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“Há algo de novo no front?”: A evolução do cinema de guerra ao longo da história

As guerras são temáticas no cinema desde o primeiro Oscar, passando pela mão de grandes cineastas, que por suas histórias pessoais e no impacto dos conflitos em suas vidas, moldaram os imaginários históricos da sociedade.
Por Guilherme Hofer (guihofer@usp.br)

O primeiro filme da história a vencer o principal prêmio da noite, o título de “Melhor Filme”, no Oscar, em 1929, foi um filme de guerra chamado Asas (Wings, 1927). Dois anos depois, outro longa baseado nos horrores da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) leva o troféu de Melhor Filme: Nada de Novo no Front (All Quiet in The Western Front, 1930), baseado no livro de mesmo nome, Nada de Novo no Front (José Olympio, 1954).

Com o tempo, essa abordagem se tornou um gênero consolidado do cinema muito presente até hoje, independente de qual conflito aborde. Obras como 1917 (2019), Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016), Oppenheimer (2023), Zona de Interesse (Zone of Interest, 2023), Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017) e até as outras adaptações de Nada de Novo no Front, uma de 1979 e a mais recente de 2022, revelam como essas histórias ainda apresentam grande apelo popular.

Em suas diferentes formas, o cinema de guerra e seu papel social esbarram na discussão sobre sua representação. Filmes que abordam conflitos armados são envoltos pela divergência entre a denúncia e a promoção desses conflitos. 

Na 1ª edição do Oscar, a categoria que existe hoje de Melhor Filme era dividida em duas: Melhor Produção, a qual Asas venceu e é considerada a oficial até hoje pela Academia, e Melhor Qualidade Artística de Produção, título de Aurora (Sunrise, 1927)
[Imagens: Reprodução/Wikimedia Commons]

O cinema de Guerra como propaganda

A existência ou não de um cinema anti-guerra é discutível, mas o seu oposto, uma cinematografia que busca alcançar o apoio da população para a existência do conflito, é fato e tem nome: o cinema de propaganda. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tanto os países do Eixo (Japão, Alemanha e Itália), quanto os Aliados (Reino Unido, EUA, URSS, China e França) viam no cinema uma ferramenta importante para dispersarem seus ideais. 

Em 1933, ano do início do regime nazista na Alemanha, a UFA, principal estúdio de cinema do país na época demite todos os seus funcionários judeus. Alguns anos depois, em 1937, a companhia é estatizada sob o comando do Ministério de Propaganda e em 1940, o ministro Joseph Goebbels já tinha formado um monopólio com todas as produtoras de cinema que aceitaram colaborar com o regime, como Terra e Bavária. Já as outras empresas foram extintas. Tal controle do mercado cinematográfico local possibilitou ao regime o lançamento de diversos filmes com o intuito de introduzir na população os ideais nazistas.

No mesmo ano, são lançados dois filmes que escancararam completamente a ideologia antissemita: O Judeu Suss (Jud Süß, 1940), uma pretensa biografia do banqueiro Joseph Süss Oppenheimer (Ferdinand Marian), e O Eterno Judeu (Der Ewige Jude, 1940), um suposto documentário que compara os judeus a ratos e apresenta um discurso de Adolf Hitler no qual ele alega que o povo semita causaria uma nova guerra mundial e seria aniquilado como consequência. O primeiro longa teve grande público na Alemanha, diferente do segundo, que foi recebido como pesado demais. 

Cartaz de O Judeu Süss, produzido pelo estúdio Terra [Imagem:Reprodução/IMDb]

Após esse episódio, o cinema alemão passa a dar preferência para comédias e melodramas que continham em pequenas doses a ideologia nazista. Em Amar é Perdoar (Opfergang, 1944), é contada a história de um homem casado que se apaixona por uma mulher judia, que o induz a cometer adultério. No entanto, ela tinha tifo e transmite a doença ao homem antes de morrer, mas não sem ser cuidada pela esposa traída, a qual seria um exemplo da moral alemã.

