Por Fernando Lucchi (fernandolucchi@usp.br) japão
Apontado por muitos como o principal candidato à zebra da Copa do Mundo de 2026, o Japão chega ao torneio cercado por expectativas raramente vistas em sua história. Afinal, um ciclo marcado por vitórias sobre algumas das maiores potências do futebol mundial, como a Alemanha, o Brasil e a Inglaterra, naturalmente elevou o patamar de confiança em torno dos Samurais Azuis.
O momento atual do futebol japonês é tão sólido que chega a ser difícil imaginar que, há apenas 36 anos, o país sequer possuía uma liga profissional. Agora, na América do Norte, o Japão busca transformar o respeito conquistado ao longo das últimas décadas em resultados concretos, com a ambição de se firmar como a principal seleção fora do tradicional eixo Europa-América do Sul nesta edição do Mundial.
Histórico em Copas: do amadorismo à presença carimbada
Por mais que diversas gerações tenham crescido com o Japão como principal seleção asiática na Copa do Mundo, o trabalho de profissionalização do futebol no país é relativamente recente. Até os anos 80, a principal liga do esporte no país era a Japan Soccer League, competição em que os clubes eram extensões de empresas, e os jogadores, funcionários das corporações.
O planejamento para profissionalizar o esporte no país começou a ocorrer em 1987 e, em 1991, a J.League foi implementada como primeiro torneio oficial, mas lançada somente dois anos depois. Impulsionados com a chegada de jogadores da elite mundial, como o astro brasileiro Zico, o futebol japonês rapidamente ganhou popularidade no país e o desenvolvimento tático resultou na primeira classificação dos Samurais Azuis para a Copa do Mundo, apenas sete anos após a inauguração da liga nacional, na edição de 1998. Desde então, o Japão se consolidou como uma das seleções mais competitivas do futebol internacional e, em 2026, disputará seu oitavo Mundial consecutivo.

