Por Lais Fernandes (laisfernandes@usp.br) estilo de vida
Do litoral às Olimpíadas, o surfe percorreu um caminho marcado por mudanças profundas. O que antes configurava-se como prática cultural e estilo de vida passou progressivamente a se estabelecer como esporte global e produto midiático, além de refletir tensões causadas pela relação cada vez mais frequente entre experiência, performance e consumo.
Não há consenso sobre a origem do esporte, mas seus primeiros registros encontram-se nos horizontes polinésios e peruanos, civilizações em que o surfe fazia parte da organização social, da cultura e até da religião. No Brasil, a prática só se desenvolveu a partir da década de 1930 nas praias de Santos, no litoral paulista. Nos mares tropicais, o pioneiro foi Osmar Gonçalves, que elaborou a primeira prancha com ajuda de dois amigos e, assim, tornou-se o primeiro surfista do país.
Hoje, o surfe abrange toda sua trajetória em um espectro complexo e diverso, que engloba tanto sua identidade milenar quanto a modernidade midiática e mercadológica trazida pela influência dos meios de comunicação.
Primeiras ondas brasileiras
Na década de 1930, a cidade de Santos abrigava o porto mais movimentado do país, de forma que o intercâmbio cultural e a modernização da região foram inevitáveis. O surfe surgiu nesse contexto a partir da influência americana no litoral, e apresentou uma nova forma de fluir sobre o mar. O ato de se equilibrar sobre as ondas despertou interesse principalmente nos jovens, que passavam horas nas águas em busca de poucas ondas. Na época, a prática estava distante da imagem atual e o esporte era marcado por pranchas pesadas, poucas manobras e uma relação mais contemplativa com o mar.
“Passávamos de 4 a 5 horas dentro do mar para pegar apenas 4 ou 5 ondas, mas valia a pena. As meninas nos achavam corajosos e saíamos da água cheios de energia, carregando aquela prancha enorme“
Osmar Gonçalves, em entrevista à Revista Longboard Brasil

A primeira prancha desenvolvida no Brasil foi baseada em um tutorial escrito de uma revista americana e sua confecção demorou cerca de 3 meses [Imagem: Divulgação]
No Rio de Janeiro, o movimento ganhou força nos anos 1950 com a concentração de surfistas na praia do Arpoador. A cidade rapidamente desenvolveu estruturas voltadas à modalidade, como a criação da Federação Carioca de Surfe, em 1965, e consolidou um ambiente favorável à sua expansão. Ao mesmo tempo em que ganhava adeptos, porém, a prática também passava a carregar estigmas sociais.
Entre estigmas, resistência e estilo de vida
Em sua origem, o surfe estava diretamente ligado à cultura e à organização social das populações nativas das ilhas polinésias. Entretanto, essas nuances foram perdidas a partir da sua expansão mundial, e no Brasil não foi diferente. Ao chegar no país, a prática enfrentou algumas limitações como o próprio recorte geográfico, associado a necessidade de proximidade do litoral, e o acesso limitado aos equipamentos necessários, que tinham altos custos de importação ou exigiam confecção manual. Além disso, os surfistas deveriam ter tempo disponível, já que a prática depende de agentes naturais que são imprevisíveis.
Esses fatores limitaram o acesso à modalidade e, usualmente, restringiram a prática àqueles com alto poder aquisitivo, que não trabalhavam e/ou estudavam. A imagem do surfista se consolidou com base nesses estereótipos e no rótulo de esporte de “vagabundo”, o que fez com que o surfe fosse marginalizado por décadas. Com isso, aspectos mais profundos da modalidade, como seu passado tradicional e o estilo de vida compartilhado entre os praticantes, ficaram em segundo plano.
A marginalização da modalidade estava ligada aos ideais que os surfistas defendiam e ao contexto político em que se desenvolveram, tanto no Brasil quanto no mundo. Em entrevista ao Arquibancada, a Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Monique Fogliatto, destaca que o surfe é, antes de mais nada, um produto de seu tempo. A especialista explica que o surfe se popularizou ainda mais durante o auge da Ditadura militar e atraiu, sobretudo, jovens que estavam dispostos a ir contra a mentalidade conservadora e repressora que vigorava durante os Anos de Chumbo.
