Por Leda Lôbo (ledalobo@usp.br)
Depois de mais de seis anos de expectativas, Michael (2026) estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, (23). O novo longa dirigido por Antoine Fuqua reconstitui a carreira de um dos maiores artistas da história, desde seu início até o auge.
O filme começa com gritos eufóricos do público e com o artista se preparando para um show durante a Bad World Tour, exatamente no pico da trajetória artística de Michael Jackson (Jaafar Jackson), porém esse momento é interrompido e a audiência é levada aos primórdios da vida do cantor: o início do The Jackson 5.
A abertura propõe uma retomada à história do músico e, ao mesmo tempo, traz a percepção que a criança permanece no adulto. Assim, o filme se revela como uma forma de entender como ele chegou até o estrelato, mas, na realidade, a obra se limita exatamente em compreender a complexidade da jornada do protagonista.
A fama quase que instantânea do grupo musical é alavancada por diversos fatores: o talento, somado ao carisma de Michael, o descobrimento pela gravadora Motown – que revolucionou o cenário musical americano ao lançar grandes artistas negros – e, especialmente, Joseph “Joe” Jackson (Colman Domingo). O pai dos integrantes tem uma figura fundamental na trama, não só por ser idealizador e empresário da banda, mas também por ser o antagonista da obra. Com ele, surge o maior conflito do filme.
A relação entre Joe e Michael é conturbada, abusiva e impulsionada pela figura vilanesca materializada por Domingo. Ao mesmo tempo que o pai se apresenta como o maior incentivador da jornada artística do filho, ele nunca está satisfeito com o que ou quanto o filho produz. A pressão de Joseph, junto a agressões, gera no astro uma insegurança que o permeia durante toda a história e funciona como fio-condutor da narrativa, sendo fundamental para compreender o caminho traçado por Michael Jackson.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
A direção de atores de Antoine Fuqua, ponto alto de outros filmes dele, como Dia de Treinamento (Training Day, 2001), é essencial para a boa construção da principal tensão da narrativa. O cineasta, conhecido pela extensa produção no cinema de ação, busca em Michael, fazer verdadeiros espetáculos ao recriar performances do músico, embora proponha um tom dramático à obra. Enquanto o drama está presente, mas um pouco acuado, é possível identificar o aproveitamento do repertório do diretor para as cenas de shows. Unida ao roteiro de John Logan, a direção remonta momentos importantes da carreira de Jackson, focando na potência artística e nas apresentações.
O protagonista é colocado como uma criança que perdeu a infância, e assim, tenta recuperá-la constantemente. Cativado pela fantasia, Michael se encanta com Peter Pan e com animais selvagens, que se tornam um refúgio para a vida de estrela. Esse escapismo se torna característica comum para entender o protagonista fora dos palcos e da indústria musical como um todo. Em momentos mais intimistas e focados em diálogos com personagens secundários à história, o filme tenta dar enfoque aos sentimentos de Jackson, mas acaba não desenvolvendo o que é trazido pelo protagonista, nem a relação entre ele e esses outros personagens.
O longa possui uma clara restrição acerca do retrato da vida pessoal do Rei do Pop. O filme se limita a mostrar Michael como uma eterna criança, mas não adentra as próprias características que usa para representar o personagem. A superficialidade faz com que Michael caminhe com segurança para os fãs e para a produção, sem expor demais a figura do ídolo.
De acordo com a revista Variety, o filme passou por refilmagem, devido a limitações relacionadas à abordagem das alegações de abuso infantil contra o cantor em produções ficcionais. A nova gravação fez com que o Michael tivesse outro direcionamento, sendo finalizado no auge da carreira do artista, ao invés de ir até um dos momentos mais sombrios de sua vida.
A mudança de todo o terceiro ato do filme alterou o rumo da narrativa e reforça limites na colocação de Michael Jackson como indivíduo e uma figura pública que esteve relacionada a diversas polêmicas durante sua trajetória. A modificação é claramente percebida com o rumo que é tomado em direção ao final do longa, que reforça o lugar seguro em que a obra quer se manter.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
Enquanto a trama avança, as apresentações são cada vez mais impressionantes. Há uma técnica que beira a perfeição para capturar a essência do artista no palco e que faz com que Michael se assemelhe a diversos filmes-concerto de excelência, inclusive o Michael Jackson’s This Is It (2009).
As cenas de shows foram gravadas em estádios com mais de 400 figurantes e realmente são capazes de imergir o público ao cenário. As outras apresentações também são feitas de forma excepcional, com destaque para a cena em que o processo criativo e a gravação do clipe de Thriller são exibidos. Esses momentos são bem usados para entender o artista e sua grandiosidade, trazendo um tom realista à sua imensidão criativa e à sua fama estrondosa.
O que impulsiona e carrega o filme é a eletrizante interpretação de Jaafar Jackson, sobrinho de Michael. Estreante nas telas, o ator incorpora o tio de maneira impecável, desde a vulnerabilidade do personagem até o vigor que o acompanha por toda a obra, fugindo completamente das caricaturas tão recorrentes em cinebiografias.

[Imagem: Divulgação/Lionsgate]
A presença de palco única do pop star é representada com uma força sublime e que consegue chegar no patamar original. O jogo de câmera, que funciona como se estivesse gravando um show ao vivo, é uma peça fundamental para que essa energia seja transmitida para o espectador. Durante a última apresentação do The Jackson 5, essa energia atinge o grau máximo, numa cena decisiva e que representa um marco de independência e de coragem de Michael Jackson com o anúncio de uma carreira totalmente autônoma da família.
A emancipação do cantor chega, mas ainda reflete o conflito com o pai, que vê o filho como principal garoto propaganda da marca familiar. A resistência de conter a produção individual de Michael permeia toda a trama. O vocalista é usado como meio para alavancar a imagem do grupo e trazer dinheiro à família. Como conflito central da narrativa, o filme sempre retorna à relação e a usa para construir uma tensão que é cessada em direção a seu fim.
Em meio à liberdade do artista em relação às amarras familiares em sua produção, Michael chega ao auge da carreira movido pelo sucesso de Thriller e encaminhando um novo álbum. O longa, então, retorna ao ponto inicial: a turnê mundial de Bad. Após uma performance impecável, o filme acaba com um adendo: a história ainda vai continuar.
O final no topo da jornada do protagonista foge do mais clássico modelo redondo de contar histórias de personagens reais, sendo uma forma de provocar no espectador um interesse sobre o que o prometido próximo projeto, que deverá abordar um Michael Jackson mais independente, mais complexo e mais polêmico, pode mostrar. Além disso, parece um meio de retomar o que foi cortado pela refilmagem no futuro. O formato é uma maneira de contar a história completa sem condensar tudo em um único filme e de fragmentar entre ascensão e queda, mas o fim apressado dá um sentimento de que o resto da narrativa foi empurrada para uma obra posterior.
Embora as performances sejam feitas brilhantemente, o homem por trás delas fica um tanto quanto apagado. Quando aparece, é restrito a ser uma figura quase que intocável, que tem suas fragilidades a mostra, em espacial em relação à dualidade entre ter crescido muito rápido e ser um adulto que retorna a infância que mal teve – ou à que poderia ter acontecido – e ao relacionamento com o pai, mas restrito a esse ambiente e a uma apresentação contida, que parece mostrar um ser imaculado.
Michael é um belo filme-homenagem, mas se limita como biografia. Apesar de entreter, é sutil e trabalha com segurança, tanto para cativar a audiência, quanto para enaltecer o legado do artista.

Michael já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de Capa: [Divulgação/Lionsgate]
