Por Ana Germano (anabrgermano@usp.br) tunísia
A Tunísia desembarca na América do Norte em busca de consolidar seu estilo de jogo. Após impressionar o mundo em 2022 ao bater a seleção francesa na fase de grupos da Copa sediada pelo Catar, as Águias de Cartago procuraram reforçar e rejuvenescer áreas específicas do elenco, mas sem perder sua principal característica: a solidez defensiva. Com uma campanha firme e concisa nas Eliminatórias Africanas, a Seleção Tunisiana busca se apoiar em suas competências sem perder de vista suas limitações.
Embora tenha participado de seis edições da Copa — nos anos de 1978, 1998, 2002, 2006, 2018 e 2022 —, a seleção ainda guarda consigo uma vontade antiga: se classificar pela primeira vez para a fase mata-mata. Alcançar a fase de 16 avos de final em sua sétima participação seria um marco histórico e inédito para a Tunísia.
Retrospecto Tunisiano
Filiada à FIFA desde 1960, a seleção da Tunísia é uma das equipes mais tradicionais do futebol africano. Sua história é construída na consistência das campanhas continentais e na frequência em que participa dos grandes campeonatos internacionais. Ao longo das últimas décadas, a Seleção Tunisiana se fixou como uma das principais forças do norte da África, ao lado de países como Egito, Argélia e Marrocos. Além de acumular participações em Copas do Mundo, a equipe também protagonizou campanhas de destaque na Copa Africana de Nações.
O principal título da história tunisiana foi conquistado em 2004, quando sediou e venceu a Copa Africana de Nações pela primeira vez. Além do troféu, a seleção soma diversos resultados expressivos na competição, como vice-campeonatos e presenças recorrentes nas fases eliminatórias.
Em Copas do Mundo, a Tunísia entrou para a história ao se tornar a primeira seleção africana a vencer uma partida em Mundiais, quando derrotou o México por 3 a 1 na Argentina, em 1978. Embora nunca tenha ultrapassado a fase de grupos, a equipe conquistou resultados marcantes, como a vitória sobre a França — então campeã mundial — por 1 a 0 na Copa de 2022.
A Tunísia garantiu sua vaga para a Copa do Mundo de 2026 com uma campanha dominante nas Eliminatórias Africanas. Integrante do Grupo H ao lado de Namíbia, Libéria, Malawi, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe, a seleção terminou a fase classificatória na liderança com nove vitórias e um empate em dez partidas. O desempenho foi marcado pela consistência defensiva: os tunisianos encerraram toda a campanha sem sofrer um único gol, feito raro em eliminatórias para a Copa do Mundo.
A classificação foi confirmada em setembro de 2025, quando a Tunísia venceu a Guiné Equatorial por 1 a 0 com um gol nos acréscimos e assegurou matematicamente a vaga para o Mundial. Sob o comando de Sami Trabelsi, a equipe acumulou 28 dos 30 pontos possíveis e dominou o grupo do início ao fim. Após iniciar a campanha com três vitórias e um empate, a seleção embalou uma sequência de seis triunfos consecutivos e confirmou sua sétima participação em Copas do Mundo, a terceira seguida.
Convocados:
No dia 15 de maio, o treinador Sabri Lamouchi anunciou os 26 jogadores escolhidos para representar a Tunísia na Copa do Mundo 2026. A lista final foi:
Goleiros:
- Aymen Dahmen (Sfax, TUN)
- Sabri Ben Hassen (ES Sahel, TUN)
- Abdelmouhib Chamakh (Club Africain, TUN)
Defensores:
- Yan Valéry (Young Boys,SUI)
- Moutaz Neffati (Norkoping, SUE)
- Dylan Bronn (Servette FC, SUI)
- Raed Chikhaoui (Monastir, TUN)
- Montassar Talbi (Lorient, FRA)
- Adem Arous (Kasimpaca TUR)
- Omar Rekik (Maribor SVN)
- Ali Abdi (Nice FRA)
- Mohamed Ben Hmida (Esperánce, TUN)
Meio-campistas:
- Ellyes Skhiri (Eintracht Frankfurt, ALE)
- Anis Ben Slimane (Norwich, ENG)
- Rani Khedira (Union Berlin,ALE)
- Mortadha Ben Ouanes (Kasimpaca, TUR)
- Ismaël Gharbi (Augsburg, ALE)
- Mohamed Hadj-Mahmoud (Lugano, CHE)
- Hannbial Mejbri (Burnley, ING)
Atacantes:
- Elias Saäd (Hannover, ALE)
- Khalil Ayari (PSG, FRA)
- Elias Achouri (Copenhagen, DNK)
- Sebastian Tounekti (Celtic, SCO)
- Hazem Mastouri (Dynamo Moscow, RUS)
- Firas Chawat (Club Africain, TUN)
- Rayan Elloumi (Vancouver Whitecaps, CAN)
Destaques
Hannibal Mejbri

Hannibal não é o primeiro Mejbri a jogar na seleção da Tunísia. Seu pai, Lotfi Mejbri, também foi jogador de futebol, o que prova que o talento dessa família é hereditário [Imagem: Reprodução/Instagram/@hannibal.mj]
Contratado pelo Manchester United aos 16 anos por 10 milhões de euros, o jovem meia de 23 anos ocupa a posição de protagonista na seleção. Com partidas de destaque, como o empate com o Brasil em novembro de 2025, Hannibal desperta a expectativa do povo tunisiano e carrega a responsabilidade de ser símbolo de renovação para o país.
Seu estilo de jogo combina criatividade e participação defensiva, o que faz dele um jogador versátil que pode atuar em diferentes funções no meio-campo e destaca-se pela intensidade, pressão na marcação e recuperação de bola. Com a posse, gosta de conduzir, driblar em espaços reduzidos e realizar passes verticais para acelerar o ritmo da partida. Sua habilidade, visão de jogo e competitividade o tornam influente dentro de campo, embora sua agressividade às vezes gere problemas disciplinares.
Elias Achouri