Outro exemplo é A Mulher dos Meus Sonhos (Die Frau meiner Traüme, 1944) que busca fugir do cenário de guerra ao apresentar uma Hamburgo preservada, mesmo com os bombardeios na vida real. Apesar do escapismo, o regime conseguia apresentar suas versões dos fatos a partir das Wochenschauen, as notícias da semana, com alto teor ideológico, apresentadas previamente em todas as sessões.

Adolf Hitler, Goebbels e outros assistindo a uma projeção na UFA [Imagem: Reprodução/Wikipedia]

Já entre os Aliados, houve grande dedicação ao mostrar como a ideologia nazista era opressora e criminosa. Entre os colaboradores deste cinema de propaganda estavam Walt Disney, criador do Walt Disney Studios, e o cineasta Frank Capra. O animador realizou diversos curtas que denunciavam a ideologia nazista, como A Face do Füher (Der Füher Face, 1943), no qual Pato Donald (Clarence Nash) tem um pesadelo em que trabalha em uma fábrica de munições nazista ou As Crianças de Hitler – A Educação para Morte (The Hitler’s Children – Education for Death, 1943), que mostra a criação de um menino alemão até se tornar um soldado do Eixo. 

Pato Donald em A Face do Füher
[Imagem: Reprodução/Universo HQ]

Além disso, foram realizados longas para incentivar o apoio latino aos Aliados durante a guerra, como parte da Política de Boa Vizinhança, medida de relações exteriores adotada desde antes do início do conflito pelo governo de Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA à época, em resposta à Grande Depressão. Ela buscava manter a influência americana no sul do continente de maneira indireta, sobretudo cultural e economicamente.

Em visita à América do Sul, inclusive ao Brasil, Walt Disney cria o Zé Carioca, um papagaio simpático e esperto que representava o típico “jeitinho brasileiro”. A viagem culmina no lançamento de Alô Amigos (Saludos, Amigos, 1942), longa dividido em curtas, um para cada país da América do Sul representado.

No Peru, Pato Donald conhece mais da cultura inca, em uma representação um tanto estereotipada; Segue-se com Pedro, um avião que passa por desafios aos sobrevoar a Cordilheira dos Andes chilena; na Argentina, Pateta (Pinto Colvig) percebe como os caubóis americanos e os gaúchos têm muito em comum e no Brasil, a clássica sequência de Zé Carioca (José do Patrocínio Oliveira) e Pato Donald passeando pelo Rio de Janeiro ao som de Aquarela do Brasil de Ary Barroso.

Dois anos depois estreava Você Já Foi à Bahia? (The Three Caballeros, 1944),  uma narrativa mais linear, com Zé Carioca e Panchito Pistoles (Joaquin Garay), um galo mexicano, comemorando o aniversário do pato americano, em mais uma tentativa de mostrar as similaridades dos países das Américas.

Cartaz de Alô Amigos com Zé Carioca e Pato Donald [Imagem: Reprodução/Revista Recreio]

Enquanto isso, Capra, o diretor clássico de A Felicidade Não se Compra (It’s a Wonderful Life, 1946), produziu uma série documental em sete episódios chamada Porque Nós Lutamos (Why We Fight, 1942-1945). Em um dos capítulos, a série buscava apresentar o poderio bélico soviético em defesa dos nazistas. Além de representar o povo russo como amante da liberdade, associando-o aos americanos. A produção tinha o intuito de acomodar o público estadunidense com a aliança com a União Soviética naquele período, que era vista com temor por conta da ideologia socialista do país.

Cartaz do documentário Batalha da Rússia da série Porque Nós Lutamos [Imagem:Reprodução/IMDb]

É um erro, no entanto, pensar que o cinema de propaganda é uma invenção da Segunda Guerra. É o que explica Livia Claro, doutoranda em História Social pela UFRJ, que destaca registros desde a Primeira Guerra Mundial: “O cinema já era utilizado como material de propaganda para as pessoas terem acesso, principalmente nos países neutros, a essas batalhas e aos acontecimentos. Então antes mesmo de Hollywood, dos filmes mais grandiosos, o cinema já tinha esse papel de criar experiências nas pessoas a respeito da guerra.” 

