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Dia 06 | A Feira do Livro 2026: com livros e leitores, a São Paulo cinza ganha um pouco mais de cor

O sexto dia do evento reuniu grandes nomes da cena literária, jornalística e cultural e trouxe o público para as ruas do Pacaembu no feriado
Por Theo Zapella (theozapella@usp.br)

Na última  quinta-feira (4), A Feira do Livro 2026 seguiu para seu sexto dia de programação na cidade de São Paulo. Desde as 10 horas da manhã, tendas, estandes, palcos e praças distribuídos na Praça Charles Miller já se encontravam cheios, repletos de leitores e passantes interessados, que vieram às ruas do Pacaembu para prestigiar a literatura, cultura e criatividade durante o feriado. 

O dia, ensolarado e muito movimentado, contou com mesas de conversa sobre  os mais variados temas: espiritualidade afro-brasileira, memória familiar, esporte latino-americano, cosmovisões indígenas, botânica e neurobiologia, samba brasileiro e o genocídio palestino. Além disso, programações paralelas ocorreram nos tablados literários da praça. 

A feira do livro recebeu 80 mil visitantes na sua edição passada, em 2025. Neste ano, segundo o g1, a expectativa dos organizadores é de repetir ou superar esse número [Imagem: Theo Zapella/ Acervo Pessoal]

O fluxo de visitantes cresceu  de forma expressiva desde o dia anterior  (quarta-feira, 3) com a chegada do Feriado, como analisa Luana Farnezi, que trabalha no atendimento da lojinha da Quatro Cinco Um, dentro da Feira. “Hoje, no feriado, está bem lotado, mas acredito que esse final de semana vai ser o mais cheio”, ela conta. 

A atendente também fala sobre a diversidade do público que frequenta o evento: “Famílias, pessoas passeando, gente correndo e de bicicleta, crianças querendo livros. O público vem não só pelo simples passeio de andar ao ar livre, mas querendo consumir, ver cultura mesmo.”

Luana, que está a semana toda na Feira, pontua suas impressões pessoais do evento: “Sou do Rio e não conhecia a Feira. Fiquei muito encantada, porque lá a gente não tem tantas feiras literárias. Eu mesma comprei vários livros”. Ela também relata que, apesar do alto consumo, percebe que os visitantes se atentam ao uso excessivo de sacolas, e muitos trazem as suas próprias de casa, para fins de sustentabilidade. “É bem legal de ver que a galera está querendo consumir, mesmo, cultura, sair um pouco do digital e pegar o papel físico. Acho isso importante.”

Entre as muitas tendas, os livros encontram-se à disposição para serem folheados e adquiridos pelo público. A Feira do Livro 2026 conta com mais de 160 editoras, livrarias e instituições culturais [Imagem: Theo Zapella/ Acervo Pessoal]

Impacto visual

Para a sua quinta edição, a Feira do Livro apresenta uma identidade visual assinada pelo Estúdio Campo, de Paula Tinoco e Roderico Souza. Ao longo dos corredores formados pelas  tendas, cores vibrantes, formas geométricas e ilustrações de frutas e legumes acompanham o trajeto do visitante, como forma de simbolizar as feiras livres, clássicas no Brasil. 

“Desde 2023 tratamos desse tema, relacionando a feira livre com a Feira do Livro, especialmente porque a nossa feira também é aberta e gratuita”, avalia Isadora Bertholdo, designer e coordenadora de arte da Quatro Cinco Um, em entrevista ao Sala33. As artes adornam tanto a ambientação do espaço quanto também o novo site e redes sociais da Feira do Livro.

O que impacta os olhos mais atentos — e funciona como uma interessante alusão visual — é a percepção que as frutas e legumes ilustrados, quando vistas de perto, não são apenas desenhos simples, mas sim figuras minuciosamente compostas de pequenos elementos tipográficos. Segundo Isadora, “Foi um jeito que eles [do Estúdio Campo] conseguiram trazer para juntar as frutas com o universo dos livros”. 

Isadora conta que, nesse ano, foram incorporadas as listras, que aludem também aos clássicos toldos dos feirantes brasileiros. A praça está dividida em 4 zonas (A, B, C e D), e cada zona é representada por uma cor e uma fruta específicas. Então, a paleta de cores reduzida e vibrante é, além de um recurso estético, um meio de localização na feira. 

“Eu acho que deu uma força pro ambiente. Ver essa estrutura toda colorida chama bastante atenção e é mais acolhedor. Tiveram anos em que usamos cores mais frias e ficamos sentindo falta de algo mais colorido, que alegre o público. Ainda mais porque está fazendo super frio ultimamente.”

Isadora Bertholdo

Orixás: coletividade em tempos de individualismo

Às 11 horas da manhã, o Palco da Praça deu lugar à primeira mesa do dia. Mediada pela jornalista Adriana Ferreira Silva, a sessão teve como convidados os pesquisadores e sacerdotes de religião afro-brasileira João Tokunbó Carneiro e Sidnei Nogueira. Os três discutiram a obra mais recente de João, Café da Manhã com os Orixás (Editora Pallas, 2025)

A partir do livro,  João propõe ao leitor uma nova forma de dar início ao dia, com reflexões e aprendizados suscitados pela leitura de mitos e passagens das tradições de matriz africana. Para Adriana, “é uma delícia começar o dia com os orixás. O livro, além de inspirador, é provocador também.”

Sidnei, à esquerda, também é autor de livros, e contou sobre o processo de idealização de seu livro infantil “A Menina dos Cabelos d’Água”, que faz referência à imagem de Iemanjá, em uma narrativa voltada para as crianças [Imagem: Theo Zapella/ Acervo Pessoal]

Os convidados alertaram para a importância do reconhecimento dos terreiros como um espaço que, para além de sua dimensão religiosa, é também um ambiente produtor de conhecimento, ética e ação política. A convivência com o ambiente acadêmico — João, mestre em Filosofia e pós-graduado em Psicologia; Sidnei, doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP)  — fez ambos concordarem que a concepção de Ciência presente em nossa sociedade ainda bebe de uma perspectiva muito ocidentalizada e etnocêntrica, discriminatória com os saberes ancestrais. 

Outro ponto fortemente afirmado pelos dois palestrantes é a importância da coletividade, pilar central no Candomblé — quase em dissonância com o mundo capitalista ocidental, sob uma mentalidade cada vez mais individualista. Sobre coletividade e pertencimento, João Tokunbó afirma: “Não é lendo um livro de mitologia que você vai entender o candomblé, é estando em comunidade. Porque a nossa ética é uma ética de comensalidade, de comunidade e, principalmente, de alegria.”

“O pessoal acha que candomblé é bagunça, que a gente pode tudo. Não. Então, as pessoas precisam começar a saber um pouco mais sobre nós. Por isso que é importante escrever, é importante produzir, é importante falar sobre nós. Isso é muito importante.”

Sidnei Nogueira

A mesa, que teve a duração de uma hora e vinte minutos, transitou entre esses e muitos outros temas, como a intolerância religiosa, o crescimento da extrema-direita, o aumento dos discursos de ódio possibilitados pela internet. Apesar dos temas sérios, a mensagem geral deixada pelos convidados ao fim da mesa foi de esperança. Em um futuro melhor, em sociedades melhores, em melhor harmonia com a natureza e em maior liberdade religiosa e identitária. 

Sidnei, João e Adriana ao final da mesa, que se estendeu um pouco mais do que o previsto devido às longas conversas que ocorreram na sessão [Imagem: Theo Zapella/ Acervo Pessoal]

Clarice, complexa e questionadora

No Tablado Bubu, do outro lado da praça, teve início, às 13 horas, a sessão Memória, errância e sensibilidade em Clarice Lispector. Nela, a professora, crítica literária e psicóloga Yudith Rosenbaum dialogou com a professora e doutoranda na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Mariana Bijotti a  respeito da obra e da importância da enigmática escritora, mediadas pelo professor da Universidade de Princeton, Pedro Meira Monteiro. 

Pedro, Yudith e Mariana integram três dos 25 autores do livro “Dá-me a tua mão: Clarice Lispector, memória, errância e sensibilidade” (Peixe Elétrico Ensaios), que reúne pesquisas e análises da obra da escritora ucraniana-brasileira. [Imagem: Theo Zapella/ Acervo Pessoal]

A conversa, apesar de situada em um espaço menor em comparação às outras mesas, cativou um grande público, e muitas pessoas sentaram-se no chão e ao redor da tenda para acompanhar a mesa. O público incluía  indivíduos das mais variadas idades, de acordo com a ideia apresentada pelas convidadas, de que a profundidade poética Clarice reverbera significativamente em seus leitores — sejam eles quem forem. 

Uma ideia ressaltada pelos três palestrantes, cada um à sua maneira, foi  a grande presença do “Outro” na obra de Clarice como um todo, sendo esse Outro um alguém-algo que é “a quem ela se dirige e a quem ela busca incessantemente”, segundo Yudith.

“Às vezes eu tenho a impressão que a Clarice tem uma subjetividade tão densa, tão intensa e tão inquieta que ela precisa sair dessa subjetividade e encontrar o outro do mundo”

Yudith Rosenbaum

Essa representação de uma alteridade — exercício narrativo e profundamente imagético, que Lispector realiza em muitos de seus escritos — assume diversas formas no decorrer da antologia Clariciana: tanto formas humanas, quanto não-humanas, como uma barata, uma rosa ou até um chiclete, aspecto abstrativo que caracteriza e singulariza o estilo da autora.

Yudith também pontua os experimentos de Clarice na esfera da linguagem como algo que a singulariza. Diferentemente de Guimarães Rosa, por exemplo, Lispector não faz o uso de neologismos, mas sim um jogo sintático, no qual brinca com os limites de sentido das palavras que já nos são conhecidas. “Nos contos e romances da Clarice, não importa muito a temática, você sente que ela está em busca dessa potência da palavra, para dizer aquilo que não pode ser dominado nem domesticado”.

Apesar de discorrerem sobre diversas obras, ao final da palestra, quando perguntadas por um dos ouvinte sobre  qual seria o melhor livro para adentrar o universo dos romances da escritora, as duas convidadas concordaram em eleger A Hora da Estrela (Editora Rocco, 1977), último livro publicado por Clarice em vida e considerado um clássico em sua obra como um todo.

*Imagem de capa: Theo Zapella/ Acervo Pessoal

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