Nascido na ilha de Reunião, um território ultramarino francês no Oceano Índico, Achouri optou por representar a seleção da Tunísia [Imagem: Reprodução/Instagram/@elisachouri]
O ponta esquerda — que também pode atuar como meia — baseia seu estilo de jogo na velocidade, nos dribles e em sua capacidade de desarmar o oponente no um contra um. Além da técnica individual, Achouri se destaca por sua movimentação ofensiva e pela capacidade de aparecer na área para participar de gols e assistências.
Normalmente, o jogador costuma receber aberto na ponta, partir para cima dos defensores e criar oportunidades tanto com conduções para dentro quanto com cruzamentos e passes decisivos. Por ser destro e atuar pela esquerda, também busca cortar para o meio para finalizar ou criar jogadas. Achouri se mostra ser um clássico ponta criativo e vertical, que procura acelerar o jogo através de dribles, arrancadas e ações decisivas no último terço do campo.
Quem comanda a Tunísia
Sabri Lamouchi iniciou sua trajetória de treinador em 2012 e obteve bons resultados desde o princípio: em 2014, foi responsável por levar a seleção da Costa do Marfim à Copa do Mundo. O ex-meio-campista francês assumiu o comando da Seleção Tunisiana em janeiro de 2026 após a demissão de Sami Trabelsi, que ocorreu um dia depois da Tunísia ser eliminada nas oitavas de final da Copa Africana de Nações (CAN) ao perder para o Mali nos pênaltis.
Contudo, a dança das cadeiras no comando técnico da seleção é um problema mais antigo que a demissão de Sami e a contratação de Sabri. A Seleção Tunisiana teve uma trajetória conturbada nos bastidores e foi comandada por quatro técnicos diferentes durante o ciclo e as Eliminatórias: Jalel Kadri — que comandou a Tunísia durante a Copa de 2022 —, Montasser Louhichi, Sami Trabelsi e o atual técnico Sabri Lamouchi, que chega com a missão de levar a Tunísia à inédita classificação à fase mata-mata.

Aos 54 anos, o ex-técnico do Nottingham Forest tem contrato com a seleção até 31 julho de 2028 [Imagem: Reprodução/Instagram/@sabri_lamouchi]
O primeiro contato entre a seleção e o treinador aconteceu em março de 2026, durante o período de treinos da Tunísia que incluiu dois amistosos. Já em sua primeira convocação, o clima de mudança e a mensagem que Lamouchi queria passar eram claros: a reconstrução da Tunísia seria feita em torno dos jovens talentos do país, com a vivacidade sobreposta à experiência.
De forma tática, Lamouchi escalou a Tunísia em sua estreia contra o Haiti em um esquema 4-3-3 e em um 4-2-3-1 contra o Canadá, o que gerou respectivamente uma vitória e um empate, ambos sem tomar nenhum gol. Resta saber como ele vai organizar essas abordagens em cada um dos jogos da Copa do Mundo.
Tunísia taticamente
Tradicionalmente, a Tunísia é uma das seleções mais pragmáticas da África e tende a jogar mais fechada na espera de um contra-ataque ao invés de trabalhar com a posse de bola. — mesmo que tenha essa possibilidade, já que conta com jogadores mais técnicos em seu elenco.
O país apresenta uma proposta de jogo baseada na organização tática e na disciplina coletiva. A equipe alterna entre o 4-2-3-1 e o 4-1-4-1, de maneira a adaptar sua estrutura conforme os diferentes momentos da partida. Na fase ofensiva, costuma construir desde a defesa com a participação de um volante na saída de bola e na liberação dos laterais para avançar pelos corredores. Sem a posse, prioriza a compactação das linhas e a ocupação dos espaços para formar um bloco defensivo sólido e difícil de ser superado.
No ataque, a seleção busca explorar principalmente os lados do campo por meio da utilização de pontas velozes e habilidosos, para acelerar as transições e criar situações de vantagem no um contra um. O meio-campo combina intensidade física e qualidade na circulação da bola, enquanto jogadores mais criativos recebem liberdade para atuar entre as linhas e conectar os setores. À frente, a presença de um centroavante de referência oferece apoio ao jogo direto e às disputas aéreas, o que reforça um modelo de jogo pragmático que valoriza a eficiência, a segurança defensiva e os ataques verticais.


Sistemas 4-2-3-1 e 4-1-4-1. O segundo esquema só ocorre durante o jogo quando o volante Skiri volta para marcar [Arte: Ana Germano/buildlineup.com]
Programação da Tunísia
A seleção da Tunísia faz sua estreia no Mundial às 22h (BRT) do domingo (14), em partida contra a Suécia no Estádio Azteca, no México. A partida é vista como a mais cotada para um bom desempenho tunisiano no grupo, e a seleção chega à Copa do Mundo preparada para buscar um grande resultado.
Após sua estreia, a Tunísia enfrentará o Japão às 23h (BRT) do dia 20, no mesmo estádio, em um jogo que tem tudo para ser desafiador do início ao fim. Já no dia 25, o terceiro e último jogo tunisiano da fase de grupos será contra a Holanda, seleção mais tradicional e vista como a grande favorita do Grupo F.
*Imagem da capa: Reprodução/Instagram/@ftf.tn