Isso é visto em produções como Batalha de Somme (The Battle of Somme, 1916), uma mistura de documentário com encenações, filmado grande parte em campo de batalha, pelos fotógrafos Geoffrey Malins e John Mcdowell. Na época, o longa foi importante para criar na população inglesa o imaginário das trincheiras e até hoje representa um grande acervo histórico da guerra. 

John McDowelldurante a 1ª Guerra Mundial
[Imagem: Reprodução/Fascinating Facts About Great War]

Segundo Claro, a produção também incentivou a participação dos EUA, que se classificava como país neutro. Essa experimentação foi essencial para que no pós-guerra fosse possível a realização de filmes ficcionais sobre o conflito.

Geoffrey Malins durante a 1ª Guerra Mundial
[Imagem: Reprodução/Kathryn’s History Blog]

Asas e Nada de Novo no Front: dois retratos de uma mesma guerra no entreguerras

Nada de Novo no Front, do diretor Lewis Milestone e Asas, de William A. Wellman e Harry D’Abbadie D’Arrast são raros exemplos na cinematografia sobre guerras: são abordagens da Primeira Guerra Mundial, feitas em um período anterior à Segunda Guerra Mundial. Os filmes abordam um conflito ainda muito recente na vida das pessoas, possibilitando visões historicamente únicas. “As pessoas tendem a ver um filme com uma ideia de documentário […], uma reprodução real, fidedigna daquela época.’, explica Lívia Claro. “Às vezes os filmes tratam mais sobre o período em que eles foram feitos, do que o período que eles pretendem retratar”, destaca.  

Em Asas, Jack (Charles Buddy Rogers) e Mary (Clara Bow) são amigos desde a infância. O rapaz sonha em se tornar aviador enquanto a garota deseja se casar com ele. Quando Sylvia (Jobyna Ralston) se muda de uma cidade vizinha, Jack se encanta por ela, mas logo David (Richard Arlen), o jovem da família mais rica da cidade começa a namorar com a recém-chegada. 

Os dois homens se alistam voluntariamente à guerra para participar do batalhão de aviação – coisa que o diretor do filme, A. Wellman, fez na vida real, quando entrou na Esquadrilha Lafayette, unidade francesa mas que compunha majoritariamente voluntários americanos. Mary, também entra na campanha ao se voluntariar como motorista. 

Assim, o filme estabelece seu intuito, a valorização desses que participaram da guerra em um retrato de heroísmo. Entre batalhas áreas e promessas de volta para casa, o longa se dedica a essa representação, mas foca principalmente nas dinâmicas pessoais entre os personagens. 

Antes de um último combate, Jack e David brigam por conta de Sylvia e assim, saem em seus aviões. De uma forma trágica e em uma cena emocionante, o personagem de Arlen morre e Jack volta para casa traumatizado. O filme encerra triste mas ainda assim existe perspectiva, o rapaz é um herói celebrado pela cidade e finalmente percebe que Mary é o verdadeiro amor da sua vida. Em Asas, a guerra de diversas formas é uma interrupção na vida desses personagens, que provavelmente viveriam uma comédia romântica clássica, se não fosse pelos males do conflito. 

A perspectiva sincera, mas ainda com traços de aventura representa um exemplo de um tipo de narrativa hollywoodiana de ação em seu início, que desenvolve às relações entre os personagens e seus conflitos, colocando nesse caso, a guerra e a aviação como contextos. O estilo também possibilita a criação de cenas técnicamente memoráveis. Em Asas, todas as cenas de voo foram feitas de verdade, o que exigiu tempo de produção, já que era necessário um céu em condições para as gravações. 

