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‘O Bolo do Presidente’ transforma uma jornada infantil em poderoso retrato do Iraque de Saddam Hussein

Com um olhar delicado sobre a infância, O Bolo do Presidente expõe as contradições de um regime que exigia devoção enquanto condenava parte de sua população à escassez.
Por Letícia de Aquino (leticiaalvesaquino@usp.br)

O Iraque de Saddam Hussein, no início da década de 90, ainda sofria com as consequências da recente guerra Irã-Iraque (1980-1988). O conflito terminou com ambos os lados envolvidos em crises devastadoras. O país acumulava enormes dívidas, enfrentava inflação crescente, desemprego e dificuldades para reconstruir cidades destruídas pela guerra. 

A situação se agravou quando o Iraque invadiu o Kuwait. A resposta internacional levou à Guerra do Golfo (1990-1991) e à imposição de severas sanções econômicas pela Organização das Nações Unidas (ONU). Durante a década de 1990, muitos iraquianos enfrentaram a falta de alimentos, medicamentos e produtos básicos. 

Ainda assim, em 28 de abril de 1990, ao completar 53 anos, o presidente insistiu em manter a tradição e comemorar seu aniversário com grandes celebrações públicas, nas quais todos os cidadãos deveriam, impreterivelmente, sob ameaças de represália, contribuir com os festejos locais e celebrar a vida do líder. É dentro desse contexto que o filme O Bolo do Presidente (Mamlaket al-qasab, 2025), que estreia hoje (04) nos cinemas brasileiros, acompanha Lamia (Baneen Ahmad Nayyef), de nove anos, sorteada entre os alunos de sua classe como responsável pelo bolo, a maior honra da festa.

A narrativa principal é desenvolvida dentro dos dois dias que antecedem o aniversário, a tarefa é encontrar os ingredientes em meio a tamanha escassez de recursos. Moradora da zona rural, Lamia parte para a cidade com sua Bibi (Waheeda Thabet) e o galo Hindi, animal de estimação e companheiro fiel que fica junto da menina dentro da bolsinha do começo ao fim.

Lamia acompanha sua avó com o galo Hindi
[Imagem: Reprodução/IMDb]

Chegando à capital, o percurso entre os mercados e comércios das ruas de Bagdá mostra como os insumos são poucos e muito caros. Nesse trajeto, há uma reviravolta repentina que muda o rumo esperado do roteiro, levando a menina a fugir e percorrer sozinha a cidade em busca de seu vizinho e colega de classe, Saeed (Sajad Mohamad Qasem), que recebeu a responsabilidade de levar frutas frescas em homenagem a Hussein. Juntos, os dois amigos percorrem as ruas obstinados a cumprirem sua tarefa escolar. A partir daí, o longa se transforma em uma sucessão de encontros e desencontros que arrastam as duas crianças por diferentes camadas da sociedade iraquiana, mostrando desde soldados feridos pelos constantes bombardeios, até a situação precária do hospital que funcionava sem espaço e medicamentos. 

 À medida que avançam por uma paisagem marcada pela precariedade e pelo caos, Lamia e Saeed são confrontados com as consequências de um regime que lhes rouba a infância precocemente, obrigando-os a lidar com responsabilidades, medos e dilemas muito além de sua idade. É nesse momento que a interpretação de Baneen Ahmad Nayyef ganha mais força. A jovem atriz sustenta grande parte da narrativa com uma atuação natural e expressiva. Mesmo em períodos de silêncio seu olhar, muito profundo, comunica o medo, a curiosidade e uma resiliência surpreendente.

A jornada das crianças revela as marcas da pobreza e da repressão do Iraque nos anos 1990
[Imagem: Reprodução/IMDb]

A direção de Hasan Hadi é muito precisa. Mesmo diante de um cenário comprometido, ele consegue registrar cenas muito belas; as cores evocam aspectos da cultura local, presentes nos mercados, nas roupas, nos alimentos e na própria dinâmica das ruas. O resultado é uma representação visual que aproxima o espectador ainda mais da narrativa. 

Outro mérito do filme está na sensibilidade com que o diretor conduz o olhar infantil. Conforme a trama se desenvolve, o roteiro também evidencia como as crianças se tornam particularmente vulneráveis em uma sociedade marcada pela escassez e instabilidade. 

Sem idealizar seus personagens, o diretor sugere que a precariedade imposta pelo contexto social corrói laços de solidariedade e afeta até mesmo aqueles que deveriam oferecer proteção. Lamia e Saeed frequentemente encontram adultos que, mesmo enfrentando suas próprias dificuldades, não hesitam em se aproveitar de sua ingenuidade, enganá-los ou tratá-los com indiferença e grosseria. 

As crianças são constantemente expostas a um mundo difícil e sem muitas gentilezas, mesmo assim, Hasan consegue mostrar que  a inocência persiste, e as crianças permanecem curiosas, imaginativas, acreditando que o galo possui poderes de adivinhação e sonhando em se tornar presidente para poder comer bolo e beber refrigerante todos os dias.

Ao fundo da jornada das crianças, está presente o constante do culto à personalidade de Saddam Hussein. Retratando um cotidiano permeado por homenagens ao líder, com retratos espalhados pelos espaços públicos e passeatas organizadas para exaltar sua figura. É um olhar profundamente enraizado na experiência iraquiana que ajuda a compreender a relevância de uma cinematografia ainda pouco difundida no Ocidente e que após anos de forte censura pode finalmente avançar com mais liberdade. Assim como o cinema iraniano encontrou reconhecimento ao transformar histórias íntimas em reflexões sobre a sociedade, Hasan Hadi revelou, em seu primeiro longa, uma história capaz de articular memória, política e humanidade sem perder de vista seus personagens.

As imagens de Saddam Hussein são muito presentes no filme [Imagem: Reprodução/IMDb]

Um dos aspectos mais interessantes é a maneira como os grandes acontecimentos políticos permanecem quase sempre à margem da narrativa principal. Em vez de explicar o funcionamento do regime, o diretor prefere observar como essas estruturas afetam o cotidiano das pessoas comuns, resultando em uma crítica política que emerge de forma orgânica, filtrada pelas experiências e percepções infantis.

O final do longa não oferece conforto ao público. Não há trégua para as crianças e o desfecho da história é impiedoso e amargo. Os últimos minutos do filme são imagens reais da própria comemoração do presidente, cercada por luxo, com um bolo monumental. O contraste entre a ostentação do líder e a dura jornada de Lamia sintetiza a principal força de O Bolo do Presidente: revelar, através do olhar infantil, as contradições de um regime que exigia a devoção de seu povo enquanto condenava parte dele à escassez. Sensível sem ser sentimental, o filme transforma uma simples tarefa em um retrato profundo de uma infância vivida sob o peso da guerra.

O Bolo do Presidente está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem de capa: [Reprodução/IMDb]

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