Por João Paulo Mansur (joaopaulomansur@usp.br)*
No dia 26 de julho, a Convenção Nacional do Partido Novo confirmou a candidatura do mineiro Romeu Zema (Novo) para o cargo de Presidente do Brasil. O candidato foi apresentado pela legenda como “um governante que busca o ‘Brasil Honesto’ e que livrou Minas Gerais do PT (Partido dos Trabalhadores)” e promete fazer isso com o resto do país.
O empresário mira alto na campanha para a posição no Planalto logo após oito anos sendo governador de um dos estados mais polarizados do país. Segundo pesquisa da Quaest, divulgada em 28 de julho, o seu governo alcançou mais de 52% de aprovação, ante os 41% que desaprovam seu mandato.
Minas Gerais elegeu o candidato à presidência mais votado no estado em todas as eleições pós-ditadura, tornando-se um estado-chave na disputa presidencial. Mesmo com índice positivo ao sair de dois mandatos — em um deles, eleito em primeiro turno — Zema, apresenta somente 1% dos votos válidos nacionalmente e em torno de 5% em Minas, segundo pesquisa Quaest divulgada em 14 de setembro.
O jornalista Thomas Traumann, em entrevista ao podcast O Assunto, do G1, aponta que a falta de distinção de Zema em relação ao bolsonarismo afeta a sua candidatura. Sua proximidade e estadia sob as asas desse movimento o limita a atingir um eleitorado próprio.
História na política
Zema é formado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e construiu sua carreira como empresário no Grupo Zema, conjunto de empresas fundado pelo seu bisavô na década de 1990. Havia se filiado ao Partido da República (PR), atual Partido Liberal (PL), em dezembro de 1999, durante quase duas décadas antes de ingressar no Novo para concorrer à sua primeira eleição em 2018 quando se tornou governador de Minas Gerais.
Seu passado político gerou discussões na época devido à sua postura antipetista. A campanha de seu oponente, Antônio Anastasia (PSDB), chegou a divulgar mensagens em plataformas digitais propagando que o candidato, o qual dizia ser uma pessoa nova na política, fazia parte de um partido que “apoiou o PT e coligado com Fernando Pimentel [candidato petista ao governo de Minas em 2018]”.
No primeiro turno de 2018, Zema conquistou a liderança, com mais de 40% dos votos válidos, mesmo após uma pesquisa divulgada no dia anterior mostrar o candidato em terceiro lugar com pouco mais de 20% das intenções de voto. Na segunda etapa, o mineiro foi eleito com uma vantagem alta, 71,8% dos votos válidos, em comparação com Anastasia que registrou 28,2%.
Diversos veículos apontam razões diferentes para a ascensão repentina do candidato. Segundo a Folha de S. Paulo, os principais motivos foram a proximidade com o bolsonarismo e o aproveitamento do sentimento antipetista forte no estado, que vinha crescendo devido à administração de Fernando Pimentel, marcada por uma crise econômica grave. Em 2022, Zema conquistou a reeleição em primeiro turno, com mais de 54% dos votos válidos.
À frente de Minas Gerais
Como governador do estado, Zema cumpriu sua promessa no Palácio das Mangabeiras e transformou a estadia em um espaço cultural com mediação privada. Prometeu doar todo o seu salário para instituições sem fins lucrativos em seu primeiro mandato, mas não anunciou quais entidades seriam ajudadas. Após aumentar a quantia recebida em quase 300% ao início de seu segundo governo, ele não deu continuidade à prática.
Ao final do seu mandato de quase oito anos, declarou ter mais de R$170 milhões em bens, quase o triplo em comparação à sua primeira eleição em 2018.
Sua gestão ficou amplamente conhecida por seus planos de privatização. Em entrevista à Band Minas, em março, Zema afirmou que gostaria de ter feito mais privatizações, defendeu as escolas cívico-militares, dizendo que é “o desejo das famílias e dos jovens”. Além disso, o então governador disse que as concessões da Copasa (Companhia de Saneamento) e da Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) seriam “excelentes para o mineiro”.
Em 2024, o governo recuou nos avanços dessas entregas após resistência de sindicatos. Mesmo assim, diversas hidrelétricas da CEMIG foram vendidas na tentativa de privatização do serviço. Hoje, ambas são sociedades de economia mista, ou seja, que combinam capital público e privado, mas com administração feita majoritariamente pelo Estado.
