Jornalismo Júnior

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Ensaio | Narrativas feministas na discografia de Fiona Apple

Em meio à ascensão de discursos misóginos na mídia e nas redes sociais, o consumo e a divulgação da arte produzida por mulheres se destaca
Imagem em preto e branco dividida em quatro partes. Em cada parte, um dos álbuns da cantora Fiona Apple são apresentados.
Por Catarina Guidotte (catarinaguidotterodrigues@usp.br)

Nos últimos anos, discursos misóginos vêm ganhando espaço nas redes sociais, na política e nas mídias tradicionais. Disfarçados de trends que incentivam o retorno ao tradicionalismo, como as tradwifes ou os “gurus” do Tiktok, esses discursos tentam resumir a vivência feminina a papéis tradicionais de gênero, que limitam a diversidade de experiências que compõem o que é ser mulher. 

Muitos são os exemplos de escritoras, cantoras e musicistas que, através da arte, conseguiram representar os sentimentos compartilhados por muitas outras mulheres. De Sylvia Plath à Clarice Lispector, de Jane Austen à Rita Lee, artistas femininas tentam, por meio da escrita e da música, relatar situações, emoções e ideias que ressoam entre o seu público.

E é nessa tradição artística que surge a cantora norte-americana Fiona Apple, cujo trabalho — através dos seus cinco álbuns de estúdio — aborda com sensibilidade questões profundas da psique feminina, ideias feministas, experiências da sexualidade e o peso do patriarcado.

Desde criança, Fiona esteve inserida no meio artístico, criada por uma mãe cantora e um pai ator. Teve aulas de piano desde a sua primeira infância e já compunha suas primeiras canções com oito anos de idade. Através dos anos conturbados de sua adolescência, marcados por um transtorno obsessivo-compulsivo e depressão, a cantora escreveu as primeiras músicas que levariam ao início de sua carreira. 

Aos 16 anos, começou a escrever o que mais tarde se tornaria Tidal (1996), seu primeiro álbum de estúdio, lançado quando Fiona tinha apenas 18 anos. Logo, a cantora alcançou sucesso com o público e com os críticos, e ao longo dos seus próximos 4 álbuns, foi aclamada tanto pela crítica musical formal quanto pela sua crescente fanbase.

Tidal e o mundo pelos olhos de uma adolescente 

Lançado em 1996, o álbum de estreia Tidal, de Fiona, é quase uma confissão da adolescência. Suas letras, escritas por uma jovem de 16 anos, são preenchidas por experiências e emoções que formam uma mulher na sua juventude. Os desejos, a raiva, o sofrimento e a falta de pertencimento são os temas que costuram as melodias do álbum, e através deles, Fiona cria uma experiência que é cheia de dor e compreensão, mas também cheia de poder, para as mulheres que escutam.

Mais de 3,5 milhões de cópias do álbum Tidal foram vendidas na época [Imagem/Reprodução/Jesus Rodriguez/Wikimedia Commons]

A música de abertura do álbum, Sleep to Dream, é um chamado para a independência feminina. Fiona conta sobre a experiência de ser descartada por um amante, e ainda jovem, entende que a dor da rejeição é em partes resultado do ego ferido, talvez até mais do que da perda de um amor. Através da música, a artista dá voz à sua raiva, ao contar do seu orgulho machucado, da dor da rejeição e das tristezas do primeiro término. Mas por baixo disso tudo existe uma reivindicação de poder, de não permitir que um homem a rebaixe ou a humilhe, de não se permitir ser vista como uma vítima. 

O trecho “Don’t you plead me your case, don’t bother to explain/ Don’t even show me your face, ‘cause it’s a crying shame/ Just go back to the rock from under which you came/ Take the sorrow you gave and all the stakes you claim/ And don’t forget the blame” (“Não me advogue o seu caso, não se preocupe em explicar/ Nem me mostre o seu rosto, porque é uma vergonha chorosa/ Só volte para debaixo da pedra de qual você veio/ Leve a tristeza que você me deu e as promessas que fez/ E não se esqueça da sua culpa”, em tradução livre) representa a recusa da cantora em aceitar desculpas ou álibis. E em resposta ao seu antigo amor, ela avisa que não o aceitará de volta, e prefere focar em sua própria companhia e conquistas. 

