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Brasil que sou porque é meu jeito de comer

Primeiro dia d’A Feira do Livro 2026 reúne política, cultura, religiosidade, meio ambiente, futuro e tradições ancestrais para discussão sobre comida no Palco da Praça
Quadro mulheres em palco de evento que discutia sobre a alimentação

Por João Zogobi (jvznogueira@usp.br)

No último  sábado (30), ocorreu a segunda mesa de debates que compõem uma frente ampla de extensão d´A Feira do Livro, realizada anualmente na Praça Charles Miller, em São Paulo. A roda de conversa “Floresta Na Boca” reuniu Inara Nascimento, Rute Costa e Bel Coelho e ouvintes curiosos para falar das  mais diversas dinâmicas alimentares . 

As palestrantes abordaram ancestralidade, colonialidade, cultura, proteção ambiental e política. Durante o debate, mostraram que a temática da alimentação extrapola os limites impostos pelas paredes da cozinha e faz parte de um projeto de ressignificação da relação entre indivíduos e território. 

Ao juntar perspectivas ancestrais negras, indígenas e acadêmicas, Nascimento, Costa e Coelho  evidenciaram convergências ao constatar a impossibilidade de um futuro sustentável sem a transformação da forma de se relacionar  com a comida. 

Ajeum mi’u: heranças afro-originárias nos garfo e mãos

“Quando dizemos ajeum, em iorubá, ou mi’u, no idioma sateré-mawé, não estamos apenas falando de comida; estamos demarcando territórios de conhecimento a partir de nossas línguas, e isso é um gesto de contracolonização.” 

Rute Costa e Inara Nascimento, na descrição da obra “Ajeum mi’u: confluências negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil” 

 É sobre esse pressuposto que Rute Costa, mulher preta, periférica e professora  da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Inara Nascimento, indígena do povo sateré-mawé e doutora em ciências sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), se debruçam na obra que embasa a conversa, Ajeum mi’u: confluências negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil (Elefante,2025) , que  traça as influências, rupturas e permanências das confluências de culinárias afro-indígenas na alimentação brasileira.

Ao discutir esse tema no Palco da Praça, instalação destinada à rodas de conversa e debates, Costa afirma que modificou sua perspectiva de meio ambiente e ancestralidade ao pensar em um episódio de sua vida: seu pai cuidava de um cultivo de feijão vermelho no norte do estado de Minas Gerais. Em dado momento, diversos jacus, aves típicas da Mata Atlântica, devoraram o cultivo. Diferentemente do que muitos fariam, ela explica, seu pai decidiu não matar os animais, visto que eles apenas buscavam comida na sua plantação, pois seu habitat havia sido desmatado para tornar-se pasto de gados e plantação de eucaliptos para a indústria papeleira

A escritora afirma que o episódio ilustrou o que ela viria encontrar na ancestralidade da ética iorubá Ubuntu, que entende a existência individual como composta por outras existências e que não se pode estar em contato com a produção do alimento sem pensar na totalidade natural e social da comunidade.

Tanto Rute Costa quanto Inara Nascimento entendem que há semelhanças entre as filosofias afro-indígenas ancestrais nesse sentido. A filosofia Mi´u, explica Inara, cultiva  a unidade entre humanos e natureza, de forma que estes edificam um organismo vivo e que caminha junto:“Esse tipo de ethos é, sem dúvidas, irradiado para a forma como comemos, produzimos e distribuímos nosso alimento”, afirmam as autoras.

Mais cascas, menos embalagens: nutricídio e colonização alimentar

Ao traçar um panorama da construção da cultura alimentar do Brasil, é inevitável pensar nos  processos históricos aos quais o território foi submetido. Bel Coelho, chefe de cozinha e ativista paulistana, explica que parte do seu trabalho é desenvolver um processo que considere a comida como parte de uma cadeia de relações e sistemas alimentares, submetidos a um processo histórico que destruiu a conexão com a comida enquanto ato de relacionamento. 

“Nosso gosto foi colonizado. Na nossa mesa não está a biodiversidade do Brasil. Basear a dieta em alimentos locais seria contribuir muito para produzir a comida com a floresta em pé.”

Bel Coelho, chef de cozinha e ativista ambiental, autora da obra “Floresta na Boca”

Inara Nascimento explica que, no caso brasileiro, a formação alimentar moderna é resultado de um processo colonizador:“Omitir o caminho da comida é parte de um processo de apagamento das nossas culturas e tradições, afinal, conhecer a rota dos alimentos é conhecer a cultura, o território, as populações e as relações de produção, fatores que foram embaçados por imposição colonizadora”, aponta a escritora.

A imposição da cultura do colonizador nos povos colonizados é típica do processo colonial, que é denominado deculturação. Nesse sentido, as autoras debatem sobre a infestação de ultraprocessados, símbolo da cultura capitalista, no dia a dia dos brasileiros, principalmente indígenas e quilombolas. 

Nascimento ressalta que povos indígenas e quilombolas compõe a parte majoritária de populações em insegurança alimentar e, portanto, expostas ao nutricídio, termo que designa tanto a dificuldade em acessar alimentos saudáveis (ou inacessibilidade completa) quanto o afastamento da cultura alimentar ancestral para imposição de uma nova.Segundo a escritora indígena:“Isso também faz parte de um projeto racista de apagamento cultural que permite que essas pessoas tenham acesso somente a alimentos industrializados. E ainda culpam aqueles que usufruem desses alimentos como se houvesse outra possibilidade. Ao invadir nosso território, invadem nossos corpos”.

Passos para existência de um futuro

Ao compartilhar outra experiência, Rute Rocha, emocionada, buscou trazer uma outra perspectiva de ressignificação da imagem criada de comunidades indígenas e quilombolas. 

A autora conta que, à época, gastava R$1,00 para ir e voltar de transporte público da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e esse mesmo valor para comer no restaurante universitário. Em um determinado dia, no qual fez uma prova para uma bolsa de pesquisa, Rute se deparou com uma etapa a mais do que havia planejado para esse processo seletivo. Isso a obrigou a ficar até o período da tarde, sem ter dinheiro para almoçar, visto que tinha levado exatamente o necessário para ir e voltar de transporte público. Após procurar por uma moeda na rua, valetas e cantos, recorreu à uma amiga. Após alguns anos, morou um ano em um quilombo e, lá, não passou fome um dia sequer, explica.

“Como posso nunca ter passado fome num quilombo e ter passado a experiência mais indigna da minha vida na universidade estadual do segundo estado mais rico do país, onde estudei nutrição?”

Rute Costa, Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

As autoras reforçam a importância de políticas públicas que garantam acesso à alimentação digna, principalmente para as populações mais carentes. Nesse sentido, tecem elogios ao programa de merendas nas escolas públicas paulistas que, apesar de não apresentarem condições perfeitas de funcionamento, protagonizam o papel de acesso à alimentação para crianças e jovens . Apontam também ser essencial a ampliação e aprimoramento de projetos desse tipo, caso se queira viver em um planeta digno, ambientalmente responsável e menos desigual. 

Concluíram formulando que a filosofia de seus povos estipula, na produção da comida, a produção de cuidado, encontros de partilha, conexão ancestral e ferramentas de luta e enfrentamento. São tecnologias ancestrais inseridas em processos históricos e dinâmicos no tempo, ao contrário do que se comenta no senso comum.

A conversa encerrou com uma proposta de Rute: cantar, juntamente com a plateia, um ponto de jongo, manifestação cultural afro-brasileira que mistura cantos, arte e danças:

“Kundê Kundê
eu não tô pra fazer roça
pra boi dos outros comer”

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