Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

‘Virtuosas’: um terror religiosamente feminino

Longa mistura drama e horror de forma sagaz em enredo que coloca as mulheres como protagonistas em um contexto que busca sempre apagá-las
Por Thaís Vicari (thais.vicari@usp.br)

Virtuosas (2025) chega aos cinemas de todo o país nesta quinta-feira (24). O filme é o primeiro longa-metragem dirigido por Cíntia Domit Bittar e foi produzido pela Novelo Filmes, produtora audiovisual catarinense e liderada por mulheres. No ano de 2025, Virtuosas recebeu o Prêmio Netflix na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Goes To Cannes Award no Marché du Film, um dos maiores mercados de cinema do mundo.

A trama acompanha um grupo de mulheres cristãs que é sorteado para participar de uma espécie de “retiro espiritual” para aprender mais sobre feminilidade. O grupo é liderado por Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer), influencer que se aproveita das mulheres virtuosas – mais conhecidas nas redes como tradwifes – e oferece mentorias na internet àquelas que desejam encontrar sua melhor versão.

Entre as selecionadas para o retiro estão Bárbara Rossi (Sarah Motta), uma mulher extremamente religiosa e seguidora fiel de Virgínia; Lorena Canollo (Juliana Lourenção), esposa de deputado e mãe de primeira viagem que carrega o filho recém nascido para todos os lugares; e Germina (Maria Galant), que parece se distanciar das demais por carregar certa desconfiança sobre o retiro.

A sequência inicial do filme mostra o sorteio das mulheres
[Imagem: Reprodução/Youtube/@Olhar]

A “Jornada Virtuosa VIP da Virgínia” começa quando o trio chega a uma mansão grandiosa e isolada onde passarão uma semana para receber a mentoria. O grupo é introduzido a Gorete (Brisa Marques), que já participou de um retiro e agora atua como assistente da influencer. A relação da personagem com Virgínia chama a atenção desde o início por mostrar uma dinâmica de poder interessante, em que a assistente mais parece uma devota da influencer, ultrapassando os limites profissionais e trazendo suspeitas ao público.

A mentoria oferecida no retiro é voltada em formar as mulheres para serem mães, esposas e donas do lar e portanto, uma boa porcentagem do longa é preenchido por cenas das personagens cozinhando, conversando sobre a bíblia, fazendo crochê e preocupadas com o filho de Lorena, que acompanhou a mãe no retiro e chora o tempo todo. Grande parte do longa é construído a partir de uma monotonia que também dita o ritmo de tensão da obra. 

A parte dramática da trama é construída através da relação das personagens, principalmente pelas interações, em diferentes camadas, de Virgínia com as participantes do retiro. As nuances e o arco narrativo complexo de Germina, personagem mais explorada na obra, também trazem consigo o drama.

Durante a primeira metade do longa, ele parece ser um tanto quanto repetitivo, mas são nas cenas que inicialmente parecem trazer um ar tedioso para o filme que o horror passa a ser construído. Os diálogos apresentam, em diversas camadas, um negacionismo científico e um fanatismo religioso que assustam pela semelhança com a realidade.

Apesar de ser o principal recurso na construção da atmosfera de terror e de causar, de fato, um desconforto no telespectador, em alguns momentos os diálogos aparecem quase como caricaturas de discursos da extrema direita, com uma representação satirizada que afasta o tom de seriedade da questão. 

As personagens também seguem, até certo ponto, arquétipos. Cada uma representa um estereótipo da comunidade cristã: uma líder que se porta como coach, uma seguidora cega pela religião, uma mulher definida exclusivamente pelo fato de ser mãe, etc. A falta de desenvolvimento das individualidades deixa a desejar, com exceção de Germina, personagem que recebe mais atenção no filme. 

Apesar disso, a escolha do roteiro em não se aprofundar nas personagens se mostra como um ótimo recurso narrativo no contexto do filme, reforçando uma visão conservadora de que as mulheres são apenas mães e esposas, nada além disso. 

