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São Paulo Innovation Week | O futuro dos combustíveis avançados no Brasil

No último dia de SPIW, a discussão sobre transição energética e descarbonização enfatizou o protagonismo do Brasil nos processos
Foto mostra três pessoas em palco falando sobre transição energética.
Por Cecília Barros (ceciliaabarros@usp.br) e Thaís Vicari (thais.vicari@usp.br)

Na última sexta-feira (15) aconteceu o terceiro e último dia do São Paulo Innovation Week (SPIW), festival que reúne ciência, tecnologia, educação, cultura e empreendedorismo em painéis e ativações que conectam líderes, pensadores, jovens e startups através da troca de ideias e experiências. 

Entre os destaques do último dia do festival, esteve a palestra sobre combustíveis avançados ministrada por Raphaella Gomes, CEO da New Gaia, Alessandro Gardemann, CEO e fundador da Geo bio gas&carbon, e Mauro Andrade, diretor executivo de novos negócios da Prumo Logística.

O trio debateu a respeito da importância de uma transição energética para assuntos além da preservação do meio ambiente, focando também em questões sobre segurança energética, competitividade e soberania.

O Brasil no cenário

O Brasil é o único país no mundo que possui 50% de sua matriz energética sendo renovável – número que cresce para  88% se tratando da matriz elétrica, segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) de 2025, publicado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) – enquanto a média mundial das matrizes que aproveitam a energia renovável não passa de 15%. Além disso, possui grande disponibilidade para a produção de biomassa, fatores que o tornam importante na discussão sobre transição energética.

“O Brasil se encontra hoje no patamar em que os outros países desejam alcançar em 2030. Nessa área não somos coadjuvantes, somos líderes. O Século XXI será movido por moléculas verdes, grande parte ‘made in Brasil’.”

Mauro Andrade,  mediador da palestra

Mesmo com tamanho potencial energético, o Brasil ainda depende da importação de combustíveis fósseis, o que contribui para a perpetuação dos ambientes poluídos e ao estado de dependência internacional, fatores que geram gastos elevados. Os palestrantes enfatizaram como no contexto atual, de tensões geopolíticas, esses custos se tornam ainda maiores, com efeito no bolso da população, além do risco de uma crise de segurança energética à espreita. A transformação de todos os sistemas de energia é cada vez mais necessária para diminuir a dependência e garantir a segurança energética, como defendeu Alessandro Gardemann, principalmente se tratando do Brasil, país que possui as fontes e as tecnologias, mas carece do investimento público. 

As possíveis soluções

“Eletrificação é uma boa solução para várias coisas. Não é a solução para tudo”

Raphaella Gomes, CEO da New Gaia

Apesar da crescente popularização da eletrificação como principal substituto aos combustíveis fósseis, Gomes afirma que essa é uma medida parcialmente eficiente a curto prazo: atende as demandas de transportes leves e voos curtos, mas não o transporte pesado, que atualmente utiliza o biometano no lugar do diesel. Todavia, para a especialista, o grande problema está nos transportes de grandes distâncias, o aéreo e o marítimo, que ainda não possuem soluções a médio e longo prazo bem definidas. Como medida imediata, o caminho encontrado foi a  produção de combustíveis por meio da hidrogenação de óleos vegetais

Alessandro ressalta que na busca por alternativas, é importante levar em conta o custo de cada uma delas, o nível de descarbonização e a Análise de Ciclo de Vida (ACV), que analisa todas as etapas da produção, ao avaliar custos, impactos e comparar o desempenho ambiental dos produtos. “Não podemos criar políticas de subsídios que criem indústrias que aumentem as emissões, temos que criá-las baseadas em ciência, em análise de dados”, afirmou.

Para Raphaella Gomes, a maior dificuldade encontrada no estabelecimento de novas alternativas energéticas é a infraestrutura, que também precisa ser modificada. A indústria do petróleo e dos combustíveis fósseis é antiga e impacta a economia global como um todo. Em 2025, a produção de petróleo e gás natural bateu recordes históricos no Brasil, segundo o Boletim da Produção de Petróleo e Gás Natural. Nesse cenário, desenvolver uma infraestrutura que torne viável a produção e a distribuição de fontes alternativas de combustíveis não só demanda tempo e dinheiro, como também desafia esse sistema já estabelecido.

A palestrante afirma que o Brasil tem vantagens por possuir grande matriz energética e por ter acesso a grandes quantidades de biomassa, e por isso, já desenvolve alternativas bem sucedidas como o etanol, que demonstra uma integração energia-agro que é única e inovadora.  