Já em músicas como The First Taste, Slow like Honey, Criminal e Pale September, a cantora explora a descoberta da sexualidade, as primeiras experiências e os primeiros amores. Ela não é contida e nem submissa ao expressar seus desejos, ao encontrar sua própria sexualidade ela avança exigindo ser notada, ser satisfeita e ser amada, conquistando e dominando a experiência. 

A cantora não se reprime ao falar até mesmo dos seus erros. Em Criminal, música escrita por Fiona em 45 minutos — segundo entrevista dada pela cantora à Pitchfork em 1997 — após seus produtores exigirem uma faixa mais comercial e popular para o álbum, a artista confessa uma traição. Através da letra, demanda o perdão do seu amor, ao mesmo tempo que não se martiriza, assume seus erros e toma responsabilidade por eles.

O clipe da música Criminal conquistou uma estatueta por Melhor Cinematografia no Mtv Video Music Awards (VMA)  em 1998 [Imagem/Reprodução/Michael Stillwell/Wikimedia Commons]

O álbum também se volta para os traumas e as dores na adolescência de Fiona. Na música Sullen Girl, a cantora expressa de forma intimista a dor, a solidão e o vazio interno que sentiu após ser abusada sexualmente. Ao cantar “I used to sail the deep tranquil sea/ But he washed me shore/ And he took my pearl/ And left an empty shell of me” (“Eu costumava navegar pelo mar fundo e tranquilo/ Mas ele me empurrou para a costa/ E tomou minha pérola/ E me deixou uma concha vazia”), a artista expressa seu trauma de maneira sensível, porém resoluta. 

Fiona Apple falou abertamente sobre o abuso que sofreu aos 12 anos em uma entrevista com a Rolling Stone, em 1998. Apesar de não ser algo que a artista havia compartilhado com seu público anteriormente, decidiu se abrir após ser questionada por um jornalista italiano se a música Sullen Girl se referia a um conflito amoroso com algum namorado.

A letra dessa música aborda a realidade do abuso sexual e suas consequências, e a cantora reforçou na época a importância temática da composição. Publicada durante a década de 1990, quando a norma da mídia americana e do mundo corporativo ainda era a de silenciar mulheres que denunciavam seus agressores publicamente, Sullen Girl é uma obra que expressa de forma explícita o trauma do abuso.

“‘Você quer perguntar sobre quando eu fui estuprada?’ … Eu disse ‘Por favor, não aja como se eu tivesse restos de comida presos nos meus dentes. Todos sabem. Isso não é um assunto que eu sinta vergonha em falar sobre, então não aja como se fosse algo vergonhoso.’ Acho que eu era sensível sobre esse tópico, porque por muito tempo eu de fato senti vergonha.”

Fiona Apple, em entrevista à Rolling Stone

When The Pawn e The Idler Wheel

When the Pawn é apenas parte do título do segundo álbum de estúdio de Fiona Apple, lançado em 1999. O título completo é um poema autoral de caráter motivacional que a cantora costumava recitar para si mesma antes de shows, entrevistas e encontros com a imprensa. Após sua primeira turnê com o álbum Tidal, com mais de 3,5 milhões de cópias vendidas mundialmente, e sua crescente ascensão à fama, ao receber prêmios como o MTV Video Music Award (1997) e  um Grammy na categoria Best Female Rock Vocal Performance (1998), Fiona ganhou a atenção da imprensa americana. 

O interesse da grande mídia em relação aos seus comportamentos, relacionamentos e sua aparência marcou o início de sua carreira, e o tom misógino das matérias publicadas pela imprensa na época impactou emocionalmente a cantora. Em 1997, uma matéria publicada pela revista americana Spin, titulada Girl Trouble, retrata Fiona como uma adolescente imatura, mentalmente instável e mimada, e o tom condescendente deste artigo, que inclusive aborda questões sobre o corpo da cantora, a motivou a escrever o poema que daria origem ao título de  seu segundo álbum.

