por Sara da Franca (saradafranca@usp.br)
É preferível acreditar que crianças vivem absortas em sua inocência, que acreditam no papai-noel, em fadas e querem só fazer o bem. Mas até quando essa lógica funcionaria? Crianças também, pela mesma ingenuidade, podem querer ser bruxas — e bruxas más. Não existe só o lado bom da imaginação. Veneno para as Fadas (Veneno para las Hadas, 1986), volta às salas de cinema remasterizado em 4K nesta quinta-feira (23) e não procura aterrorizar pelo sobrenatural, mas pela crueldade da inocência.
Na obra-prima do conceituado diretor mexicano Carlos Enrique Taboada somos introduzidos a Flavia (Elsa María Gutiérrez), menina abastada — não só de dinheiro, mas da atenção dos pais — que, ao chegar em sua nova escola, conhece Veronica (Ana Patrícia Rojo), garota órfã fascinada com o mundo fantástico das bruxas contado por sua babá. As meninas viram amigas, mas a influência das fantasias de Veronica torna a realidade de Flavia cada vez mais desafiadora.
O longa possibilita a afeição dos góticos pela abordagem profana do terror, claro: pactos com o diabo, velas pintadas de preto, meninas afeiçoadas por bruxaria, culpa e medo. Mas a história consegue abranger até os mais receosos trajados de branco por utilizar a manipulação da imaginação infantil como enfoque — afinal, Flavia e Veronica rendem suas realidades ao que são convencidas a acreditar. Terror para quem não gosta de terror.
Aqui, a ingenuidade do comportamento é o ponto de confluência das personalidades das protagonistas, com interpretações razoáveis de Gutiérrez e Rojo. Flavia é tímida, temerosa, obediente à palavra dos mais velhos que a circundam. Ingênua. Veronica é imponente, manipuladora, ludibriada pelo mundo sobrenatural do qual acredita fazer parte — tão ingênua quanto a outra.

Ser criança é estar no período mais fértil da imaginação, mas também é fazer tudo que lhe é mandado. Tudo pode ser místico ao mesmo tempo que há de se seguir todas as regras. No roteiro, esse conflito é demarcado pelas características das personagens principais: Verônica é a representação de ser o que acredita ser na infância — se diz bruxa, não tem dúvidas, incorpora tudo que conhece para seu próprio universo. Flavia segue a voz da razão dos adultos, é resistente mas quer entender o mundo pelos olhos da amiga. As meninas demonstram, então, a linha tênue entre acreditar que a infância é mística em suas possibilidades e que a racionalidade já perpassa as decisões nesse período, traço evidente nas cenas em que as garotas dividem o tempo de tela.
Taboada mostra essa dualidade em suas escolhas na direção, inspirado nas produções da Hammer Films com horror gótico, adaptando para o cinema latino-americano. Dessa forma, retratou a sutileza das meninas em contraste à tragédia da situação. Passear em um cemitério com uma melodia em tons maiores ao fundo, encarar as crianças de frente, em contraste com as faces ocultas dos adultos, não se limitar ao chiaroscuro, mas demonstrar o que é o terror à luz do sol são alguns exemplos. Não inova, mas não decepciona.
Também responsável pelo roteiro, o mexicano deixa a narrativa estagnar mesmo com 90 minutos e um bom tema. Flavia e Veronica parecem nunca ter mais a oferecer para o espectador até as cenas finais. A suposta pequena feiticeira não enfrenta frustrações e, quando isso se esboça em algum momento, não é trabalhado. Já a doçura constante de Flavia a impede de contestar de fato sua antagonista, amornando a evolução da personagem.A partir daí o filme segue de forma monótona, é possível perceber de antemão que a mesma dinâmica vai acontecer assim que uma situação se constrói.
“O último ato faz um filme. Surpreenda-os no final, e você terá um sucesso. Você pode ter falhas, problemas, mas, no final, surpreenda-os e você terá um sucesso.”
Adaptação. (Adaptation., 2002)
Mesmo que previsível, o longa consegue ter um bom final — corajoso por ter chegado à versão definitiva do filme, visto que uma versão mais piedosa foi gravada. Garante nele a sua alcunha de clássico no México e a sensação de uma conclusão no mínimo justa para quem assiste. A (des)mitificação dos papéis de Flavia e Veronica é o que é inerente à ingenuidade das crianças: se encontrar ou se perder na própria fantasia, e ter que encarar a realidade mesmo assim.

O tema, a abordagem, o profano chamam a atenção de quem já se interessa por títulos como Valerie e a Semana das Maravilhas (Valerie a Týden Divu, 1970), A Bruxa do Amor (The Love Witch, 2016) e até mesmo Garota Infernal (Jennifer’s Body, 2009), por fazerem parte do nicho weird girl movie (em português, ‘filme de menina estranha’) quando esse universo se encontra com a subversão feminina e o horror. Assistir à remasterização pode agradar esse público, levar a alguns novos pins salvos no Pinterest, mas raramente vai entrar em uma lista de quatro favoritos.
Veneno para as Fadas é um cânone mexicano, mas não ultrapassa o regular. É honesto, sem excessos, porém retido à fantasia do que quer horrorizar: as fantasias infantis, que por algum motivo começam e em algum momento acabam. No geral, pode ser uma boa opção para quem quer fugir de blockbusters, como o próprio diretor preferiu fugir na década de 1980, e descobrir um clássico do cinema fora do eixo EUA-Europa.

Veneno para as Fadas já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: [Reprodução/IMDb]
