Jornalismo Júnior

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Grandes eventos culturais: entenda a nova tendência do século 21

Da Virada Cultural aos festivais fechados, o que move milhões de pessoas aos grandes eventos atuais
No fundo, uma plateia. Em primeiro plano, pulseiras de acesso à eventos.
Por Bianca Candido (biancasantoscandido@usp.br)

A Virada Cultural 2026, que aconteceu nos dias 23 e 24 de maio, teve sua programação em vários palcos e centros culturais espalhados na cidade de São Paulo. De acordo com a Prefeitura de São Paulo, o evento atraiu 4,8 milhões de pessoas e movimentou R$1,1 bilhões na economia da cidade, considerado um grande sucesso. 

O evento teve um alto índice de aprovação do público, o que possibilitou discussões sobre  suas próximas edições, além de estudos que buscam compreender o seu  impacto positivo na sociedade atual.

Origem dos grandes eventos 

Eventos como os festivais surgiram em tradições antigas de celebração e rituais. Desde a Antiguidade, as pessoas se reúnem para comemorar datas significativas com música e dança, como casamentos, rituais religiosos e até nascimentos. A ideia contemporânea dos festivais se desenvolveu no século 20 , com o movimento hippie, e  até hoje esse legado está presente nos eventos culturais. Porém,  a proposta dos festivais se diversificou ao longo do tempo, com influência de novos estilos e a evolução dos movimentos culturais. 

Conforme o Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB), os festivais são capazes de preservar tradições, fortalecer laços sociais e estimular o intercâmbio artístico. Esses eventos culturais tiveram participação ativa na produção de músicas de vanguarda do Brasil. Artistas como Elis Regina, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Caetano Veloso se firmaram  por meio destes eventos em especial. 

O portal Memórias da Ditadura aponta que esse fenômeno foi construído no Brasil a partir do Festival da Música Popular Brasileira (1965)  criado para a TV Excelsior e que se destacou por sua abordagem de trazer artistas populares para uma competição no palco. A partir do segundo ano, foi produzido e exibido pela TV Record. 

Outro evento que lançou essa cultura no Brasil foi o Festival Internacional da Canção Popular, o FIC, transmitido na TV Rio e mais tarde, na TV Globo. Entre 1965 e 1975, outros festivais se espalharam pelo Brasil, como a Bienal do Samba, de 1968, e os festivais universitários, ao longo dos anos 1970, que consolidaram a imagem do evento festivo no senso comum.

     Os eventos culturais promovem conexão com a arte e a consolidação de novos artistas [Imagem: Divulgação/ Alesp] 

Fenômeno cultural 

Os eventos culturais são acontecimentos que envolvem grande participação popular e repercussão midiática, um dos pontos mais discutidos e emblemáticos da história de ocorrência desses eventos é o motivo dessas reuniões serem tão requisitadas não só pelos jovens, mas também, por outras gerações que comparecem em peso.

Na pesquisa realizada pelo site da Billboard Brasil, 66% dos frequentadores de festivais têm mais de 35 anos, sendo a Geração Y (38%) e a Geração X (24%) os grupos mais numerosos. 

Por serem espaços a céu aberto, a acústica dos estádios costuma ser desafiadora. A solução moderna são os sistemas de som em “delay” (torres de som secundárias distribuídas pelo campo) para garantir que quem está na arquibancada ouça o áudio sincronizado e sem eco [Imagem:Acervo pessoal/ Manuela Vitória]

Tendência à criação de laços 

Os grandes shows e festivais geram repercussão nas mídias, isso porque, na maioria das vezes, atingem uma grande proporção pelo alto números de visitantes. Manuela Vitória, de 19 anos, é uma fã e frequentadora desses eventos que atraem grandes públicos. 

Em entrevista à Jornalismo Júnior, ela conta que a experiência de estar na plateia de grandes festivais é mágica. Manuela afirma que os shows e festivais que frequentou trouxeram uma conexão com o passado, pois as músicas têm o poder de trazer de volta a versão antiga de alguém, ou um momento específico da vida que marcou.

“Muitas vezes, as músicas transmitem coisas que a gente sente e não consegue dizer.”

Manuela Vitória

Os pôsteres que marcam a identidade visual de festivais como o Lollapalooza são chamados de  lambe-lambe, e conectam diretamente a atmosfera urbana de São Paulo à estrutura do evento [Imagem: Acervo pessoal /Manuela Vitória]

Ela pontua que o pilar prejudicial para a experiência do público, majoritariamente, é a falta de organização no acesso do evento. “Muitos lugares não possuem uma boa acessibilidade, o que fragiliza o momento tão esperado do show e influencia muitas pessoas a preferirem eventos em locais fechados”, explica Manuela.

“O ingresso acaba sendo a parte mais barata da experiência.”