A capa do álbum When The Pawn exibe o poema titular completo escrito na caligrafia de Fiona [Imagem/Reprodução/Genius]

Durante o photoshoot para essa mesma matéria, na revista Spin, um comentário de Fiona repercutiu na mídia. Ao ser pressionada pelos fotógrafos a sorrir mais durante as fotos, a cantora teria dito “there’s no hope for women” (“não há esperança para as mulheres”). Esse comentário é até hoje muito utilizado pela fanbase de Fiona pois, segundo os fãs, reflete a forma com que a misoginia permeia até nas interações sociais mais simples.

Após a matéria lançada pela revista Spin, Fiona chegou a receber cartas de ódio dos leitores direcionadas a ela em resposta à cobertura polêmica [Imagem/Reprodução/Creative Commons]

A fala de Fiona durante o photoshoot reflete o tom geral que seu trabalho assumiria nos anos seguintes, que é fundo temático para seus próximos dois álbuns de estúdio, When the Pawn e The Idler Wheel (2012), os dois álbuns que mais expõem a vida íntima e os relacionamentos da artista. 

Através de músicas como Paper Bag, Valentine, I Know, Jonathan, Get Gone e The Way Things Are a cantora disseca todos os detalhes minuciosos de seus relacionamentos e de seus amantes, da dificuldade de se sentir compreendida, da dor e a vergonha de uma traição, e dos desafios e as recaídas de um término, até o preço que se paga ao amar um homem que ainda não está pronto para ser amado.

Em Paper Bag, talvez uma das músicas mais conhecidas de Fiona, o verso “He said it’s all in your head, and I said so as everything/ But he didn’t get it/ I thought he was a man/ But he was just a little boy” (Ele disse: isso é tudo coisa da sua cabeça, e eu disse: assim como todo o resto do mundo/ Mas ele não entendeu/ Eu achei que ele fosse um homem/ Mas ele era apenas um garotinho”) representa a desilusão da cantora com um homem, e a sensação de não ser totalmente compreendida, de ter seus instintos e emoções diminuídos, por alguém que supostamente devia protegê-la e guiar o relacionamento, de acordo com as normas sociais de um mundo patriarcal.

No clipe de Paper Bag, Fiona é vista dançando em um salão com vários garotos pré adolescentes, representando a experiência de estar rodeada por homens imaturos [Imagem/Divulgação/IMDB]

Essa espécie de “feminismo derrotista”, em que se reconhece a opressão feminina ao mesmo tempo que admite-se a impossibilidade de se libertar de um sistema patriarcal, é uma ideia presente tanto nas narrativas das músicas desses álbuns quanto na reação da fanbase a esse material. As músicas são atravessadas por uma lógica caótica e derrotista, mas em meio a esse caos existe o reconhecimento e a aceitação da raiva, rancor, e tristeza da cantora, direcionadas à crueldade do mundo, dos homens e do amor.

Fetch The Bolt Cutters: sempre existirá esperança para as mulheres

Em 2018, durante um Q&A, uma fã questionou Fiona sobre seu comentário no photoshoot com a revista Spin, ao que a cantora respondeu: “That’s not true anymore. We’re gonna be fine… There’s always hope for woman. We are hope. We are the hope in the world.” (“Isso não é mais verdade. Nós vamos ficar bem… Sempre existirá esperança para as mulheres. Nós somos a esperança. Nós somos a esperança do mundo.”). 

O tom geral do seu álbum de estúdio mais recente, Fetch The Bolt Cutters (2020), é de esperança. Esperança que existe nos laços que conectam as mulheres umas às outras, nas redes que são construídas para proteger, acolher e defender. 

Os cachorros de Fiona participaram ativamente da gravação do álbum, com seus latidos sendo incorporados em diversas músicas [Imagem/Reprodução/ Pitchfork]

Em Fetch The Bolt Cutters, Fiona, pela primeira vez, se distancia do olhar masculino, ao contrário dos seus álbuns anteriores, focados nas suas relações com os homens. Nesse disco, a artista muda o foco para as suas relações com outras mulheres. 

Músicas como Shameika, Fetch The Bolt Cutters e Relay exploram as relações construídas entre mulheres durante a adolescência, e abordam sem timidez até os detalhes mais sórdidos de uma juventude feminina compartilhada: as comparações, o bullying, as disputas, as questões do corpo e da autoestima. 