A atuação também corrobora para a construção desses arquétipos. As performances são intensas e caricatas, reforçando e enfatizando as características marcantes de cada personagem. Nesse contexto, destacam-se Juliana Lourenção, pela potência de sua personagem, que rouba a atenção em diversas cenas (sobretudo nos momentos finais do longa), e Maria Galant, por construir um caráter mais humano, real e complexo que desperta certa identificação no telespectador.

Outro fator interessante na construção da atmosfera do filme é a paleta de cores. A cor predominante nos figurinos é o salmão, que segundo a diretora, mistura o rosa, que representa a feminilidade, e o vermelho, que representa o sangue. A utilização da cor traz uma ideia de homogeneização das personagens, mas funciona também como uma premonição para o caos que se instaura no retiro que inicialmente parecia tranquilo.

A suposta homogeneização das mulheres começa a se desfazer quando a segunda metade do longa se inicia, trazendo um terror mais palpável [Imagem: Reprodução/Youtube/@Olhar]

O terror se sobrepõe ao drama justamente quando a imagem de “mulher perfeita” mantida por algumas das personagens começa a ruir e as verdadeiras identidades passam a entrar em confronto — mostrando que por mais que pareçam todas iguais por fora, elas ainda carregam suas próprias motivações. As máscaras utilizadas pelas personagens começam a se desfazer quando Germina passa a questionar cada vez mais a conduta das demais mulheres e a presenciar comportamentos estranhos.

O momento em que o filme caminha para seu arco de terror é marcado e enfatizado pelo fanatismo religioso, que traz um tom mais sombrio para a trama. Isso é construído não só pelo roteiro, que abraça de vez o terror, mas também pelas escolhas da direção, que passa a optar por cenas com menos luminosidade e sequências sangrentas. A montagem das cenas tem seu grande momento de destaque nos minutos finais do filme, em que a disposição e o corte das cenas enfatizam os acontecimentos e impactam a audiência.

A questão da religião se faz presente em diversas cenas, em que versículos bíblicos são utilizados – e distorcidos –  para justificar a ação das personagens, sobretudo de Virgínia, que além de aconselhar, passa também a ditar aquilo que as demais devem fazer. 

Falar sobre religião é sempre um tema arriscado, mas a abordagem religiosa é bem feita, na medida possível. O filme retrata um grupo que tem uma relação extrema com a religião, e é preciso assistir ao filme para entender que a crítica não é feita à comunidade cristã, mas aos grupos mais radicais, que fecham seus olhos para diversas questões em nome da fé. A construção caricata das personagens ajuda nessa percepção. Além disso, a grande crítica do longa recai sobre aqueles que distorcem determinados dogmas e se utilizam da religião apenas para conquistar poder.

O longa é curto, possui 86 minutos de duração, e parece terminar logo após seu clímax. No momento em que o telespectador se encontra no auge da tensão, intrigado e envolvido pelo enredo, os créditos começam a subir. Apesar da quebra de expectativa, isso faz com que o final do filme cause um impacto ainda maior em quem assiste.

O grande legado do longa – além de construir um enredo que condiz muito com o cenário político-religioso do país – é colocar, a todo momento, uma mulher como a grande vilã do filme. Os grandes filmes de terror costumam colocar um homem como a grande figura do mal, enquanto a mulher é sempre a vítima, seja tendo seu corpo violado ou incorporando um grande mal que controla suas ações. Aqui, a mulher é protagonista a todo momento e é a grande vilã por escolha própria e não por estar possuída por alguma entidade ou algo do tipo.

Virtuosas é, portanto, um filme de drama e horror que constrói sutilmente um desconforto no telespectador através de cenas aparentemente despretensiosas que precedem um grande momento de tensão. O longa faz, ainda, um movimento interessante ao colocar mulheres como protagonistas em uma trama pautada por discursos de grupos que buscam, a todo momento, apagá-las.

Virtuosas já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem da capa: Reprodução/Youtube/@Olhar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima