países em que serão transmitidas.

Imagem da fachada de uma grande construção.
As instalações de mais de 45.000 metros quadrados do Centro de Convenções Kay Bailey Hutchison foram escolhidas como sede do Centro Internacional de Transmissão
[Imagem: Reprodução/Site oficial do CCKBH]

Além da repercussão dos jogos, a luta contra o delay e a disputa por velocidade entre a CazéTV e a Rede Globo entretém os torcedores. Flávio Barreto alega que o atraso observado na cobertura realizada pelo YouTube ocorre por conta da maneira como os conteúdos viajam até as os aparelhos. O diretor de operações pontua que o sinal integrado da TV aberta é difundido pelo Brasil através de ondas eletromagnéticas. Esses dados são enviados para satélites e distribuídos via antenas em poucos segundos. Enquanto isso, a transmissão realizada pela internet ocorre a partir de servidores, de modo que quanto mais densa a transmissão, mais banda larga de internet é consumida. O resultado disso é a lentidão na chegada do conteúdo.

“Se tiver 1 pessoa assistindo ou 10 milhões acompanhando pela TV aberta, a infraestrutura é a mesma. Já na Cazé TV, para cada pessoa adicional que está simultaneamente assistindo a uma transmissão tem-se o custo incremental do consumo de recursos de processamento de dados”, adiciona Flávio Barreto.

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