Através dessas músicas, Fiona mergulha novamente no universo de uma garota adolescente, mas dessa vez enquanto uma mulher adulta, madura, que é capaz de observar essa etapa da vida por uma lente diferente, mais gentil consigo mesma e com as outras garotas que a rodeavam.

Em Fetch The Bolt Cutters, música homônima ao título do álbum, Fiona relembra seu colegial. A artista canta “When I had not yet found my bearings/ Those it girls hit the ground/ Comparing the way I was to the day she was/ Sayin’ I’m not stylish enough and i cry too much/ And I listened because I hadn’t found my own voice yet/ So all I could hear was the noise that/ People make when they don’t know shit.” (“Quando eu ainda não tinha encontrado meu caminho/ Aquelas garotas populares faziam sucesso rápido/ Comparando o jeito que eu era com o jeito que ela era/ Dizendo que não sou estilosa o suficiente e que choro muito/ E eu ouvi, porque ainda não havia encontrado minha própria voz/ Então tudo que eu conseguia ouvir era o barulho/ Que pessoas fazem quando elas não sabem de merda nenhuma.”).

Nessa mesma música a cantora retoma suas experiências no colégio através do reconhecimento da futilidade das disputas, que na época ocupavam lugar central na sua vida, e da necessidade de aprovação. Ao mesmo tempo Fiona acolhe a dor de sua adolescência, e sua versão mais jovem, de forma gentil, garantindo para si mesma que a vida é muito mais do que os impasses da juventude.

O piano é um instrumento fundamental para a maioria das composições de Fiona, sendo um dos alicerces de sua obra [Imagem/Reprodução/ Creative Commons]

A reflexão sobre um mundo patriarcal é um tema sempre presente na obra de Fiona, se expande através das melodias e das histórias que compõem suas músicas. Uma das músicas talvez mais difíceis do álbum, segundo a própria cantora em entrevista para a Genius, For Her, foi composta durante a revolta de Fiona pela nominação de Brett Kavanaugh, acusado de assédio sexual, como juíz da Suprema Corte Americana por Donald Trump. 

For Her é um grito de guerra feminino. A música é uma junção de muitos relatos e experiências de mulheres diferentes com abuso sexual. Através dessa faixa, Fiona acolhe essas mulheres e dá voz a sua raiva e revolta. Ao cantar “You rape me in the same bed your daughter was born in.” (“Você me estuprou na mesma cama em que sua filha nasceu.”), a cantora exige que a sociedade encare a realidade do abuso e que faça algo a respeito.

“‘For Her foi uma muito difícil de produzir, porque passou por tantas mudanças e contém tantas histórias que não são nem mesmo minhas para contar. É parcialmente inspirada por uma conversa que tive com essa mulher que eu conheci uns anos atrás, na época que ela era uma estagiária para uma empresa de produção cinematográfica, e ela me deu permissão para escrever uma música sobre isso. Acima de tudo é uma música para ela. Para, de alguma forma, contar uma história que ela nunca antes havia contado, em grupo, com outras mulheres.”

Fiona Apple, em entrevista à Genius.

Fetch The Bolt Cutters é acima de tudo uma carta de amor de Fiona para todas as mulheres, incluindo a si mesma. Em Newspaper, Fiona direciona esse amor à uma mulher em um relacionamento abusivo com um antigo namorado, que também a abusou. A letra desta música é cheia de solidariedade, contida em versos que Fiona dedica para essa mulher desconhecida.

O álbum Fetch The Bolt Cutters recebeu uma rara nota 10/10 pela Pitchfork [Imagem/Reprodução/IMDB]

Apesar de abordar experiências tão violentas, o tom geral das músicas ainda é esperançoso. O álbum mostra que existe esperança para as mulheres através da revolta coletiva, da união e do acolhimento uma das outras. Heavy Balloon é talvez a música que mais define a mensagem central da obra de Fiona. Nessa música, a artista compõe sobre a necessidade de se reerguer e se expandir, para além das amarras sociais e expectativas alheias. 

Ao cantar “I spread like strawberries/ I climb like peas and beans.” (“Eu me espalho como morangos/ Eu escalo como pés de ervilha e feijão.”) Fiona passa uma mensagem para todas as mulheres que a escutam. A cantora pede a seu público que cresça, se espalhe, e resista, para além das amarras que as prendem. 

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