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‘Hokum: O Pesadelo da Bruxa’: Quando o terror não confia na própria tensão

Um terror de aflição que dilui o próprio impacto ao abusar de clichês previsíveis.
por Karl Marx Lamerinha (karl_marx@usp.br)

Conhecido por um terror paciente e atmosférico, o diretor Damian McCarthy construiu sua reputação com Oddity: Objetos Obscuros (Oddity, 2014), apostando em silêncio, tempo e desconforto gradual. Em Hokum: O Pesadelo da Bruxa (Hokum, 2026) que estreia nesta quinta-feira  (21), essa assinatura parece tensionada. 

Embora o longa ainda sustente uma atmosfera aflitiva e trabalhe bem o folclore e seus personagens, há uma insistência quase ansiosa em recorrer a jumpscares. O resultado é um sentimento dúbio, a imersão cresce de forma satisfatória até ser constantemente interrompida por aparições exageradas, muitas vezes desconectadas do próprio enredo.

O longa apresenta Ohm Bauman (Adam Scott), um escritor de terror que visita uma pousada irlandesa para espalhar as cinzas de seus pais, sem imaginar que a propriedade é assombrada por uma bruxa e desafortunada com a presença de pessoas nada agradáveis. O filme se inicia com a introdução de Ohm Bauman e, por meio de uma encenação polida e da exposição sutil de seu passado, estabelece rapidamente a imersão. Sua personalidade típica de um escritor de terror, mal-humorado e introspectivo sustenta o silêncio necessário para que seus traumas emerjam, enquanto a ausência dos pais se insinua como motor do suspense.

As expectativas crescem quando o protagonista inicia sua viagem e a pousada passa a ocupar o centro da narrativa. Abrindo a imersão com os primeiros acontecimentos estranhos, personagens inquietantes, mistérios que cercam a pousada, e uma natureza opressiva toma conta da tela, o longa constrói dessa forma sua atmosfera de terror, aprofundando-se em um folclore sombrio que molda a maturidade da narrativa.

Os símbolos espalhados pela ambientação e o suspense contido sugerem com precisão o tipo de terror que está por vir, indicando uma riqueza de construção muito característica do trabalho de Damian Mc Carthy. As cenas são operadas de maneira metafórica, enquanto a montagem organiza pequenas pistas visuais sem depender de diálogos excessivamente expositivos, permitindo que o desconforto emerja gradualmente através da observação e da atmosfera. À medida que a narrativa avança, o filme se aprofunda em um terror psicológico sufocante, explorando paranoia, culpa e a fragilidade emocional dos personagens de forma cada vez mais perturbadora.

Adam Scott também é reconhecido por papéis cômicos, muito antes de ganhar destaque em filmes de drama intenso e revelar outra profundidade de seu trabalho
[Imagem: Reprodução/Diamond Films]

Os coadjuvantes surgem com carisma suficiente para despertar curiosidade em poucas cenas. Ao mesmo tempo, novas camadas sobre o passado de Ohm e a morte de seus pais são reveladas de maneira gradual, reforçando uma construção narrativa que privilegia gestos, detalhes e silêncios. Essa sutileza está entre os maiores acertos do longa.

A escalada até o clímax inicial é tensa. A escuridão é utilizada com eficiência através da fotografia, e a sensação de perseguição transforma a aflição no principal motor do medo. Em determinado momento, o filme surpreende com passagens de tempo que alteram completamente o rumo da trama, driblando previsões e renovando a curiosidade do espectador.

É, no entanto, a partir desse novo capítulo do filme, que as cenas passam a ser interrompidas quase religiosamente no auge da tensão por aparições desconexas, que pouco acrescentam ao contexto dramático. A princípio, os jumpscares parecem sugerir pistas sobre o mistério da bruxa. No entanto, acabam reduzidos a imagens exageradas de rostos grotescos inseridos apenas para provocar reações imediatas. Em vez de complementar a atmosfera, esses sustos frequentemente quebram a imersão construída ao longo da narrativa.

Duas assombrações concentram a maior parte desses momentos. Uma delas até parece tentar representar o trauma do protagonista e seu medo do passado, mas a execução escorrega pela falta de profundidade em todas as cenas da aparição, para um efeito involuntariamente cômico justamente quando o terror vinha sendo construído com sutileza e simbolismo. Já o coelho assustador surge sem função narrativa clara e desaparece sem qualquer explicação, tornando sua presença absolutamente dispensável.

“Hokum” é uma palavra em inglês que significa “bobagem”, “balela” ou “conversa fiada”. O título é irônico, referindo-se à descrença inicial do protagonista frente às lendas locais
[Imagem: Reprodução/Diamond Films]

A história se divide em três núcleos principais. Em um deles, acompanhamos um antagonista humano, cruel e desastrado. No outro núcleo, acompanhamos o aliado de Ohm em sua jornada contra o sobrenatural na pousada. Sua presença acrescenta uma perspectiva alternativa aos acontecimentos, além de trazer um humor discreto e eficiente que funciona melhor do que os sustos caricatos espalhados ao longo do filme.

A aparição da bruxa fortalece a reta final com uma caracterização hipnotizante e que evidencia o desperdício de um ótimo trabalho na figura da antagonista, que inicialmente se impõe como uma presença visual marcante e convincente. O design da criatura sugere um potencial narrativo maior, carregado de elementos interessantes, mas a obra não desenvolve essa entidade à altura do impacto que ela promete. Em vez de explorar suas origens, camadas ou função dramática de forma mais aprofundada, o filme mantém sua função dramática limitada, reduzindo o efeito que poderia ser muito mais potente dentro do conjunto da narrativa. 

No entanto, a perseguição é conduzida de maneira convincente, provocando no espectador a sensação angustiante de ocupar o lugar do protagonista diante de uma ameaça aparentemente inevitável. Nesse ponto, mais impressionante do que a atmosfera de pesadelo é a quantidade de conveniências narrativas ao longo da trama! Algumas dessas soluções são tão abruptas que acabam provocando risadas nos momentos menos apropriados.

O encerramento desliza em soluções simples para um conflito que parecia muito maior. Com uma assombração poderosa e uma bruxa visualmente impactante, o roteiro opta por um desfecho excessivamente piedoso quando comparado com a atmosfera tenebrosa e de perigo iminente antes tão presentes no filme. Ao abandonar o próprio folclore da bruxa sem aprofundar sua presença sombria, o filme encerra a narrativa com uma sensação evidente de incompletude.

Hokum: O Pesadelo da Bruxa, é um filme interessante, capaz de produzir medo e tensão graças a personagens cativantes e a uma atmosfera convincente, repleta de signos visuais e composições que contam a história de forma muito mais gestual do que verbal. Ainda assim, falha ao desconfiar da própria tensão e preenchê-la com enfeites bregas de terror que colapsam a imersão e subestimam a capacidade do espectador de temer uma história bem contada.

Hokum: O Pesadelo da Bruxa já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer

*Imagem de capa: [Divulgação/Diamond Films]

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