A prática chegou a ser proibida em algumas praias da zona sul do Rio de Janeiro entre as décadas de 1960 e 1970, além de tornar-se alvo de repressão estatal. “Os surfistas eram malditos porque o esporte representava a liberdade em um tempo em que ela não existia”, relembra o surfista Otávio Pacheco em entrevista ao Arquivo Nacional.

O estilo de vida dos surfistas na década de 1970 estava profundamente atrelado aos movimentos contracultura da época e caracterizava-se pela simplicidade, atitude descontraída e liberdade [Imagem: Reprodução/John Robert McPherson/Wikimedia Commons]
É nesse contexto que o surfe ultrapassa a dimensão esportiva e consolida-se como estilo de vida. A atitude assumida pelos adeptos da modalidade era naturalmente rebelde, e o único desejo da ‘tribo’ — forma de autodeclaração dos praticantes por seu caráter quase nômade e modo de vida livre — era surfar, curtir a vida e fugir dos estereótipos que eram atribuídos a eles. Seus princípios estavam ligados à harmonia com a natureza, busca por viagens e liberdade.
A disseminação desse estilo de vida ocorreu por meio do surf music, da indústria cinematográfica e de revistas, de maneira que a consolidação dessa subcultura deu-se de forma paralela à preocupação sobre a preservação de características da modalidade. Assim, foi criada toda uma atmosfera em torno do surfe que compreendia a subversão, as músicas, o jeito de vestir, as metas e o modo pacifico de viver. No entanto, esses aspectos estavam prestes a ser tensionados com uma nova era que surgia — o surfe como esporte profissional.
De marginais a ídolos: a profissionalização do surfe
Nos anos que se seguiram, a prática passou por uma revolução identitária. De forma gradual, o esporte começou a ser legitimado por meio do surgimento de federações, campeonatos e da possibilidade de profissionalização dos atletas. A indústria do surfe — associada aos equipamentos, vestuários e eventos — também se fortaleceu, e o auxílio das mídias contribuiu para que o esporte deixasse o passado estigmatizado para trás.
A organização da modalidade possibilitou a globalização do surfe, especialmente com a criação dos campeonatos mundiais. No Brasil, as primeiras competições ocorreram nos anos 70 no Rio de Janeiro e, nessa época, o surfista profissional Pedro Paulo Lopes — popularmente conhecido como Pepê — se destacou ao vencer uma etapa do Mundial de Surfe no Arpoador, em 1977.
Com o apoio dos meios de comunicação, especialmente da televisão e das mídias especializadas, o surfe ampliou sua visibilidade e passou por um processo de transformação. Aos poucos, a prática distanciou-se da marginalidade e se consolidou como modalidade esportiva, associada a valores como saúde, estética, desempenho e conexão com a natureza.

Gabriel Medina, um dos mais populares surfistas da atualidade, foi o primeiro brasileiro a vencer o campeonato mundial de Surfe, em 2014 [Imagem: Reprodução/Jim Bahn/Wikimedia Commons]
Mais do que institucionalizar a prática, a profissionalização fortaleceu toda uma indústria em torno do surfe. Como destaca a pesquisadora, esse movimento envolve um amplo mercado de produtos e patrocínios, no qual marcas passam a enxergar a modalidade como uma oportunidade de investimento. Segundo ela, essa virada também impacta a própria forma de vivenciar o surfe. A possibilidade de viver disso como algo rentável transforma a relação de muitos atletas com o esporte, inclusive daqueles que se identificam como “surfistas de alma” (expressão que remete a uma dimensão mais simbólica e filosófica da experiência de surfar).
O mais alto dos pódios: as Olimpíadas
Uma das etapas e conquistas mais atuais do surfe foi sua entrada como modalidade oficial nas Olimpíadas de Tóquio, em 2021. Esse anseio é antigo: desde 2014, a Associação Internacional de Surfe (ISA) propõe sua inclusão nas Olimpíadas a fim de atrair um público mais jovem e diverso.