“O mundo precisa da solução brasileira para fazer uma transição energética que funcione” 

Alessandro Gardemann, CEO e fundador da Geo bio gas&carbon 

Gardemann defende que para garantir o protagonismo brasileiro é necessário o desenvolvimento de uma infraestrutura que torne viável a produção de combustíveis avançados, pois já existe a tecnologia e a capacidade de produção. O especialista ainda aponta o investimento como o maior desafio, já que o país tem dificuldades para levantar capitais de risco, “temos que cuidar do nosso potencial”. 

Os combustíveis avançados

Foto de canas-de-açucar em painel sobre transição energética.
A cana-de-açúcar é um elemento essencial na matriz energética brasileira desde a implantação do Programa Proálcool, em 1975 [Imagem: Cecília Barros/ Acervo pessoal]

Em uma das ativações do SPIW, o ciclo de produção do etanol foi representado com enfoque na infraestrutura necessária para transformar a cana-de-açúcar no produto final.  Através do investimento infraestrutural, um horizonte se abriria para a produção avançada e em larga escala de combustíveis renováveis como o CO2 biogênico, os e-fuels e os biofuels, que também seriam responsáveis por auxiliar a descarbonização. 

O CO2 biogênico é o dióxido de carbono gerado industrialmente e tem como base a biomassa, sendo considerada uma fonte de carbono renovável. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a utilização do CO2 biogênico é indicada por que ele possui um ciclo curto, que tem início com a captura de gás carbônico pelas plantas e o fim com o seu retorno à atmosfera, após ser usado na indústria, (diferente do CO2 fóssil, que libera carbono antigo e aumenta a poluição da atmosfera).  

Os e-fuels ou e-combustíveis, por sua vez, são produzidos de forma sintética: através da eletrólise da água ou captura/ produção de CO2. Seus produtos são o hidrogênio verde e o dióxido de carbono biogênico, o que elimina a necessidade de extração de combustíveis fósseis.

Já os biocombustíveis são obtidos através da biomassa vegetal ou animal, e além de diminuírem a emissão dos gases do efeito estufa na atmosfera (GEE), também neutralizam a pegada de carbono. Entre eles, destacam-se o biogás e o etanol.

O biogás resulta da fermentação anaeróbia da matéria orgânica e pode ser utilizado na produção de energia térmica, elétrica e mecânica, mas também pode ser purificado e transformado em biometano, um combustível de alto desempenho que é equivalente ao gás natural. O biometano possui a mesma fórmula molecular do metano, portanto a infraestrutura pode ser reutilizada. Dessa forma, constrói-se uma vantagem, visto que navios que utilizam bioGNL (Gás Natural Liquefeito) podem operar na infraestrutura já construída dos navios que fazem uso do GNL fóssil.

O etanol é produzido a partir da fermentação de açúcares advindos da cana-de-açúcar e do milho, e o Brasil é um dos pioneiros em sua produção. Em entrevista à Jornalismo Júnior, a professora de Química do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) de Sertãozinho, Bruna Coeli, revela o ciclo do Etanol 360, uma energia circular: a cana é colhida de forma mecanizada e transportada até a usina, e na etapa de moagem, o bagaço e o caldo são separados. O caldo segue para o processamento do açúcar, onde é feita a evaporação, o cozimento, a cristalização e o branqueamento, que geram o açúcar e um resíduo líquido, denominado melaço. “Esse resíduo é encaminhado para o processo de fermentação biológica (por meio de leveduras), que uma vez fermentado se torna o etanol, que ainda precisa passar por um processo de destilação que separa o etanol da vinhaça. Por fim, o etanol está pronto para ser comercializado e a vinhaça é utilizada para a fertirrigação”, explicou a especialista.

Fotos de quatro canos, cada um contendo uma etapa diferente do processo de refinamento da cana.
Antigamente o bagaço era um resíduo, atualmente ele é seco e usado para geração de energia para a própria usina [Imagem: Cecília Barros/ Acervo pessoal]

Perspectivas para o futuro

A energia é parte fundamental para o funcionamento de toda a sociedade, e em entrevista ao Laboratório, Raphaella Gomes falou sobre como o desenvolvimento de energias renováveis deveria ser a prioridade de todos os governos, independente do viés político.

“Ter acesso à energia abundante, renovável, acessível, eficiente, deveria ser um desejo de todas as pessoas. Não importa sua ideologia.”

Raphaella Gomes, CEO da New Gaia

Segundo ela, uma sociedade com acesso à energia é mais eficiente e justa, já que tudo depende dela. “Uma das coisas, por exemplo, que a gente não pensa muito, é o seguinte: se você não tem energia em casa, como é que você estuda? Não tem como falar de educação, se você não tem energia. Porque é algo fundacional”, completou.

Gomes ressaltou ainda o papel das novas gerações na construção de uma realidade mais sustentável e equitativa, alertando para a importância de superar os discursos ideológicos e focar em discutir e desenvolver um futuro verde e igualitário.

*Imagem da capa: Thaís Vicari/ Acervo pessoal

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