Por Renata Paes (renatapaes777@usp.br)
Em meio às campanhas de eleição para Presidente da República em 2026, Minas Gerais se tornou palco da disputa pelo maior cargo político do Brasil. Com mais de 16 milhões de eleitores, o estado possui o segundo maior eleitorado do país, apenas atrás de São Paulo. Ainda assim, sua relevância ultrapassa a quantidade total de votantes: desde 1989, primeira eleição presidencial após a redemocratização, o candidato mais votado no estado também venceu a eleição nacional. Na época, Fernando Collor de Mello (atualmente sem partido; à época, filiado ao PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegaram ao segundo turno. Collor venceu com 55,52% dos votos em MG e 53,03% em todo país. Essa coincidência histórica é o que deu a Minas Gerais a fama de “termômetro eleitoral”.
Há registros jornalísticos do uso da expressão para se referir ao estado pelo menos desde 2010. Ela ilustra a atuação do estado como um sinalizador do comportamento brasileiro. O eleitorado mineiro tem a diversidade socioeconômica e geográfica como característica marcante, de acordo com Thiago Silame, pesquisador do Centro de Estudos Legislativos da Uinversidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Por reunir traços semelhantes às disparidades do território brasileiro, o estado se torna, para o cientista político pela universidade UFMG Leonardo Avritzer, uma espécie de síntese do público votante nacional. De acordo com um levantamento realizado pelo jornal O Estado de S.Paulo, a capacidade de Minas de acompanhar o resultado nacional é observada desde 1945: naquele período, apenas Getúlio Vargas foi eleito presidente sem ser o candidato mais votado no estado.
A partir de 1989, porém, essa coincidência tornou-se contínua. Na primeira eleição presidencial após a redemocratização e em todas as disputas seguintes, o candidato eleito também foi o mais votado em Minas Gerais. É essa sequência ininterrupta que consolidou a associação do estado à expressão “termômetro eleitoral”. Embora o resultado mineiro não seja a única variável capaz de determinar uma eleição, a coincidência histórica desperta o interesse de pesquisadores do comportamento eleitoral, que buscam compreender o que há de particular no voto dos mineiros.

‘Um espelho do Brasil’
A diversidade socioeconômica mineira é semelhante às características heterogêneas presentes na população nacional, de acordo com o cientista político Cristiano Rodrigues, professor da UFMG, em entrevista à CNN Brasil. O território mineiro, quarto maior do país com aproximadamente 586 mil km² de extensão, abrange 12 mesorregiões com índices de desenvolvimento e economia díspares.
Segundo Rodrigues, o eleitorado apresenta comportamentos distintos entre as regiões do estado. O Sul de Minas, área mais rica e próxima a São Paulo, tende a votar de maneira semelhante aos paulistas. Já o Norte do estado e o Vale do Jequitinhonha, regiões mais pobres e próximas à Bahia, apresentam comportamento eleitoral semelhante ao de algumas partes do Nordeste. No Triângulo Mineiro, marcado pela força do agronegócio, o eleitorado se aproxima mais do padrão observado em Goiás.
A mesma pluralidade aparece no território brasileiro, onde as preferências eleitorais também variam entre regiões. A diferença é que, em Minas Gerais, parte dessas tendências se concentra em um único estado. Essa característica ajuda a explicar por que o comportamento eleitoral mineiro acompanha historicamente o resultado das eleições presidenciais.