Para se inserir nesse novo universo, a modalidade precisou se adequar aos moldes da competição, de forma que sua entrada não gerou um consenso entre seus praticantes. Nesse processo, assim como no passado, a mídia foi fundamental para legitimar as mudanças no surfe e adotou uma postura otimista diante de sua inclusão nas Olimpíadas, apesar das divergências existentes.
Monique explica que esses contrapontos flutuam entre a perda de identidade do surfe e a busca por mercado e audiência, e destaca a visão comercial dos meios de comunicação hegemônicos. “Não há foco em dizer como a prática chegou até ali. O que a mídia e as redes sociais fizeram, nesse período, foi apresentar a modalidade apagando o passado desviante em prol de um objetivo maior, a audiência”, afirma.
Ela ainda aponta que essa resistência à inclusão se deve também ao comprometimento da relação sujeito-espaço do surfista com a praia e as nuances míticas e simbólicas que ela carrega, assim como por tudo aquilo que o surfe representou enquanto movimento contracultural.
Apesar das oposições, o surfe passou por um processo de mercantilização. Além de ser televisionado atualmente, também nota-se a continuidade de sua popularização por meio das redes sociais, e as Olimpíadas de 2021 abriram um espaço ainda maior para a modalidade no Brasil. Naquele contexto vivia-se o auge da performance de Gabriel Medina e Ítalo Ferreira na Liga Mundial de Surfe (WSL), o maior circuito da categoria, fato que atraiu os olhares midiáticos para a modalidade na expectativa de resultados expressivos.
As projeções confirmaram-se rapidamente e desde a estreia olímpica do surfe, o Brasil conquistou três medalhas na modalidade, assim, tornou-se o primeiro país a alcançar tal feito.

A Brazilian Storm, ou seja, tempestade brasileira, é a expressão que se refere ao protagonismo e talento dos atletas brasileiros no cenário mundial [Imagem: Reprodução/William Lucas/COB/Fotos Públicas]
Pós Olimpíadas: uma fase ainda em formação
Atualmente, a popularidade do surfe atingiu seu auge. A etapa de 2026 da WSL já bateu todos os recordes de audiência e volume de fãs graças ao crescimento contínuo em investimentos, cobertura em streaming e compartilhamentos em redes sociais. “Nossa audiência não está apenas crescendo; ela está se engajando por mais tempo, compartilhando mais e retornando evento após evento com ainda mais paixão”, disse Ryan Crosby, Diretor Executivo (CEO) da WSL.
Paralelamente, o crescimento da indústria do surfe reforça o progressivo caráter comercial da modalidade. Dados da YouGov — empresa que monitora pesquisas de mercado no âmbito digital — indicam que os fãs do esporte são estatisticamente mais propensos a comprar produtos e serviços de marcas que patrocinam seus times e atletas favoritos, o que reflete a influência e a ampliação de mercados consumidores centrados na mercantilização da modalidade.
Com isso, antigas discussões acerca da identidade do surfe ressurgem sob uma nova lógica. Se, no passado, a massificação esteve ligada à profissionalização e à entrada nos meios de comunicação tradicionais, no presente ela passa a ser atrelada à dinâmica do algoritmo. A performance, antes atrelada à relação com o mar, passa também a dialogar com formas de exposição, alto rendimento e patrocínios. Porém, como observa Monique, esse movimento não é exatamente novo: “É fato que, com a maior exposição, corre-se esse risco. Mas o surfe, mesmo midiatizado, mais uma vez resiste, atraindo olhares curiosos para aquilo que a mídia retrata.”
O surfe encontra-se agora no estágio de esporte global, impulsionado por investimentos, patrocínios e estratégias de visibilidade. Ao mesmo tempo, permanece atravessado por sua própria história, marcada por resistência, identidade e transformação. A modalidade busca manter sua essência em meio a mudanças, e entre o ritmo imprevisível das ondas e a lógica acelerada dos algoritmos, o futuro do surfe ainda está em construção.
*A capa desta matéria usa imagens editadas de Willian Lucas