Esse primor de efeitos visuais, com roteiros baseados nesse tipo de dilema de amizade e lealdade é visível em obras como a saga Top Gun (Top Gun, 1986 e Top Gun: Maverick, 2022) e Pearl Harbor (2001)
[Imagem:Reprodução/Youtube/@obaudeantiguidades]

Já em Nada de Novo no Front, baseado no livro do veterano alemão Erich Maria Remarque e dirigido por um cineasta russo de família judia, é difícil discernir no início qual dos rapazes é o protagonista. Todos são jovens alunos que, influenciados por um professor, se alistam à guerra. 

No início, ainda fazem pegadinhas com o comandante e se gabam de um coturno mais bonito, mas quando chegam ao campo de batalha percebem que  a guerra não era nem um pouco como imaginavam. Sentem fome, perdem os amigos, têm de matar pessoas que nunca viram na vida e, se voltam para casa, se deparam com o mesmo incentivo a meninos ainda mais jovens entrarem na guerra. Não existe alívio nesse retorno, não é o mesmo lugar, não são os mesmos homens e o conflito continua. O filme é profundo ao mostrar a desumanização que uma guerra traz e um dos clássicos longas pacifistas da história.

A introdução do filme diz: “Esta história vai somente tentar contar sobre uma geração de homens que por mais que tenham escapado de suas granadas, foram destruídos pela guerra”
[Imagem: Reprodução/Café História]

Em uma cena do filme, os soldados discutem quem começou a guerra, um deles cita que é como uma febre, que ninguém a quer em particular, mas quando se vê, ela já está lá, espalhada pelo corpo todo. A professora Claro, que estuda o papel dos intelectuais na promoção de uma guerra, em sua perspectiva destaca as “culturas de guerra”, conceito dos historiadores franceses Stéphane Audoin-Rouzeau e Annette Becker. 

Segundo eles, para que a guerra aconteça é necessário um ciclo de legitimação da violência que vai dos governos até as pessoas, se retroalimentando. Nesse processo, além da propaganda, jornalistas, escritores e inclusive professores, funcionam como mediadores desse convencimento popular.

 “O convencimento dessa população para ir pro front foi muito importante por ação desses intelectuais, [que agiam] não só pelo convencimento da população, mas também por convicção, porque eles também faziam parte dessa cultura. [Garantiram] o apoio aos governos beligerantes, para evitar dissidentes dentro do país, calando vozes pacifistas, que eram contrárias à guerra. [Como] partidos políticos que se colocavam contra o conflito.”

– Lívia Claro, doutoranda em História Social pela UFRJ

Sobre a influência das culturas de guerra no afastamento das relações das pessoas durante um conflito, a professora Claro indica o filme Frantz (2016), sobre Anna (Paula Beer), uma jovem alemã que sempre vai ao túmulo do noivo falecido durante a 1ª Guerra Mundial quando um dia encontra um amigo do antigo companheiro também indo visitá-lo. Também destaca o impacto dessa política em nações que eram colônias na época e enviaram forçadamente seus soldados para o front, como o caso do Senegal, que era território francês e é representado no filme Herói de Sangue (Tirailleurs, 2022) sobre um pai que se alista para ir lutar no país para não se separar do filho que foi obrigado a lutar na guerra.

Quando Nada de Novo no Front  foi lançado na Alemanha, o longa foi proibido por conta de manifestações do partido nazista, que diziam que o filme feria a honra dos soldados alemães. O que demonstra que o objetivo do filme de se aprofundar em um tópico ainda muito latente e de muita divergência no mundo e na Alemanha dos anos 30, foi alcançado. Apresentando-o por meio de uma visão que com certeza não era compactuante com o regime nazista que estava prestes a se estabelecer no país.