Zico foi um personagem tão marcante para o futebol japonês que recebeu o apelido de “Samurai de Quintino”, e ainda treinou o Japão na Copa de 2006, na qual enfrentou o Brasil [Imagem: Gabinete de Relações Públicas do Governo do Japão/Wikimedia Commons]
O ciclo do Japão: primeira classificada e vitórias históricas
A jornada do Japão rumo à América do Norte começou com alguns amistosos nos primeiros meses de 2023, já que a equipe não disputou a primeira fase das Eliminatórias da Confederação Asiática de Futebol (AFC). Nesse período, os Samurais Azuis tiveram um desempenho de seis vitórias em oito jogos, com goleadas contra a Alemanha e o Canadá. No fim do mesmo ano, o torneio qualificatório começou para os japoneses e, no grupo B da segunda fase contra Coreia do Norte, Mianmar e Síria, o time nipônico avançou com uma campanha de 100% de aproveitamento.
Em 2024, o Japão jogou a Copa da Ásia, mas a campanha foi decepcionante: apesar de avançar da fase de grupos sem muitas dificuldades, com exceção de uma derrota para o Iraque, a equipe não conseguiu apresentar um futebol dominante contra times inferiores. No mata-mata, a equipe superou o Bahrein, mas foi eliminada nas quartas de final para o Irã com um gol no último minuto, o que gerou certa apreensão sobre como o time se comportaria na rodada seguinte do qualificatório para o Mundial.
Apesar da pressão sobre os Samurais Azuis, a seleção dominou o restante das Eliminatórias. Na terceira fase, o grupo contava com Arábia Saudita, Austrália, Bahrein, China e Indonésia, e a goleada por 7 a 0 contra os chineses na primeira rodada serviu para recuperar confiança e começar o processo da classificação sem sustos. Em março de 2025, a vitória contra a Seleção Barenita por 2 a 0 assegurou a presença do Japão na sua oitava Copa do Mundo seguida, como a primeira seleção classificada além dos países-sede, com três rodadas de antecedência.
Com a vaga no Mundial garantida, os japoneses terminaram o ciclo com a disputa de alguns amistosos. Os principais, contra Brasil e Inglaterra, resultaram em surpreendentes vitórias dos Samurais Azuis, que chamaram a atenção do mundo futebolístico. Desde o triunfo contra a Seleção Brasileira, o Japão venceu todos os seis jogos que disputou, com um desempenho que atraiu os olhares da mídia e dos apreciadores do bom futebol aos nipônicos como grandes candidatos à surpresa na Copa do Mundo.
A convocação final
Os escolhidos para representar o Japão na Copa do Mundo foram divulgados pelo treinador Hajime Moriyasu no dia 15 de maio. Os selecionados foram:
Goleiros
- Tomoki Hayakawa (Kashima Antlers, JPN)
- Keisuke Osako (Sanfrecce Hiroshima, JPN)
- Zion Suzuki (Parma, ITA)
Defensores
- Yuto Nagatomo (FC Tokyo, JPN)
- Shogo Taniguchi (Sint-Truiden, BEL)
- Ko Itakura (Ajax, HOL)
- Tsuyoshi Watanabe (Feyenoord, HOL)
- Takehiro Tomiyasu (Ajax, HOL)
- Hiroki Ito (Bayern, ALE)
- Ayumu Seko (Le Havre, FRA)
- Yukinari Sugawara (Werder Bremen, ALE)
- Junnosuke Suzuki (Copenhague, DEN)
Meio-campistas
- Shuto Machino (Borussia Mönchengladbach, ALE)
- Daichi Kamada (Crystal Palace, ING)
- Ao Tanaka (Leeds United, ING)
- Kaishu Sano (Mainz 05, ALE)
Atacantes
- Junya Ito (Genk, BEL)
- Koki Ogawa (NEC Nijmegen, HOL)
- Daizen Maeda (Celtic, SCO)
- Ritsu Doan (Eintracht Frankfurt, ALE)
- Ayase Ueda (Feyenoord, HOL)
- Keito Nakamura (Stade Reims, FRA)
- Takefusa Kubo (Real Sociedad, ESP)
- Yuito Suzuki (Freiburg, ALE)
- Kento Shiogai (Wolfsburg, ALE)
- Keisuke Goto (Sint-Truiden, BEL)
Apesar de nenhuma grande surpresa na lista japonesa, os desfalques de jogadores importantes ao longo do ciclo por conta de lesões, como Kaoru Mitoma, Takumi Minamino e, mais recentemente, Wataru Endo, devem impactar no modelo de jogo dos Samurais Azuis no torneio.
Como joga o Japão?
Definir um onze inicial japonês se tornou uma tarefa extremamente difícil para Hajime Moriyasu, uma vez que várias lesões de jogadores importantes exigiram alterações importantes no time. O técnico comanda o Japão desde 2018, e a base tática dos Samurais Azuis passou por uma alteração marcante no ciclo atual quando comparado ao time de 2022: a equipe abandonou o 4-2-3-1 e passou a atuar em um 3-4-2-1, que também se converte em um 3-5-2, no qual os alas são pontas de ofício. Os princípios dos japoneses passam muito por uma base defensiva compacta e com linhas flexíveis, o jogo em velocidade com a criação pelos lados e a intensidade para exercer controle do ritmo da partida.

A formação com três zagueiros surgiu como resposta ao envelhecimento dos laterais japoneses e à escassez de substitutos à altura [Arte: Fernando Lucchi/sharemytactics.com]
O ataque japonês busca principalmente transformar as jogadas pelas pontas em chances claras de gols para os meias e atacantes. Para isso, os alas se revezam com os meias abertos com o objetivo de confundir os defensores adversários, gerar dobras, verticalizar os corredores e garantir apoio no jogo individual. Ao longo dos noventa minutos, é muito comum ver os pontas trocarem de posição entre si para conseguir espaços no ataque, e Ayase Ueda é o centroavante com a obrigação de aproveitar as chances criadas pelos pontas ao seu redor.
Todo esse sistema tático que os Samurais Azuis montaram torna o setor ofensivo da equipe um dos mais imprevisíveis de todo o torneio, mas as ausências de jogadores-chave, como Minamino na criação de jogadas e Mitoma, um dos dribladores mais eficientes do mundo, devem ser sentidas no Mundial. Nakamura e Junya Ito compensam na velocidade, mas a qualidade técnica e de produção individual decai.
Quando não tem a bola, o Japão se defende em um 5-2-3, em que dois dos pontas recuam para a última linha de defesa, enquanto os meias abertos, juntos do atacante, exercem o primeiro combate em pressão alta para proteger o meio e a zaga. Dos volantes, Kaishu Sano é o principal marcador que protege o terço final, enquanto Kamada atua como segundo volante, com mais liberdade para atacar e encontrar bons passes, mas também com a obrigação de retornar para a marcação.
Outra possibilidade defensiva que os Samurais adotaram ao longo de suas partidas é trazer laterais de ofício a campo no lugar dos atacantes que compõem as alas, de forma a garantir uma estabilidade defensiva maior em detrimento de um contra-ataque mais perigoso.
Apesar de manter um sistema tático muito solidificado, as principais dúvidas japonesas moram justamente na saúde do elenco. Nos últimos meses antes do Mundial, alguns dos convocados que deveriam ser peças importantes como Wataru Endo e Yuito Suzuki tiveram muitos problemas físicos, além de Hiroki Ito e Takehiro Tomiyasu, que formam o trio de zagueiros ideal, mas possuem um histórico de lesões proeminente.
Fique de olho
Takefusa Kubo
Na ausência de Minamino e Mitoma, a responsabilidade de carregar a criatividade do ataque japonês passou a ser de Kubo. O “Messi japonês” atua originalmente na ponta-direita, mas na seleção nipônica, se torna um meia armador aberto. Jogador da Real Sociedad, Take se destaca por seu estilo de jogo que se aproveita do drible curto, da agilidade e dos cortes para dentro como principal método para criar oportunidades, mas também brilha no jogo de associação com troca de passes rápidos e se movimenta constantemente em busca de infiltrações e espaços nas defesas rivais.

Kubo fez base no Barcelona até 2015, quando retornou ao futebol japonês, e, posteriormente, foi contratado de graça pelo Real Madrid, mas não teve espaço na equipe madrilenha [Imagem: Reprodução/Instagram/@takefusa.kubo]
Zion Suzuki
Nascido nos Estados Unidos, Zion é uma das poucas certezas do time titular japonês para a Copa. O jogador de 23 anos atua no Parma, e desde que chegou, em 2024, é um dos principais guarda-redes do campeonato italiano. Com 1,90m, Suzuki é um goleiro que reúne tudo que o futebol moderno exige: é seguro na saída de jogo com os pés, é ágil para se antecipar em lances de um-contra-um, tem impulsão para efetuar defesas difíceis e transmite confiança sob a trave. Caso faça um bom Mundial, não seria uma surpresa ver Zion em um grande clube europeu.

Suzuki é filho de pai ganês e mãe japonesa e, apesar de ter nascido nos EUA, cresceu em Saitama, no Japão [Imagem: Reprodução/Instagram/@zionsuzuki]
Ayase Ueda
Outra posição em que a briga pela titularidade parece estar bem definida é o centroavante, e o nome de confiança do técnico Moriyasu é Ayase Ueda. O atacante do Feyenoord foi o artilheiro isolado da liga holandesa de 2025/26, com 25 gols em 31 jogos. Tem como principais características a mobilidade, a precisão e potência nas finalizações e a presença de área. Ueda estreou pela seleção no ciclo de 2022 e, embora tenha disputado a Copa como reserva, se consolidou como o principalmente goleador dos Samurais Azuis para este Mundial, tido como sucessor natural do ídolo japonês Yuya Osako.

Ueda foi o responsável por marcar o gol da virada do Japão contra o Brasil na vitória dos Samurais Azuis, em outubro de 2025 [Imagem: Reprodução/Instagram/@bee18_official]
Projeção para a Copa do Mundo
O Japão está no Grupo F da Copa, junto de Holanda, Suécia e Tunísia. A estreia da equipe no torneio ocorre contra os holandeses no dia 14 de junho, às 17 horas (BRT). O estádio que recebe o confronto é o AT&T Stadium em Arlington, Texas.
O grupo é forte e o nível de enfrentamento será altíssimo, mas, se há algo que o trabalho de Hajime Moriyasu demonstrou nos últimos anos, é que os Samurais Azuis são capazes de competir de igual para igual com qualquer adversário, independentemente do continente a que pertence ou da tradição estampada na camisa que estiver do outro lado do campo.
Mesmo com alguns desfalques e dúvidas para o torneio, a Seleção Japonesa chega ao Mundial de cabeça erguida e embalada pela confiança construída ao longo do ciclo. Em busca de mais do que uma campanha histórica, os japoneses entram em campo para provar que décadas de investimento, planejamento e incentivo ao futebol nacional podem finalmente resultar no salto que colocará o país entre as principais potências do esporte.
*Imagem de capa: Reprodução/Instagram/@japanfootballassociation