Tradição política
Desde a República Velha, denominação dada à primeira fase do regime republicano nacional, MG se projetou como um dos estados mais importantes da política brasileira. Entre o final do século 19 e o início do século 20, Minas Gerais e São Paulo concentraram parte importante do poder político da República Velha. A articulação entre as elites dos dois estados ficou conhecida como Política do Café com Leite, em referência à força econômica do café paulista e da pecuária e produção leiteira mineira.
Juscelino Kubitschek, ex-presidente da República responsável pela construção de Brasília, também foi uma liderança projetada pela política mineira. Nascido em Diamantina, na região central de Minas Gerais, iniciou sua trajetória política no estado e chegou à Presidência da República em 1956. O Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, organizado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc), da Fundação Getulio Vargas (FGV), classifica-o entre os expoentes da Segunda República. Kubitschek é lembrado pelo seu plano desenvolvimentista governamental baseado no lema “50 anos em 5”.
Tancredo Neves, ex-deputado federal, senador e governador de Minas Gerais entre 1983 e 1984, representa essa projeção da política mineira no cenário nacional. Em 1985, foi eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral na primeira eleição presidencial após 21 anos de regime militar, mas morreu antes de tomar posse. Já Dilma Rousseff (PT), primeira mulher a assumir a Presidência da República, nasceu em Belo Horizonte e também chegou ao mais alto cargo do Executivo nacional. Sua trajetória política, porém, foi construída principalmente no Rio Grande do Sul.
Minas Gerais reúne nove nomes associados ao cargo de Presidente da República, o maior número entre as unidades da federação, segundo levantamento citado pela CNN Brasil. São eles: Afonso Pena, Venceslau Brás, Delfim Moreira, Artur Bernardes, Carlos Luz, Juscelino Kubitschek, Pedro Aleixo, Tancredo Neves e Dilma Rousseff.
Os fatores das eleições de 2026
A importância de Minas Gerais para a disputa presidencial também aparece na movimentação dos próprios candidatos. No início da campanha de 2026, Lula realizou atos em Governador Valadares e Belo Horizonte. Flávio Bolsonaro (PL), por sua vez, também colocou Minas no roteiro eleitoral e participou de compromissos políticos no estado.

A disputa mineira, contudo, não se resume à presença física dos presidenciáveis. Os palanques estaduais também aproximam os candidatos nacionais dos eleitores. Em Minas, Lula aparece ao lado de Patrus Ananias (PT), candidato ao governo estadual, enquanto Flávio Bolsonaro esteve em Belo Horizonte no lançamento da candidatura de Flávio Roscoe (PL) ao Palácio Tiradentes.
As pesquisas eleitorais ajudam a dimensionar o equilíbrio da disputa. Um levantamento da Quaest, realizado entre 21 e 24 de agosto, com 1.506 eleitores de Minas Gerais, apontou Flávio Bolsonaro com 31% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Lula, com 30%. Romeu Zema (Novo), ex-governador do estado e também candidato à Presidência, apareceu com 7%.
O cenário, porém, mudou poucos dias depois. A pesquisa Real Time Big Data, realizada entre 22 e 26 de agosto com 2 mil eleitores mineiros, colocou Lula na liderança, com 39%, contra 34% de Flávio Bolsonaro. Zema apareceu novamente em terceiro, com 9%. No segundo turno, Lula também ficou numericamente à frente: 46% contra 44% de Flávio. O levantamento tem margem de erro de dois pontos percentuais.
A proximidade entre os candidatos pode revelar um eleitorado mineiro disputado e ajudar a explicar a atenção direcionada ao estado durante a campanha. No cenário nacional mais recente do PoderData, divulgado em 27 de agosto, Lula tinha 38% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro, 35%. Em Minas, portanto, a diferença registrada pela Real Time Big Data foi de cinco pontos percentuais, enquanto a pesquisa nacional apontava uma vantagem de três pontos para Lula.

Embora as pesquisas não permitam prever o resultado das urnas, a comparação entre os levantamentos mostra que Minas permanece no centro da disputa presidencial. O estado reúne, ao mesmo tempo, um eleitorado numeroso, diferentes comportamentos regionais e uma competição acirrada entre os principais candidatos — características que ajudam a manter viva a metáfora do “termômetro eleitoral”.
Foto de capa: Cidade Administrativa/Wikipedia
*Esta reportagem foi produzida pela repórter Renata Paes sob a supervisão da diretora de Redação Gabriela César.

