Por Guilherme Hofer (guihofer@usp.br)
Para a longevidade de toda grande saga, seja ela de filmes, quadrinhos ou séries é muito interessante que existam obras que funcionem como gancho ou porta de entrada que apresentem esse universo a novos telespectadores. O Mandaloriano e Grogu (The Mandalorian and Grogu, 2026), o mais recente filme da franquia Star Wars desde o episódio IX, Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX – The Rise of The Skywalker, 2019), a princípio não parece um longa que se encaixe nessa descrição.
O Mandaloriano e Grogu além de ser um derivado da saga de filmes, é a continuação da série O Mandaloriano (The Mandalorian, 2019-2023). No entanto, felizmente, a produção dirigida por Jon Favreau, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta (21), é um bom convite para todos que queiram adentrar nesta galáxia pela primeira vez, além de uma divertida aventura para os fãs de muito tempo.
O longa inicia sem dedicar-se muito as explicações de quem são os personagens, o que é Império ou Nova República. Até o clássico letreiro da saga, aqui é bem curtinho. Basta saber que o Mando (Pedro Pascal) e seu companheiro Grogu, que trabalham para a Aliança Rebelde da República, estão atrás de um comandante secreto do Império. Para cumprir a missão, eles precisarão resgatar Rotta (Jeremy Allen White), um hutt desaparecido.
De qualquer forma, mesmo que a princípio soe complexo, e algumas tramas em Star Wars realmente são (principalmente na trilogia I, II, III), neste filme, o telespectador é incluído na história de maneira muito fluida, por meio de um roteiro que trabalha essa necessidade de contexto de maneira prática e natural, sem que isso seja necessariamente colocado na boca de um personagem, a menos que realmente faça sentido no diálogo.
O trecho inicial é um exemplo: em uma rápida sequência de ação, na qual Mando interrompe uma reunião de um agente do Império aleatório e o prende, é possível entender o ofício do protagonista, seus inimigos e para quem ele trabalha. Ao também não resgatar arcos antigos da série, o longa cria uma trama nova, a qual não exige que se tenha assistido a outras produções prévias, diferentemente de outros spin-offs da saga, como Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016), por exemplo.
Antes de ser confirmada a realização do filme, esta história seria o mote para a realização da 4ª temporada da série, que foi então adaptada para as telonas. No entanto, as características episódicas ainda permanecem no filme: são um pouco perceptíveis os ganchos que de início seriam para dividir um episódio e outro. Isso faz com que o filme perca um pouco do ritmo no fim do 1º ato, já que, na resolução dessa parte da história soa muito fácil alcançar alguns objetivos, por meio de algumas facilitações de roteiro. Mas isso acontece para que o longa chegue na parte que realmente interessa: os desafios de verdade que Mando e Grogu enfrentarão para continuarem juntos.

[Imagem: Reprodução/Empire]
O decorrer da história é cativante. Os personagens dividem o protagonismo de maneira singular, pois é justamente ao serem obrigados a se separar que a vulnerabilidade de Mando é demonstrada e Grogu deixa de ser simplesmente um mascote fofo com o qual interagem.
É a partir desse ponto que o coração do filme se forma: a reciprocidade na relação dos dois, como há a natural troca de papéis nesse vínculo de cuidado. A força dessa mensagem é um mérito do roteiro, pois criar essa relação entre “pai” e “filho”, em que o primeiro passa o filme quase todo de capacete e outro é um boneco, é um desafio cumprido com muito respeito a esses personagens, sem cair no lugar-comum. É a partir dessa mensagem que o filme ganha muita força emocional e criativa, permitindo que diferentes desafios sejam enfrentados.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
Outro destaque é a predileção pelo uso de efeitos práticos na manipulação de Grogu e outros personagens, o que torna tudo muito mais real, evocando o jeito dos Ewoks de Star Wars: Episódio VI – O Retorno do Jedi (Star Wars: Episode VI: Return of the Jedi, 1983) e do próprio mestre Yoda. Existe um trabalho de direção de arte muito bem feito, pois até quando o Grogu mexe na grama, ela é sintética, mas tátil, assim como ele. A execução não é simplesmente digital, mas pensada de acordo com o personagem e o cenário, se inspirando no histórico da franquia.
No entanto, um uso de efeitos especiais não prático que auxilia na imersão neste universo é a tecnologia StageCraft, desenvolvida pela Industrial Light and Magic, empresa de efeitos especiais da Lucasfilm, um conjunto de telões de LED que recobre o set mostrando o cenário desejado enquanto se grava.
O StageCraft permite que o ator veja o local onde ocorre aquela cena, o que não acontece quando se usam as telas verdes ou azuis convencionais. A qualidade da imagem é impressionante e causa uma sensação de realidade muito forte.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
É perceptível, tanto na direção de arte, assinada pelos veteranos na franquia Doug Chiang e Andrew L. Jones, como no roteiro, de Jon Favreau e Dave Filoni, um entendimento do quanto esse universo é vasto e muito querido pelos fãs. Há sempre uma proposta criativa de imersão nesses mundos, desde a urbana lua de Shakari, quase como uma metrópole da Terra, com arranha-céus e metrôs, até o pantanoso planeta Nal Hutta.
A responsabilidade de adicionar histórias a esta galáxia imensa é enorme, mas nesse caso, a experiência joga a favor deles. Filoni, que criou junto com George Lucas a elogiada série animada Star Wars: a Guerra dos Clones (2009-2014;2020), desenvolveu junto com o diretor o planeta Nal Hutta na época, mas Shakari e suas luas são uma adição totalmente nova ao cânone e inovadora justamente por essa estética da lua apresentada em alienígenas vivem em uma grande cidade aparentemente terráquea, algo que é visto em outras obras espaciais também, como na trilogia Guardiões da Galáxia.

Nas referências as obras passadas, o filme também acerta na sutileza, como a própria mensagem do filme, que é uma adição ao que já foi construído nas outras temporadas, ou a fala de um personagem que ao conversar com Grogu, alude a um texto do mestre Yoda. Em todo esse contexto, ocorre uma bela homenagem, que com certeza fará o fã se emocionar e é relevante o suficiente dentro da narrativa para que a criança que gostou e vá conhecer os outros filmes, se lembre de Mandaloriano e Grogu ao assistir a Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca (Star Wars: Episode V – The Empire Strikes Back, 1980).
Tudo sempre ministrado pela trilha brilhante do Ludwig Göransson que, na série, já herdava essa difícil responsabilidade de assumir a música de um universo como Star Wars, composta nos outros filmes pelo grande John Williams. O resultado é incrivelmente familiar aos ouvidos, mas ainda assim muito original e criativa.
Outra característica interessante para os novos fãs do universo é a agilidade deste filme se comparado a trilogia clássica, por exemplo, já que em O Mandaloriano e Grogu a história é contada em um único filme. Mas essa dinâmica no roteiro advém principalmente da própria série pregressa e de Star Wars: A Guerra dos Clones.
Se provando uma aventura divertida, cheia de ação e emocionante, O Mandaloriano e Grogu, apesar de alguns empecilhos no início para alcançar a velocidade da luz, é a prova de que Star Wars ainda tem muito a explorar, em um chamado às novas gerações para se juntar a Aliança Rebelde nesta longa batalha contra o Império.

O Mandaloriano e Grogu já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem da Capa: [Reprodução/TMDB]
