Por Lívia Falbo (liviafalbo@usp.br)
No dia 3 de maio de 1926, nasceu em Brotas de Macaúba (BA) Milton Almeida dos Santos, considerado por pesquisadores como um dos principais geógrafos brasileiros da história. 100 anos depois, suas obras ainda são frequentemente utilizadas em vestibulares, pesquisas acadêmicas e debates sobre globalização e seus processos sociais.
Filho e neto de professores primários, foi alfabetizado em casa e só entrou na escola aos dez anos, no internato do Instituto Baiano de Ensino (IBE), em Salvador. Ali, incentivado pelo professor Oswaldo Imbassay, desenvolveu interesse pela Geografia, disciplina que começou a lecionar aos colegas aos 15 anos.

Do berço à Geografia
Após concluir o ensino básico, Milton ingressou no curso de Direito da Faculdade Federal da Bahia (UFBA) em 1944 e se formou em 1948, mas nunca chegou a exercer a profissão. Ao invés disso, prestou concurso para professor de geografia e foi dar aula no colégio municipal de Ilhéus — onde iniciou sua trajetória como jornalista no jornal “A Tarde”.
Na cidade, conheceu a sua primeira esposa Jandira Rocha, com quem teve o seu primeiro filho, o Miltinho. “Milton Santos na Bahia foi casado, a mãe do Miltinho é baiana, mas eles se divorciaram e ele foi embora”, explica Flávia Grimm, pesquisadora responsável por transferir o acervo da casa de Milton Santos para o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP).
A carreira de Milton na geografia estava começando: em 1957, foi convidado para realizar seu doutorado em Geografia Humana, com a tese “O Centro da Cidade de Salvador”, na Universidade de Estrasburgo, na França e em 1963 foi tornou-se presidente da Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB).
De volta ao Brasil, em 1960, Milton tornou-se livre-docente da UFBA e desenvolveu o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais. Ao mesmo tempo em que lecionava, conciliava atividades no jornalismo e na administração pública. Como editor do jornal “A Tarde”, integrou uma comitiva em Cuba no mandato do presidente Jânio Quadros. Depois, foi nomeado subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República e foi eleito presidente da Comissão de Planejamento Econômico (CPE) por Lomanto Junior, governador na Bahia na época. Deixou o cargo em 1964, com o início da Ditadura Civil-Militar brasileira.

O impacto da Ditadura
Após o golpe militar, Milton foi obrigado a seguir um caminho inesperado. Ele foi preso pelo regime e ficou três meses detido em um quartel em Salvador. Posteriormente, foi encaminhado para prisão domiciliar, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC).
Quando foi solto, ainda em 1964, o geógrafo precisou deixar o país devido à perseguição política. Ele se estabeleceu, inicialmente, na França. Mas o que era para ser uma fuga de seis meses, tornou-se um exílio de 13 anos. “A Marie-Hélène foi um suporte para Milton tolerar o exílio. Ela pulou de país em país. Hoje é glamouroso, mas eles estão vivendo um momento muito instável”, afirma Flávia.
Em sua trajetória internacional Milton lecionou e desenvolveu pesquisas em universidades e instituições da França, do Canadá, dos Estados Unidos, da Venezuela, do Peru e da Tanzânia.
Na França, lecionou na Universidade de Toulouse Le Mirail e na Universidade de Sorbonne, onde tornou-se diretor de pesquisas de planejamento urbano no Instituto para o Estudo do Desenvolvimento Econômico e Social (IEDES). Em 1971, atuou como professor na Universidade de Toronto. Depois, passou pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, onde começou a escrever um de seus livros: “O Espaço Dividido”, de 1979.
Nos anos seguintes, Milton participou de um programa da Organização das Nações Unidas (ONU), na Venezuela, no qual foi diretor de pesquisa sobre planejamento da urbanização. O geógrafo atuou também como professor da Universidade de Lima, no Peru, onde elaborou uma pesquisa sobre a pobreza urbana na América Latina. Depois, ajudou a desenvolver o curso de pós-graduação em Geografia na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, onde ficou por dois anos.
De volta ao Brasil
Em 1977, Milton retornou para o Brasil. Seu segundo filho, Rafael, nasceu no mesmo ano na Bahia. Profissionalmente, o intelectual sabia que teria oportunidades em seu país de origem. Ele assumiu o cargo de consultor técnico do governo de São Paulo (para a primeira Política de Desenvolvimento Urbano e Regional e da primeira Política de Desconcentração e Descentralização Industrial) e da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa).
Depois, tornou-se professor assistente na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e passou alguns anos como professor convidado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.
Em 1984, foi contratado como professor titular do Departamento de Geografia na USP, onde, junto com a geógrafa Maria Adélia de Souza, criou o Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial e Ambiental (Laboplan). O intelectual se aposentou em 1997, mas continuou a participar de atividades acadêmicas na USP até sua morte, em 24 de junho de 2001, em decorrência de um câncer de próstata.

Reconhecimento
Após anos de dedicação, Milton Santos recebeu alguns dos principais reconhecimentos de sua carreira. A primeira foi o Prêmio Internacional Vautrin Lud de 1994 — considerado o Nobel da Geografia. Posteriormente, ganhou também o Prêmio Jabuti, em 1997, como melhor livro das Ciências Humanas por “A Natureza do Espaço- Técnica e Tempo, Razão e Emoção” e o Prêmio UNESCO de Ciência, no ano 2000. Além disso, Milton recebeu 20 títulos de Doutor Honoris Causa em instituições brasileiras e estrangeiras.
Em 2025, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) desenvolveu um projeto de lei (PL) que visava adicionar o nome de Milton Santos no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, também conhecido como “Livro de Aço”, mantido no Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, que reúne os nomes de personalidades historicamente importantes para o Brasil. O PL foi aprovado em abril de 2026 e tornou Milton Santos oficialmente parte dos heróis que cooperaram com a pátria brasileira.
No seminário “Milton Santos: 100 anos de pensamento geográfico, crítico e cidadão”, na Câmara dos Deputados, Orlando defendeu: “Nada melhor do que ter um homem que projetou o Brasil muito longe no Panteão De Heróis Nacionais”.
Em homenagem ao seu centenário, o IEB-USP promoveu, em maio de 2026, uma semana de seminários dedicados à sua trajetória e à atualidade de sua produção intelectual. O evento contou, inclusive, com a participação de sua viúva Marie-Hélène e de sua neta Nina Santos.

Conceitos importantes
Para além dos prêmios e do reconhecimento, Milton Santos era, essencialmente, um professor. Ele publicou cerca de 44 livros e mais de 200 artigos. Os estudos do intelectual eram voltados, principalmente, à análise social do espaço, baseada na globalização, na modernização e na urbanização.
Entre seus conceitos mais conhecidos está a distinção entre território e espaço. Para o geógrafo, o território é uma área delimitada, que pode ser modificada com o tempo, de acordo com as relações de poder de uma região. Já o espaço corresponde a um ambiente de trocas culturais e formação de identidade que ocorre dentro dos territórios. Segundo Milton Santos, “a utilização do território pelo povo cria o espaço”.
“O espaço que a sociologia pensa é o espaço social, quase nunca o espaço geográfico, que foi esse sistema indissociável de ações e objetos”, argumentou Billy Malachias, ativista e pós-graduando em geografia humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Para ele, Milton foi importante tanto pela teoria que produziu, quanto pela inspiração que gerou.

Outro conceito central foi o de rugosidades, que são elementos materiais elaborados no passado que são mantidos no espaço geográfico presente. A mistura do antigo e da atual forma as paisagens, marcadas pela coexistência de heranças históricas e inovações. Exemplos de rugosidades são prédios antigos e ferrovias desativadas.
Milton Santos também concentrou sua pesquisa no conceito de meio técnico-científico-informacional, que descreve a fase atual do desenvolvimento do espaço geográfico, marcada por avanços tecnológicos e científicos e por uma intensificação do fluxo de informações.
O geógrafo formulou ainda a ideia de pontos luminosos e opacos, que se referem à distribuição desigual de recursos, infraestrutura e informação pelo território. Enquanto os pontos luminosos são locais que apresentam uma densidade alta de capital e tecnologia, os pontos opacos são áreas marginalizadas, desconectadas de redes globais de informação.
Entre seus conhecimentos mais difundidos, está a análise da globalização como um processo homogêneo e dividido em três perspectivas. A primeira é a globalização como fábula, caracterizada pelo geógrafo como utópica e idealizada, por possuir uma narrativa de integração global e acesso igualitário à informação. A segunda é a globalização como perversidade, dita como a globalização real, uma vez que considera as desigualdades sociais, a concentração de capital e a destruição do meio ambiente. A última, chamada de uma outra globalização, é uma perspectiva do que pode ser melhorado para o futuro, a partir de uma transição para um modelo sustentável.
O movimento negro
Milton Santos recebeu, mesmo após a sua morte, muitas críticas de alguns ativistas em relação a sua suposta falta de participação no movimento negro. Esses críticos defendem uma percepção de que talvez o professor fosse um negro intelectual, e não um intelectual negro. Para Malachias, Milton se intitulava um “intelectual público”. “Essa condição de intelectual público faz dele alguém que não tem nenhum tipo de filiação. Nem filiação partidária, nem filiação acadêmica, nem filiação ativista no sentido de um ativista étnico-racial. Essa condição em que ele se coloca, obrigava que ele não tivesse nenhuma posição”, disse.
O intelectual, além de utilizar a expressão “nós, a classe média”, dizia “nós brancos”. Flávia avalia tal fala como uma provocação, que tinha o propósito de atacar a parcela do público que, pela posição que ocupava — de professor titular da USP— e pela popularidade internacional que alcançou, o via como uma pessoa branca. “Ele não está se vendo como branco, ele nunca se viu. Ele está provocando quem não vê ele como negro”.
Milton discorreu sobre questões raciais em seu artigo “As exclusões da globalização: pobres e negros”. Além disso, o geógrafo participou de reuniões relacionadas ao movimento negro, como a Kilunge- Primeira Feira do Livro Afro-Brasileira. Esse evento ocorreu nos dias 17 e 18 de novembro de 1997 e foi organizado pelo Centro Cultural José Bonifácio, situado no Rio de Janeiro, com o objetivo de comemorar o Dia Nacional da Consciência Negra. Malachias avalia que essas participações tendem a ser esquecidas ou ignoradas, visto que, “os eventos que são considerados importantes e hegemônicos para o Brasil são os que os brancos legitimam”.
Para o ativista, as teorias desenvolvidas por Milton podem ser mais utilizadas, na atualidade, para o combate aos preconceitos raciais a partir das dimensões raciais do espaço. “Se o espaço é um componente de segregação, com base nos conceitos de Milton, ele também pode ser um componente de emancipação. E incorporar o espaço geográfico, em sua totalidade, na minha impressão, é mais do que incorporar a ideia de território”, completa.

A importância de Marie-Hélène
Com a morte de Milton Santos, sua viúva, Marie-Hélène Tiercelin Santos, doou todos os documentos que ele ainda não tinha publicado. Flávia Grimm, ex-orientanda de mestrado do geógrafo e responsável por organizar e mover o acervo para o IEB-USP, relatou como foi o processo de transferência.
“Em um primeiro momento é estranho, parece que você está invadindo a intimidade dele, daquele professor que você respeita tanto, com quem você tem tanto cuidado, pela trajetória dele, pela memória, tudo. Mas aí eu fui trabalhando, eu fiquei trabalhando nesse arquivo até 2012, foram sete anos ao todo”, afirma.
A pesquisadora afirma ainda que, além do peso de perder um intelectual renomado e reconhecido, ela passou pelo luto de perder alguém com quem convivia. “A figura que ele era, essa pessoa preparada, estudada e com o conhecimento do mundo, do Brasil, que te fazia falar “nossa, vamos mudar tudo”, relata.

Ela também ressalta a participação de Marie-Hélène na vida intelectual do geógrafo. Além de acompanhar pesquisas e discussões acadêmicas ao longo de décadas, ela colaborou com traduções — como a do livro “A natureza do Espaço” — e atividades relacionadas à circulação da obra de Milton Santos. “A Marie-Hélène é essa parceira que está com ele. E ela acompanha o pensamento, ela dialoga, ela acompanha pesquisas sobre os circuitos da economia urbana. Sempre. Quando ela volta para o Brasil, continua acompanhando”, afirma.