Polícia protege cinema que passava Nada de Novo no Front de protestos nazistas em Berlim
[Imagem: Reprodução/Café História]

Abordagens mais recentes

Durante o lançamento de O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998), o diretor Steven Spielberg disse ao canal ABC: “tinham muitas pessoas que lutaram nessa guerra querendo que eu pessoalmente contasse essa história do jeito que eles vivenciaram a guerra, não da forma que Hollywood nos contou ou nos informou sobre o que era o combate. Houveram poucos filmes que eram realmente sobre o combate, um deles foi Platoon (1986) e o outro Nada de Novo no Front do diretor Lewis Milestone.”

Spielberg no set de O Resgate do Soldado Ryan
[Imagem:Reprodução/Reddit/@u/dmclgt]

O longa de Spielberg marcou a história do cinema por sua abordagem extremamente realista da 2ª Guerra Mundial, muito lembrado pela cena inicial, na qual os soldados desembarcam na praia de Omaha, na Normandia, no dia D. A câmera em constante movimento e tremendo como se fosse um soldado gravando dá uma sensação de quase documentário. Tal qual 1917, em que o diretor Sam Mendes e o diretor de fotografia Roger Deakins queriam que o filme parecesse ter sido gravado em um único take, o que exigiu muitos ensaios e estratégias para que os poucos cortes dos grandes planos-sequência do filme fossem quase imperceptíveis.

Mesmo apresentando mensagem patriota, O Resgate reforça a tragédia de uma guerra e como em meio a ela é quase impossível valorizar os direitos de todos, já que todos ali, não só Ryan (Matt Damon), tinham família para voltar. Até o Último Homem, é outro exemplo de longa que também desenvolve como a guerra dificulta a manutenção dos seus valores, já que nele o Soldado Doss (Andrew Garfield), por ser adventista, se recusa a pegar em armas no campo de batalha.

O diretor de Platoon, Oliver Stone, também participou do conflito abordado em seu longa: a Guerra do Vietnã que, talvez mais do que as guerras mundiais, tenha mostrado aos EUA a crueldade e a inutilidade dessas campanhas com seus quase 20 anos de duração em um cenário de Guerra Fria. O longa foi feito em resposta a Os Boinas-Verdes (The Green Berets, 1968) que exaltava as missões no país asiático. Feitas na busca de impedir uma tomada socialista pelo Vietnã do Norte, em apoio ao Vietnã do Sul.

Oliver Stone no Vietnã
[Imagem: Reprodução/Reddit/@r/MovieDetails]

Sem patriotismo, mostrando o uso de entorpecentes pelos soldados, os crimes contra os vietnamitas e a desilusão completa do protagonista Chris Taylor (Charlie Sheen), Platoon é um reflexo tão traumático para os americanos quanto Nada de Novo é para os alemães. O choque no cinema americano foi tanto que, em menos de 10 anos, foram lançados Apocalypse Now (1979), e Nascido para Matar (Full Metal Jacket, 1987).

Os três filmes, de modos diferentes, abordam a violência contra civis e as consequências psicológicas da guerra nos soldados. Em Apocalypse Now, a narrativa do diretor Francis Ford Coppola segue o capitão Willard (Martin Sheen), que é enviado ao Vietnã para encontrar e eliminar o Coronel Kurtz (Marlon Brando), que enlouqueceu em meio ao conflito. O filme compara os ditos vietnamitas selvagens com aqueles que realmente foram transformados em animais pela guerra.

Nascido Para Matar, do cineasta Stanley Kubrick, também faz uma forte crítica à desumanização causada desde o treinamento, que torna jovens capazes de matar, seja pelo medo de ser morto antes ou por um prazer violento assustador. Quem não se encaixa nessa forma, também sucumbe à loucura.

Tais filmes surgiram nos Estados Unidos após um período de silêncio auto-imposto, denominado Vietnamnésia ou Síndrome do Vietnã. Seja na mídia, na cultura, na academia e principalmente pelo governo, repensar o conflito era ainda um exercício muito traumático. Esse momento é consequência de uma ampla exposição televisiva do conflito enquanto ele acontecia, que gerou na opinião pública uma colossal reprovação. No fim dos anos 70, com o começo de um revisionismo, longas críticos e pessoais sobre a guerra servem para dar voz a esses veteranos que voltam como desajustados sociais e também expõe a inutilidade de um conflito extremamente longo que deixou muitas vítimas, devastando o Vietnã.