Manuela Vitória

Ela afirma  que é necessário uma programação completa para comparecer a esses tipos de eventos culturais. Mesmo com todos os percalços da logística, “ir a um show é, muitas vezes, uma chance e experiência única que vale a pena”, segundo Manuela. 

Os shows fazem as pessoas esquecerem dos problemas por horas e se conectar com um coletivo com o mesmo propósito
[Imagem: Acervo Pessoal/ Manuela Vitória]

Desafios e medidas de segurança 

Em 2023, algumas medidas tiveram que ser tomadas em relação à segurança do público nos eventos culturais. A lei Ana Benevides é uma medida aprovada depois de um trágico acontecimento na vinda da cantora Taylor Swift no Brasil. A fã da cantora, Ana Benevides, que passou horas na fila do estádio Nilton Santos para acessar o show, faleceu por conta de uma parada cardiorrespiratória, em razão da alta temperatura e do calor extremo do dia 17 de novembro daquele ano, na cidade do Rio de Janeiro. 

A Lei Estadual nº 10.557/2024, do Rio de Janeiro, conhecida como Lei Ana Benevides, estabelece medidas de proteção à saúde do público em shows, festivais e eventos de grande porte, incluindo a permissão de entrada com garrafas lacradas adequadas e a disponibilização de água potável gratuita para hidratação. Em São Paulo, um projeto de lei semelhante também foi aprovado, com o fornecimento gratuito de água como em pontos de hidratação e a permissão de acesso com garrafas de uso pessoal em eventos artísticos. As iniciativas representam um avanço na proteção da saúde, segurança e dignidade do público em grandes eventos.  

O público e sua experiência cultural 

Os festivais requerem um planejamento detalhado e estimado. Em entrevista à  Jornalismo Júnior, a profissional de Estratégia e Conteúdo do grupo Rockers, Nicole Moraes, pontua que em festivais como o Rock in Rio, a comunicação com o público deve ser realizada de maneira assertiva e direcionada às comunidades em que o conteúdo pretende atingir. A conexão máxima com o consumidor é essencial para transmitir o branding da marca — a identidade e o valor que a sustenta no mercado. 

Nicole afirma que é necessário um processo de filtragem e estudos do comportamento do público. Os conteúdos são adaptados de acordo com o canal de transmissão, seja na televisão aberta ou nas redes sociais. 

O planejamento estratégico é importante para adequar o festival às expectativas do público e da mídia  [Imagem: Acervo Pessoal/ Nicole Moraes]

A profissional aponta que o histórico de um festival influencia no direcionamento da comunicação e na experiência do público. A estruturação ao longo dos anos ajuda na construção de conteúdos nostálgicos que atraem o público que gosta de criar memórias e valorizar as suas próprias raízes. 

“Existe uma equipe que pensa na sua experiência, tem o esforço de cada profissional

Nicole Moraes 

Nicole conta que o trabalho de estratégia e marketing digital não é só no pré e no pós evento, mas também uma atuação “real time”, com uma equipe sincronizada e alinhada para receber o feedback do público enquanto o evento ocorre. O grupo analisa dados e recebe aprovações e  textos, com uma dimensão de operação em tempo real.

Sobre o  equilíbrio entre os patrocinadores e os visitantes, Nicole diz que eles fazem parte de um combo, mas a prioridade é a representação da marca através da inovação e o encontro de um ponto em comum entre os dois tipos de consumidores: aqueles que investem no entretenimento de negócios e aqueles que investem no entretenimento pessoal. 

Com estudos de comportamento nas redes sociais, o engajamento metrifica a satisfação do público, com análises quantitativas e qualitativas, e através de comentários do público nas plataformas digitais.

Criado pelos mesmos organizadores do Rock in Rio, o The Town ocupa uma “Cidade da Música” de 350 mil metros quadrados e tem a sua arquitetura inspirada em marcos da capital paulista
[Imagem: Acervo pessoal/ Nicole Moraes]

Além de sua experiência nos bastidores dos festivais, a entrevistada tem uma longa bagagem de fã e paixão por esse universo da música. Em suas palavras, “a sensação de pertencimento e coletividade que os grandes eventos trazem para o consumidor constroem memórias, que posteriormente aparecem nos feedbacks do festival”.

“Os festivais são plataformas de experiências.” 

Nicole Moraes 

Os festivais celebram a música por meio da formação de identidades culturais, atuam na promoção dos artistas e na valorização da experiência do público. Para fãs como Manuela, os eventos são um ponto de encontro de gostos e gerações diferentes, que também influenciam outros públicos a conhecerem a tendência. De acordo com a especialista em Estratégia e Conteúdo, a principal estratégia de comunicação para essa audiência  diversa é entender cada comunidade de fã que estará presente no evento. 

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