“Eu queria ter feito 5 mil coisas, acabei fazendo 2 mil, mas antes faziam 200. Daria pra fazer se não houvesse oposição e interesses diversos.”
Romeu Zema, ao se dizer frustrado por ter feito poucas privatizações em entrevista à Band News
Zema também apresentou planos para a Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), traçando possíveis caminhos para ela. Por conta da dívida de R$187 bilhões à União, o candidato planejava conceder diversos imóveis, incluindo prédios da Universidade, à União ou à iniciativa privada, caso a primeira rejeitasse a proposta. Em oposição, professores, servidores e prefeitos de cidades que sediam a instituição e alunos realizaram protestos acerca da situação.
Segundo membros de sindicatos, incluindo o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, a ação faria um desmonte no sistema público mineiro e na carreira de servidores. Zema também enfrentou dificuldades em seu plano de instituir escolas cívico-militares no estado, que foi barrado pelo Tribunal da Justiça de Minas Gerais.
Propostas de governo
De acordo com seu Plano de Governo, Zema apresenta um “Plano Implacável”, com propostas organizadas em mais de 80 páginas que englobam 20 áreas diversas. O documento não apresenta previsões de custo nem prazos para a realização de suas promessas.
No âmbito da Segurança Pública, o candidato defende a posse de armas em propriedades rurais; o fim dos fundos eleitoral e partidários; a redução da maioridade penal para os 16 anos e a classificação de facções criminosas —como o PCC e o CV —- como organizações terroristas. Sobre políticas trabalhistas, propõe a criação de uma alternativa ao regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), no qual empregados e empregadores discutiriam sobre o regime de trabalho.
Na educação, o mineiro sugere a transferência da gestão do ensino superior público do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), deixando para o MEC somente a educação básica. Ele defende também a ampliação de escolas cívico-militares e nota mínima no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) para recebimento do Pé-de-Meia.
Na saúde, ele defende a expansão da telemedicina e o uso de Inteligência Artificial (IA) na gestão de filas. O plano busca ampliar contratos com hospitais e clínicas para reduzir esperas.
Para o Supremo Tribunal Federal (STF) e o sistema político, o candidato propõe uma elevação da idade mínima para indicação de ministros ao STF de 35 para 60 anos. Ele também defende o fim de fundos e a permissão de financiamento eleitoral por empresas privadas, dentro de limites de transparência.
Seu plano apresenta ainda a ideia de candidaturas independentes, sem partido, e a união de municípios que não têm arrecadação suficiente para custear a própria estrutura administrativa. Além disso, o ex-governador defende a saída do Brasil do BRICS
Quem ele irá apoiar em um possível segundo turno?
Zema surfou na onda do bolsonarismo para se eleger em 2018, e apoiou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022. Recentemente, o candidato criticou Flávio Bolsonaro (PL) por sua proximidade ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e foi rapidamente corrigido pelo partido Novo, que mantém alianças com o filho de Bolsonaro em vários estados. Mais a frente, o candidato fez mais críticas a ele e sua relação com o banqueiro.
“Para mim, quem anda com bandido merece ser visto com cautela.”
Romeu Zema, em entrevista ao Brasil Paralelo
Em 2022, o Novo recebeu R$1 milhão do pai de Vorcaro, Henrique Vorcaro. Em nota, a assessoria de Zema diz que o dinheiro foi destinado ao partido e não a ele, e que a transação foi legal e registrada na Justiça Eleitoral. A transferência atingiu a mídia após a crítica de Zema acerca da ligação de Flávio com o banqueiro para o financiamento do filme biográfico de seu pai, ‘Dark Horse’.
Mesmo com desavenças entre os políticos, Zema afirma que irá apoiar qualquer candidato que faça oposição ao PT. Em entrevista à Itatiaia, ele criticou a ação de Lula ao anunciar um aumento do Bolsa Família a menos de três semanas das eleições, de R$600 para R$691.
Pesquisas de intenção de voto recentes apontam que o cenário mais provável para uma disputa de segundo turno será entre Lula e Flávio. Se as previsões se consolidarem, Zema apoiará o candidato do PL.
[Foto da Capa: Reprodução/Wikimedia Commons]
*Esta reportagem foi produzida pelo repórter João Paulo Mansur sob a supervisão da diretora de redação Gabriella dos Santos.