A jornada narrativa do protagonista em Platoon é construída através da disputa de valores entre os sargentos Elias (Willem Dafoe), que defende os civis vietnamitas, e Barnes (Tom Berenger), que violentamente enxerga todos como inimigos
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Existem ainda filmes que abordam a guerra mas de outras perspectivas. Obras muito sensíveis e tão impactantes quanto as presentes nos campos de batalha homenageiam outras vítimas além dos soldados.

A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) conta todo o processo de perseguição contra os judeus durante a 2ª Guerra Mundial a partir da perspectiva de um empresário alemão que quer salvá-los; A Vida É Bela (La Vita è Bella, 1997); sobre Guido (Roberto Benigni), um vendedor de livros ítalo-judeu, que ao ser levado para o campo de concentração junto com a sua família faz de tudo para convencer o filho de que é tudo uma brincadeira e O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka, 1988), uma animação sobre dois irmãos recém-órfãos, Seita (Tsutomu Tatsumi) e Setsuko (Ayano Shiraishi), tentando sobreviver em meio a um Japão dos anos 40 assolado pela fome, por bombardeios e pela desesperança causada pela guerra.

As três histórias refletem muito das vidas de seus criadores. Steven Spielberg, diretor de A Lista de Schindler, é judeu e dedicou grande parte da sua carreira à preservação da memória do Holocausto, inclusive criando a fundação UFC Shoah.  O pai de Roberto Benigni, diretor de A Vida é Bela, Luigi Benigni, passou dois anos em um campo de concentração e tomava a mesma atitude do protagonista do longa: contar sua história aos filhos como se fosse algo leve, para protegê-los. Akiyuki Nosaka, roteirista original de O Túmulo dos Vagalumes, perdeu o pai adotivo e logo depois a irmã após os bombardeios na cidade de Kōbe, em 1945.

Nosaka escreveu o livro semi-autobiográfico, Hotaru no Haka (Bungei Shunjū, 1967) que baseou a adaptação do Studio Ghibli
[Imagem: Reprodução/Studio Ghibli Brasil]

As biografias políticas também são interessantes pois remontam contextos históricos e dão uma perspectiva dos bastidores de uma guerra, do que é feito para acabar com ela de uma vez ou para gerar ainda mais conflito. Destino de Uma Nação (The Darkest Hour, 2017), por exemplo, mostra como a decisão do primeiro-ministro inglês Winston Churchill (Gary Oldman) de não negociar acordos de paz com a Alemanha nazista influenciou no resgate de mais de 330 mil soldados entre aproximadamente 400 mil que estavam encurralados em Dunkirk na França, e muito provavelmente impediu que Hitler ganhasse a guerra em 1940. 

Oppenheimer (2023), ao contar a vida do criador da bomba atômica, Robert Oppenheimer (Cillian Murphy), destaca seu conflito entre a grandeza de seu trabalho como cientista desenvolvido no Projeto Manhattan e a culpa por um dos acontecimentos mais tenebrosos da Segunda Guerra Mundial – os ataques às cidades japonesas de Hiroshima e Nagazaki. Ambos sendo retratos da responsabilidade de quem está de fora em uma guerra e detém o poder sobre a vida de milhares de soldados e civis. 

“Eu não queria matar você. Eu tentei manter a sua vida. Se você pulasse aqui de novo eu não faria o mesmo. Quando você pulou aqui você era meu inimigo e eu tive medo de você, mas você é um homem como eu e eu matei você. Perdoe-me camarada, diga isso pra mim, diga que me perdoa! Oh, não, você está morto.”

– Paul (Lew Ayres), Nada de Novo no Front.

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